09/01/2017 às 13h30min - Atualizada em 09/01/2017 às 13h30min

Os últimos sebos

Redutos de cultura. Espaços de lazer. Pontos de informação. Os sebos são locais onde o cliente pode passar momentos agradáveis, se “desligando” da correria do dia a dia, na busca por um livro, revista ou disco antigo... ou, num lugar onde se encontra de tudo, procurar nada em especial, apenas fuçar nas prateleiras e, de repente, achar alguma obra que chame atenção.

Os sebos, para alguns, estão com os dias contados – a literatura e a música de qualidade também estariam. O fim dos sebos seria apenas o reflexo da diminuição do interesse pela leitura e pelas boas canções de antigamente.

Em Uberaba, porém, alguns teimam em continuar existindo. Bom para quem procura um livro ou revista específicos e não quer pagar caro nas lojas virtuais ou não acha em outro local. Melhor ainda para quem vai aos sebos não porque “precisa” do produto, mas porque, sem saber em que obra exatamente, quer encontrar uma boa leitura – e só na hora descobrem qual.


“Amigos do Livro” tem mais de 25 mil exemplares

O sebo “Amigos do Livro” é o maior em número de exemplares em Uberaba. São 25 mil livros, dos mais diversos tipos e assuntos, segundo a proprietária, Lizandra Castro. Tem literatura nacional e estrangeira, livro didático, manuais, obras científicas, livretos, romances, enciclopédias, enfim, a variedade é grande. Tudo acomodado na garagem e na sala de uma casa.

Lizandra sempre gostou de leitura. Há dez anos, ela tinha mais de 600 livros e resolveu vender todos para, com o dinheiro, comprar um carro. Acontece que, ao oferecer todos os exemplares de uma vez a uma livraria, ficou frustrada com o preço que ofereciam pelo montante (cerca de R$ 300). Decidiu, então, colocar uma mesinha em frente a um supermercado e ir vendendo aos poucos. “No primeiro dia, vendi uns 300 livros. Aí vi que poderia trabalhar com isso”, recorda.

A empreendedora ficou cerca de um ano na rua, e, além da mesinha, logo precisou do reforço de uma estante. Comprando e ganhando mais livros, foi aumentando o estoque. O total de volumes já estava exorbitante e o pai então ofereceu a garagem da casa para acomodar a biblioteca e montar o negócio, que hoje já ocupa outra sala e logo terá que usar o espaço de outro cômodo.

Fisioterapeuta por formação, tendo feito também um curso técnico de trânsito, Lizandra trabalha com o que gosta e se sente realizada. Para ela, que teve a mãe como exemplo de leitora, hoje o público jovem não está muito ligado em leitura. “Até tem crianças que gostam, mas a maioria que vem aqui é ‘empurrada’ pelos pais”, comenta.

No seu sebo, os clientes encontram livros de R$ 5 a R$ 300, dependendo da raridade da obra. A loja só vende. “Não troco porque muitas vezes a pessoa não entende o valor do livro. Um fininho pode custar bem mais caro que outro grosso, por exemplo”, diz ela.

Entre tantos modelos, um cantinho tem uma enciclopédia Barsa, um clássico de outros tempos. Será que ainda há interessados em um produto do tipo? “Sim. Muitas pessoas compram como enfeite, usam para decorar a casa”, afirma a empresária.


Sebo Amigos do LivroRua Juca Marinho, 75 – Mercês Telefone: 3313-7422 Funciona de 2ª a 6ª das 10h às 18h, e aos sábados das 10h às 14h


No Sebo da Jozi, cultura e conhecimento a partir de R$ 1

Depois de 22 anos trabalhando em uma livraria, em diferentes funções, Joziane Souza se viu obrigada a decidir o que fazer quando o estabelecimento fechou. Para não ficar longe de sua paixão, os livros, ela abriu o “Sebo da Jozi”, há seis meses. A loja conta com cerca de 5 mil exemplares e, segundo a proprietária, não visa só o comércio, mas cumpre também o papel de incentivadora da cultura, oferecendo livros por apenas R$ 1. “Temos essa responsabilidade social. A banquinha de um real ficaria só no primeiro mês, mas decidi manter, mostrando que o livro pode ser algo acessível, e que um real é dinheiro”, frisa. Além da banca do preço mínimo, dá para encontrar livros em bom estado por um valor bacana. Ela mostra um exemplar em excelente estado, praticamente novo, que custa R$ 10, cerca de 25% do valor de um novo. Os preços mais em conta são para dar a chance de mais pessoas terem acesso à leitura. Jozi também aceita trocas.

Entre a clientela, tem os “ratos de sebo”, que costumam ir sem pressa, se deleitam entre as prateleiras; e os que aproveitam um intervalo, na hora do almoço, por exemplo, para comprar um livro. Para qualquer um deles, a atenção e o conhecimento do acervo são diferenciais de Jozi, que diz que não tem todo o estoque catalogado, mas, modéstia à parte, conhece quase tudo de cor e normalmente sabe se tem o livro que a pessoa pede e consegue dar alguma informação sobre ele. “Falta cadastrar alguns que estão guardados, mas todos que estão expostos, tirando os da banca de um real, são catalogados, mas nem sempre preciso consultar o registro”. A empresária comenta que decidiu abrir o sebo para não deixar a cidade sem opções, depois do encerramento das atividades da tradicional Alternativa, onde trabalhou a vida inteira. “Uma cidade de 300 mil habitantes não ter uma livraria, um local de cultura e conhecimento, não dá para aceitar”, comenta. Ela lembra também o fechamento da loja de CDs Tsutaya, que funcionava num shopping, e também não entende. “Eu abri o sebo e pensei ‘se não der certo, é porque tem alguma coisa errada mesmo’. Cidades de menor porte têm mais livrarias”, destaca.

O Sebo da Jozi tem livros raros e antigos. Um exemplo é uma edição de “A cidade do ouro e das ruínas”, de Visconde de Taunay, que tem uma dedicatória, talvez do dono ou para o dono, datada de 1929. Ela também apresenta um exemplar de “João Ternura”, de Aníbal Machado, de 1968, que traz, como a editora José Olympio fazia na época, um resumo dos principais acontecimentos do ano de publicação. O cliente e amigo Emílio Rogê procura obras sobre teatro, sua paixão. E acaba sempre viajando por outros assuntos. “Não venho só para comprar, venho passear, sebo é uma experiência bacana, você sempre encontra coisas que não esperava. Os livros, além de histórias, são também um registro do tempo”, ressalta.

Sebo da JoziRua Tristão de Castro, 185 – Centro Telefone: 3317-6060 Funciona de 2ª a 6ª das 12h às 19h, e aos sábados das 9h às 13h


Banca Reta Final tem de tudo – até revistas!

Quando funcionava no Camelódromo, a Banca Reta Final era destino certo para quem quisesse comprar ou trocar gibis, revistas de mulher pelada, livros de bolso e discos de vinil. A banca mudou de endereço – e quase que totalmente, de ramo também. Agora, o cômodo na avenida Bandeirantes tem de quase tudo. Utensílios de cozinha, cintos e acessórios, aparelhos de videocassete (vendidos por R$ 30), televisões, aparelhos de som, carregadores de celular, ferramentas e uma infinidade de quinquilharias dividem espaço. Os vinis não foram esquecidos. Vitrolas e até uma craviola (uma espécie de guitarra de 12 cordas, ou seis cordas duplas, como queiram) também estão à venda. Ah, e tem revistas, também!

A mudança no estoque foi inevitável, afirma o proprietário, Júnior. O motivo é que o público leitor está rareando cada vez mais. Depois do Camelódromo, Júnior se instalou na avenida Saldanha Marinho e ali começou a mesclar as mercadorias. Na Bandeirantes, os discos, gibis e revistas já são minoria. “Agora não é mais sebo, virou brechó”, diz o dono.

O comerciante é fã dos gibis das décadas de 50 e 60, como Tarzan, Zorro, Fantasma e Reis do Faroeste. Todos sucessos da época, assim como os chamados bolsolivros, com as histórias de faroeste. Foi com revistas do gênero que ele iniciou o negócio. Claro, acrescentou outras publicações, como os romances que as mulheres gostavam, como “Júlia” e “Sabrina”, assim como os quadrinhos de heróis e as revistas e fitas pornôs. Embora a Playboy vendesse bem, publicações como “Abusada” e “Private” tinham mais saída.

Outros tempos. As revistas adultas hoje ficam encalhadas. “Depois da internet, foi uma decadência”, diz Júnior. O público não se renovou. “A mulher que lia os romances, não tem tempo: a filha casou e agora ela tem que cuidar dos netos. E os mais jovens não querem saber de ler”, explana.

No sebo (ou brechó), as revistas estão escondidas em um canto. Em outro, os discos de vinil. Tem também as notas e moedas antigas. E mercadorias que ficam fora da loja. “Outro dia comprei duas galinhas, aqui tem de tudo”, conta um cliente, que, além das penosas, já achou algumas raridades na coleção de vinis, como “um duplo, importado, do Elvis, já no fim de carreira”. O jeito é contar com os fregueses fiéis e vender outras coisas para não fechar as portas. “Gosto de coisas antigas, vou continuar com minhas velharadas”, conclui Júnior.


Banca Reta FinalAvenida Bandeirantes, 160 – Gameleira Telefone: 98888-4518 Funciona de 2ª a 6ª (exceto 4ª) das 8h30 às 18h, e aos sábados das 8h30 às 14h


No Boa Vista, um oásis para os amantes de Tex

Em um cômodo discreto e acanhado, com um letreiro meio apagado e uma placa com os dizeres “Revista usada”, fica a Banca Boa Vista, que o proprietário, Carlos Eduardo, vai renomear para “Sebo Boa Vista” quando reformar a fachada. Carlos, que trabalhava na construção civil antes, é irmão de Júnior, da Banca Reta Final. Foram sócios no sebo que funcionava no Camelódromo, mas encerraram a parceria e, há oito anos, ele toca sozinho o negócio.

O Sebo Boa Vista tem milhares de gibis e revistas. Deve ser o único “sobrevivente” do ramo de revistas usadas em Uberaba, já que nos outros o forte são os livros. Aqui tem livros também, afinal, não podem faltar num sebo os romances “Júlia” e “Sabrina”. Mas o acervo é composto em sua maioria pelas revistas antigas. Tem Playboy, Placar, Super Interessante e os gibis de faroeste do personagem Tex. Há espaço também para vinis e DVDs originais. O sistema é de compra e também de troca “dois por um”.

Para os amantes de Tex, o local é um “oásis”. As revistinhas estão em bom estado e os números antigos são atrações. A organização chama atenção. Os leitores “ratos de sebo” estão acostumados a procurar as revistas em meio à bagunça. Carlos monta pacotinhos com os números em sequência, vendendo aventuras completas – as histórias de Tex são publicadas em diversos números em seguida, iniciando em uma edição e terminando em outra (o número de revistas varia conforme o roteiro, tirando as edições especiais, com histórias completas). Como leitor do herói, o comerciante dispensa atenção especial à série. “Eu gosto de Tex, você chegou e eu estava lendo”, diz o empresário, satisfeito por trabalhar com o que gosta.

Assim como o irmão, Carlos comenta que já foi o tempo das revistas de mulher pelada. “Hoje tem tudo no celular”. A fase de ouro dos romances também ficou pra trás e ele usa o mesmo argumento de Júnior. “As leitoras de antigamente hoje têm que cuidar dos netos. Essa pilha aqui, ninguém mexe faz tempo”.

Os fregueses fiéis mantém o comércio. “Aqui não tem movimento como no centro, que as pessoas passam e podem entrar para ver. Só vem quem conhece”, afirma.

Os leitores e os colecionadores de discos de vinil envelheceram e o fim dos sebos, na opinião de Carlos, é questão de tempo. “Quem gosta de vinil são senhores, tenho até clientes de fora. Mas dois clientes meus já morreram. O hábito de leitura está acabando. Não tem jeito, daqui um tempo não vai mais ter sebo”, conclui, resignado.


Sebo Boa VistaAvenida Thomaz Bawden, 37 – Boa Vista Telefone: 98814-0083 Funciona de 2ª a 6ª das 9h às 18h, e aos sábados das 9h às 15h


Lembranças da Biblos

Na esquina das ruas Vigário Silva e Segismundo Mendes, no coração da cidade, durante muito tempo funcionou a Biblos, que oferecia serviços de copiadora. Mas isso era o de menos, porque bom mesmo era o sebo, muito bem servido. Gibis da Turma da Mônica, Disney, super-heróis, Tex e Zagor fascinavam leitores de todas as idades. As revistas de sátiras, como Mad, também eram atração. O estabelecimento vendia e também trocava e, para os amantes de tais publicações, era ponto de visitas constantes.

Há anos, porém, o sebo fechou, e o espaço hoje não tem mais o cheiro de mofo, apenas o clima de burocracia com cópias (coloridas como os gibis da Marvel ou preto e branco como as revistas Tex), plastificações, consultas na internet... e, para quem frequentava o local antigamente, a sensação de nostalgia.

Por acaso, encontramos um ex-sócio da saudosa Biblos. Em nossa visita à Banca Reta Final, conhecemos Odilon Vieira, o cliente que comprou as galinhas do Júnior. Odilon trabalhou na firma durante 12 anos, e, por dois anos, foi sócio de Juarez, o outro dono, que, vendo que os leitores estavam minguando, fechou o sebo “sem choro nem vela” e teria se aposentado. Odilon também é amante das revistas antigas e fala com pesar do passado.

A tecnologia fez sumir muitos consumidores da leitura no papel. Ficam as saudades e, para os mais sortudos, as lembranças de bons negócios, quando conseguiam comprar ou trocar um exemplar raro na Biblos.


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