10/01/2017 às 08h01min - Atualizada em 10/01/2017 às 08h01min

A sabedoria popular de Estamira – A mitificação, a mulher e o lixo

Marcos Prado é um cineasta com um dom que nasce na contramão do nosso país: o de dar voz a pessoas de vida modesta. Responsável pelo ótimo Os Carvoeiros (1999) e Ônibus 174 (2002), o diretor constrói a narrativa de Estamira, a mítica moradora do lixão do Jardim Gramaxo (Grande Rio), uma mulher munida de um discurso poderoso sobre a sociedade, Deus e o homem.

O documentário é um impressionante recorte do universo de uma mulher modelada pelas experiências e estímulos empíricos da vida. Os primeiros frames colocam em tela uma mulher de 63 anos voltando pra “casa”, lugar onde vive e trabalha há mais de 20 anos. Estamira retira não somente seu sustento do lixão, mas boa parte de suas críticas à uma sociedade decadente e hipócrita. No decorrer do filme, o espectador é dirigido pelo discurso da própria protagonista, nos fazendo refletir valores e atitudes enraizadas em nossas ações diárias de forma inconsciente. A fala mística de Estamira, por vezes, corrompe o que entendemos por razão, colocando para quem assiste questionamentos repletos de poder:

“A minha carne, o sangue, é indefesa, como a Terra; mas eu, a minha áurea não é indefesa não. Se queimar os espaços todinho, e eu tô no meio, pode queimar, eu tô no meio, invisível. Se queimar meu sentimento, minha carne, meu sangue, se for pra o bem, se for pra verdade, pra o bem, pela lucidez de todos os seres, pra mim pode ser agora, nesse segundo, e eu agradeço ainda.” (2001)

Estamira é a própria imagem do pré-conceito, da imagem da loucura, o estereótipo que a sociedade coloca na figura de pessoas com problemas psíquicos, retirando o pouco de voz que lhe pode sobrar. É a mesma sociedade que ofusca o “eu” que se arrasta e sobrevive no limiar da sanidade.

“Quem já teve medo de dizer a verdade, largou de morrer? Largou? Quem andou com Deus dia e noite, noite e dia na boca ainda mais com os deboches, largou de morrer? Quem fez o que ele mandou, o que o da quadrilha dele manda, largou de morrer? Largou de passar fome? Largou de miséria? Ah, não dá!” (2001)

Talvez seja um filme que opere de forma intimista por tomar um discurso livre sem a narração de outros e destacar detalhes do corpo da protagonista enquanto fala. Em outras situações temos belíssimas tomadas de imagens que ampliam o horizonte, mudando o foco para o lugar em que o indivíduo fala, nesse caso, também um personagem: o lixão.

Eu nunca tive sorte. A única sorte que eu tive foi de conhecer o Sr. Jardim Gramacho, o lixão, O Sr. Cisco-Monturo.... Eu amo, eu adoro! ... Como eu quero o bem dos meus filhos... Como eu quero o bem dos amigos... Eu nunca tive. Aquela coisa que eu sou: sorte boa.” (2001)

Fica bastante claro como Estamira se transforma numa figura superior e até mesmo sagrada no documentário. Assistimos a uma mulher etérea (que vibra em outra dimensão) que não foi maculada pelos moldes da sociedade, pelos formatos do capitalismo.

Como coloca o próprio diretor em entrevistas, Estamira era quase que uma profetisa dos tempos atuais, completamente, legítima. Segundo Prado, todos os discursos colocados em cena são contínuos e sem edição. Para ela, o verdadeiro lixo são valores falidos em que a sociedade vive. Em 28 de julho de 2011, Estamira morreu com uma infecção generalizada nos corredores de um hospital. Seu irmão e o diretor do longa acusam o lugar onde fora internada de negligência, pois, já havia sido diagnosticada com infecção sem haver qualquer atendimento. Talvez seja o triste fim de outras Estamiras alojadas nos corredores dos hospitais desse país implacável.

A voz física de Estamira se calou para sempre numa quinta-feira, mas o cinema de Marcos Prado a eternizou com belíssimas passagens que nenhuma sociedade torpe poderá apagá-la, pois...

“As montanhas, a paisagem e a Estamira, Estamar, Esta serra... tá em tudo quanto é canto, tudo quanto é lado... até meu sentimento mesmo vê, todo mundo vê... a Estamira.” (2001)


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