30/12/2016 às 19h24min - Atualizada em 30/12/2016 às 19h24min

A boa sorte que veio do Líbano

Há mais de 60 anos, um casal – na época com pouco mais de 20 anos – saía do Líbano para viver uma vida mais tranquila em Uberaba. E foi nesta capital do Zebu que Fouad Ibrahim El Armale (falecido em 2007) e Jorgete Fakhoury, hoje com 83 anos, fizeram histórias e construíram uma família.

Quem passa pelos comércios da Rua Arthur Machado, bem pertinho da tradicional Choperia do Mário e da Praça Concha Acústica, já deve ter percebido uma loja de calçados e produtos têxtil com um nome que estampa o que o casal libanês precisou quando chegou ao Brasil: Boa Sorte.

Chegaram no país sem falar a língua, sem saber os costumes, sem conhecer a cultura. Tiveram que aprender tudo sozinhos. Mas com garra, sorte e força de vontade, os libaneses construíram o que hoje é um dos mais tradicionais comércios de rua de Uberaba. A loja Boa Sorte existe há mais de 50 anos e no último sábado do ano (31) encerrará as atividades após uma longa e memorável tradição. “É o fim de um ciclo, mas um ciclo marcado com histórias boas e muitas lembranças”, conta a filha do casal libanês, Nabirra Ibrahim El Bayeh.

A construção da loja era um sonho do senhor Fouad, mas que foi compartilhado com a esposa e com os filhos: Nazirra, Nazy, Nabirra, Nabil e Marcelo. Do comércio, o libanês conseguiu sustentar todos os filhos, hoje formados e casados.

Nabirra conta que era o irmão, Nabil, falecido há oito meses, quem cuidava da loja, juntamente com a esposa e um dos filhos. Segundo ela, os funcionários da loja sempre foram a própria família. “Nunca tivemos preguiça de acordar cedo e ir para a loja trabalhar com meus pais. Muito pelo contrário, era prazeroso trabalhar todos os dias com eles. E esse costume foi passando pelas gerações e até os netos já tiveram a oportunidade de ajudar na loja”, explica.

O motivo do fechamento não é por causa da crise, segundo a filha do casal. Foi mais um impacto familiar que fez com que a família Ibrahim tomasse essa decisão. “Minha vida toda eu passei aqui. Sempre ajudando os meus pais. É triste encerrar esse ciclo, pois não era a vontade do meu pai fechar o comércio. O impacto emocional está sendo maior que o financeiro”, desabafa Nabirra.

Na fachada da loja, um cartaz indica a “queima de estoque”. Mas, na primeira semana de janeiro, mesmo se não vender as mercadorias, as portas estarão fechadas. E o que era para ser vendido será repartido entre a família, vendido ou doado.

Dona Jorgete é portadora de Alzheimer, mas conta, com carinho, as lembranças de como tudo começou. “Antes nós tínhamos um comércio no outro quarteirão e depois de um tempo passamos para cá. Era um sonho do meu marido ter tudo isso que hoje nós temos”, compartilha a idosa.

Mesmo com as portas fechadas, a história da loja Boa Sorte sempre estará entrelaçada a vida dos cinco filhos, 11 netos e 4 bisnetos do casal do libanês. Assim como disse Nabirra, o fechamento será do ciclo, mas as histórias vividas entre roupas e calçados, sempre serão lembradas e compartilhadas.


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