10/01/2017 às 19h46min - Atualizada em 16/11/2018 às 14h39min

Ofícios que a modernidade não dissolveu

Um passeio despretensioso pelo bairro Estados Unidos, é um disparate nos dias atuais. Requer tempo, e tempo é raridade. Quanto mais se busca, mais se perde. Quanto mais se corre atrás dele, mais cansado ficamos.

Mas a fadiga passa longe do martelo e da máquina de costura na Sapataria Cardoso. Esse barulho repetitivo ao redor da praça Comendador Quintino entrega: o trabalho é praticamente artesanal.

Mesmo longe da tecnologia, a sapatearia sobrevive há 4 décadas. “Trabalhamos desde os 8 anos e aos 16 montamos um negócio para nós e estamos até hoje”, conta o senhor Luis Fernando Cardoso, que sempre confundo com seu Fernando Luis, não pelo fato de serem irmãos gêmeos, mas essa inversão dos nomes provoca uma confusão mental.

Voltando à profissão, que vem de família e ultrapassa gerações, os irmãos Cardoso têm orgulho de ensinar a Rodrigo, filho de seu Fernando, o ofício de sapateiro. O amor pelo trabalho é tamanho que eles não fecham as portas nem na hora do almoço. “ Aqui nunca faltou serviço, graças a Deus, mas nesses tempos de crise, triplicou o trabalho”, diz o seu Fernando que é orgulho em cada fio do bigode grisalho!

Para economizar, muita gente prefere reformar a investir em um sapato novo. E para abrir um leque nas opções, a família de sapateiros conserta bolsas e até malas. “Eu sou econômica, estou sempre economizando”, diz uma das clientes que deixa a sapataria apressada. E se o cliente gosta, a empresa vai... como se diz mesmo a expressão? De vento em popa, no caso, roupa!

O ferro de passar do seu Patriarca Souza, 85, também tem história. Desamarrotou muitos tecidos, o dono perdeu a conta.

Bom de corte, de costura e de memória. Se lembra bem de como tudo começou. “ Eu trabalhava com um amigo, mas eu tinha marcado o casamento e para ganhar um dinheiro a mais resolvi abrir a alfaiataria”.

Mas para resistir aos novos tempos, em que as pessoas têm pressa para tudo, até de se vestir, há 22 anos, o alfaiate decidiu deixar de lado a alfaiataria e apostou no aluguel de trajes. “ Estava muito difícil, o máximo que eu fazia era dois ternos por semana, trabalhando dia e noite e não dava conta de pagar os encargos sociais, aluguel, luz água telefone”, lamentou.

Na loja, a companhia é o filho único, que não pensa em parar com as atividades tão cedo. “Meu pai falou assim que acha que vai parar, mas eu pretendo continuar, conforme for, vou só arrumar uma pessoa que mexa no comprimento da calça ou na cinta por exemplo, porque temos uma quantidade de terno boa, mas sempre tem que ir renovando estoque, então penso em continuar”, garante o empresário Patriarca Júnior.

Continuar, ir tocando em frente...

Foi o que o artesão Wagner Braga Souza fez na oficina, que funciona nos fundos da casa, onde ele vive com a família. É preciso pouco espaço para que violão e viola ganhem silhueta nas mãos do profissional que é chamado de luthier.

Ironia ou não, esse artista que dá vida aos instrumentos, não aprendeu a tocá-los. “Eu acho que é uma questão de a vocação, a minha é para fazer e não para tocar”.

Antes de ser um luthier, Wagner era marceneiro. Aprendeu a profissão com o pai que o ensinou com paciência a fabricar os instrumentos com perfeição.

Nesses últimos 25 anos, o mercado passou por transformações, os instrumentos que em sua maioria, eram acústicos, passaram a ser elétricos e aí, para se manter vivo na produção de instrumentos, o Wagner teve que se adaptar. “A gente tem que pensar no agora, tem que procurar aprimorar cada vez mais para acompanhar o que há de melhor no mercado para oferecer nos instrumentos também”.

Ofertar o melhor com tão pouco é coisa de gente que é grande, pensei batendo perna por aí.

Não precisa ir muito longe para a vida proporcionar esses encontros com uma família de sapateiros que sonha alto, sem tirar os pés do chão, para ver de perto uma relação tão sólida de pai e filho que empreendem juntos e se encantar com o trabalho de um fabricante de instrumentos que vai tocando a vida despreocupado com o futuro.

No fim, ou mesmo no início do expediente, vale saber que ainda existem exemplos de que é possível sim, unir gentileza, trabalho, satisfação e rentabilidade.

Vamos à luta, vamos na fé!


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