03/01/2017 às 07h33min - Atualizada em 03/01/2017 às 07h33min

O cinema e o existencialismo

O cinema, como dito num texto anterior, tem o poder de brincar de Deus. Sabemos disso, não somente, porque pode contar qualquer história em qualquer lugar e tempo, mas porque pode mexer com o real e com o indivíduo que o assiste. Por possuir extrema liberdade de abordagem do “real”, o cinema desde sua criação já trabalhava com angústias, incertezas e morte.

Quando lemos sobre o existencialismo, compreendemos que a vida é uma viagem de lentas aquisições de conhecimento acerca do que de fato é o ser.  Alguns filmes podem falar desses temas de um modo bastante profundo e muitas vezes intimista. Dessa forma, os longas-metragens listados abaixo tem o objetivo de trazer uma (breve) reflexão sobre a condição de existência humana.

 

Réquiem para um sonho(Darren Aronofsky, 2000)

O primeiro filme da nossa lista coloca em cena protagonistas cheio de sonhos frenéticos mas perturbados por uma visão desesperadora da realidade. De um lado temos Harry (Jared Leto) e Marion (Jennifer Connely) um casal cujo sonho é montar um negócio só deles, mas ambos são viciados em heroína. Do outro, temos a mãe de Harry (Ellen Bursty), uma senhora amante dos programas de auditório que finalmente se ve convidada a participar de um. A mulher começa a tomar pílulas de emagrecimento para que pudesse caber em seu vestido favorito e finalmente participar do programa.

O filme dirigido por Aronofsky entrega ao espectador uma síntese de imagens fortes, mas, igualmente, desafiadoras. Um dos objetivos basais da obra, talvez esteja em deixar quem assiste tão exausto quanto os personagens e suas consequências. O filme trata, não somente do uso desenfreado de drogas (nesse caso, a heroína e as pílulas de emagrecimento) mas do apego irracional a tudo que as deixam inerte, criando seres totalmente apegados a solidão da vida moderna.

Dupla vida de Verónique(Krzysztof Kieslowski, 1991)

O filme abre com a história de Weronika, uma polonesa que possui um gigantesco talento para a música erudita. Com sua voz singular, a jovem ingressa numa escola de música, e pouco tempo depois, em sua primeira apresentação, tem um ataque cardíaco deixando de viver na mesma hora. O filme traz agora a narrativa de Verónique, uma jovem francesa que também nasceu com um inigualável talento para a música. As duas mulheres possuem semelhanças físicas e pessoais. Após a morte de Weronika, Verónique passa a se sentir sozinha, alegando possuir um vazio.

É uma ótima narrativa sensorial que ao longo dos frames cria lacunas intencionais repletas de simbolismos e silêncios. A câmera de Kieslowski capta muito bem o turbilhão da vida interior de seus personagens. É importante pensar a obra que se completa dentro de cada espectador, que leva consigo as suas próprias vivências.

Sob a Pele (Jonathan Glazer, 2014)

Definitivamente, trata-se de um filme que deva ser assistido no “escuro”, ou seja, sem assistir trailer ou ler qualquer crítica. Dessa forma, esse pequeno texto irá se esforçar para que não entregue nada sobre a trama do longa-metragem.

Temos o realismo e o surrealismo lado a lado nesse que parece ser um dos filmes mais inovadores do “gênero”. É um trabalho de claro, escuro, frio, quente colocado de forma intensa em 108 minutos de duração. Scarlett Johansson protagoniza uma mulher sem nome, que dirige uma van e aborda qualquer homem nas ruas de uma pequena cidade escocesa. A narrativa de Sob a Pele é uma imersiva experiência do real sentido da humanidade na terra. E aqui o desconforto é mais que necessário, mesmo após horas do fim da projeção.  Como deixa claro o próprio título, a história rasga as camadas rasas da existência humana encontrando referências no que de fato é ser humano.

Waking Life(Richard Linklater, 2002)

Após não acordar de um sonho, um jovem passa a encontrar em seu universo, pessoas do mundo real. Com elas, passa a conversar sobre a vida e os vários estados da consciência humana quanto a religião e filosofia. É um filme que coloca para quem assiste verdadeiras aulas dos pensamentos de Platão, Aristóteles, Nietzsche e Sartre. Se o belíssimo roteiro (não linear) não bastar para que se encante pela obra, a técnica com certeza vai. O filme foi todo gravado por atores reais, mas editado com animação em flash, dialogando ainda mais com o mundo quimérico criado pelo protagonista.

Talvez, o que fica mesmo é toda a questão da existência contida no longa, com perguntas que rodeiam os pensamentos da humanidade e como estão colocadas na capacidade de sonhar. É, além de tudo, uma obra para se pensar a insensibilidade e a apatia incrustada em nossa sociedade.


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