04/09/2016 às 11h35min - Atualizada em 04/09/2016 às 11h35min

Entrevista com Vânia Maria Resende

José Maria Madureira

Educadora uberabense, com formação em Letras, doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, especialista em Literatura Brasileira e Literatura Infantil e Juvenil. Atua nas áreas de crítica literária e promoção da leitura, com cursos, oficinas, palestras. Premiada por trabalhos produzidos nessa área (alguns inéditos, outros publicados), concedidos por instituições como: União Brasileira de Escritores (SP), MinC (Brasília), UFSJ (São João Del Rey), Casa de Cultura Josué Montello (São Luiz do Maranhão), Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (RJ). Colabora com artigos e ensaios publicados em órgãos especializados. Autora dos livros Literatura infantil e juvenil – vivências de leitura e expressão criadora; O menino na literatura brasileira; Ziraldo e o livro para crianças e jovens no Brasil: revelações poéticas sob o signo de Flicts, e das obras coletivas Lendo e recriando o verde (organizadora) e Quantas saudades do colégio vou levar – crônicas colegiais (coautora).


Você vem trabalhando a Literatura Infantojuvenil em Uberaba e no Brasil há tempos e formando novos educadores nessa área. Quais as principais falhas há na formação deles?

VR. A literatura para crianças e jovens raramente é incluída como disciplina nos cursos de Letras e Magistério (e Pedagogia e Biblioteconomia); às vezes, entra em abordagem feita de passagem entre os conteúdos da Metodologia de Língua Portuguesa. A consequência é a falta de subsídios pedagógicos e estéticos para a sua utilização e atuação profissional dos professores na área de literatura/ leitura na Educação Infantil e no Ensino Fundamental. As falhas básicas se localizam aí e continuam na precária formação continuada e na pós-graduação na mesma área. Os profissionais vão para as escolas sem conhecimento da produção editorial para crianças e jovens e de estudos específicos e complementares entre si (de Crítica, História do livro, inclusive do livro infantil brasileiro, Semiótica...), desinformados de uma metodologia adequada, que leve em conta estágios distintos de desenvolvimento motor, cognitivo, linguístico, emocional, existencial, determinantes de capacidade de recepção e interesses diferenciados.


Você acha que os professores leem pouco? Por quê?

VR. A herança do processo colonizador do Brasil é rica de oralidade, que soma tradições intercontinentais de três fontes culturais. Dialeticamente, também a nossa sociedade é grafocêntrica devido a esse processo, embora não tenha se estruturado a partir do contato de todos, igualmente, com bens impressos, entre eles, livros de literatura. Vem de longe, na nossa história e na nossa formação cultural, o não acesso democrático a escolas, à cultura letrada, a bibliotecas; livro e leitura não foram apropriados e usufruídos como parte natural da vida cotidiana da maioria da população, nos lares e nos espaços sociais de um modo geral. Até hoje existe uma parcela analfabeta, e grande parte dos brasileiros não lê por curiosidade, com avidez espontânea pelo conhecimento, nem lê literatura por prazer e como entretenimento de qualidade, nem tampouco por necessidade íntima. Os professores são parte dessa sociedade, que vai lutando com as deficiências, buscando superar causas hereditárias e fatores adversos, mas, para que sejam alcançados novos patamares de evolução da nossa realidade, é necessário a encararmos de frente com as suas mazelas. Outro fator decorre do funcionamento sistêmico pedagógico. A escola, enquanto espaço habilitado a alfabetizar com competência, precisa se qualificar de modo a interferir de maneira significativa ao enfrentar carências atávicas que limitam o desempenho do cidadão em diferentes papeis sociais que ocupa, como também suas escolhas e tipos de consumo cultural. Leituras interativas, autônomas e plurais, tanto de matérias informativas quanto artísticas e literárias, em que o sujeito tem participação curiosa, questionadora e criativa, contribuem para a desconstrução de um círculo vicioso. Sobretudo a leitura literária favorece o desenvolvimento libertador e vertical em termos individuais e sociais, desde que tenha lugar bem resolvido na organização escolar, livre de contradições entre a pedagogia e a estética, de modo a formar, culturalmente e para a vida, leitores para além do tempo da escola. Se não for assim, o engessamento da escolarização, que utiliza a leitura como tarefa enfadonha e obrigatória, sem vitalidade e deslumbramento próprios do prazer estético, tanto não imuniza o público leitor em formação contra sistemas demolidores da consciência, como o próprio sistema escolar continua impondo-se como prática colonizante. Não é fácil substituir o paradigma constituído que sustenta um funcionamento obediente de regras dominantes. Mas existem também profissionais, que mesmo não sendo maioria representam uma mentalidade não conformada à ordem dos velhos rituais, em que se finge ler, ou se lê mal e se declara ódio a autores e obras, não lidos e conhecidos de verdade. Com propósitos livres e ações criativas, esses profissionais insurgem contra a maneira formal e obrigatória como se cumpre a leitura na escola, comprovando formas viáveis de se formar leitores, que poderão ser futuras gerações de educadores, que lerão mais e formarão mais leitores.


Qual orientação você daria, em linhas gerais, aos profissionais iniciantes para trabalharem um livro em sala de aula?

VR. Ter consciência da importância de optar por menos quantidade e mais qualidade no seu trabalho. Não adianta adotar e repetir mecanicamente certas práticas como, por exemplo, a cota obrigatória de livros por bimestre ou semestre, que têm como resultado o desinteresse do aluno e passam longe da exploração da riqueza da literatura, porque (se confundem) são meios imediatistas, em função de fins pragmáticos. Fazer mais com menos, com a garantia da interação subjetiva dos leitores, com aprofundamento e curiosidade, de que resulte a produção de sentidos significativos que só podem brotar da fruição pessoal, do despertar de emoções, desejos, memórias, ideias, imaginação que revolucionem a internalidade do sujeito e do seu olhar sobre o mundo. Essa é a qualidade que precisa ser experimentada tanto pelo leitor quanto por quem compartilha leituras com ele na promoção da educação literária. As cobranças que se aplicam à literatura, da mesma forma avaliativa objetiva feita com às demais matérias de estudo, se preocupam com a quantificação, com o objetivo de prova, nota e aprovação ou não. Ainda que seja lido apenas um texto ou um livro em um mês ou em tempo maior, o que importa é que isso não se dê como um exercício superficial para a prestação de contas de caráter exterior.


Comumente, ouve-se, nas salas de professores e por parte dos pais, que os alunos não gostam de ler. É possível despertar o gosto pela leitura, especialmente, nesse tipo de aluno?

VR. Acredito que o professor não conseguirá criar 100% de apaixonados por livros e leituras, como o professor de Matemática não conseguirá fazer todos os alunos descobrirem encantos que são próprios dessa área de conhecimento e de outras mais que lhes sejam apresentadas na escola. E quanto menos leitor o professor for, mais inferior será essa porcentagem, porque ele não tem como despertar o outro para algo no que ele não descobriu beleza ou valor. Mas, se a nossa sociedade é grafocêntrica, e de uma forma ou de outra lemos em todos os lugares e a toda hora – dentro de casa, na escola e nos mais diferentes espaços (sociais, culturais, religiosos...), em vários suportes (out-doors, panfletos, jornais, peças de roupa, objetos que manipulamos, inclusive, computador e celular, CDs, DVDs, jornais, revistas, bulas, receitas culinárias, entre outros) – será que não haverá uma brecha por onde começar, desafiando os interesses individuais e despertando os alunos para a magia de alguma construção literária e de outros textos impressos, revelando com eles uma fatia, que seja, simpática, engraçada, terrificante, agradável, bela, criativa, inteligente, enfim? Ler junto, estar dentro do processo, se colocar entre os leitores e a literatura é também uma forma de ajudá-los a caminhar pelas páginas de um livro, entrando com eles no jogo, nas armadilhas e artimanhas dos escritores, mostrando em voz alta os efeitos da sonoridade da palavra, da frase; belas imagens; humores; visões macabras, suspenses. Viver com eles os medos, as aventuras, a ironia de uma crônica ou novela, por exemplo, lidas capítulo a capítulo, com intensificação da expectativa a cada pausa. Também, ler e ver montagens audiovisuais de textos literários, com a percepção da simultaneidade das múltiplas linguagens, ler a multidimensionalidade dos livros de literatura infantil e juvenil, em leituras semióticas. Tudo isso e muito mais são formas de se comunicar dinamicamente, pelas mesmas perspectivas modernas da qual o leitor faz parte. Precisamos repensar o que não funciona bem diante da recusa de recepcionar algo que seja bom e belo, como a arte. Deve ter algum nó a ser desatado de todas as partes.


Produz-se Literatura Infantojuvenil de qualidade no Brasil?

VR. Monteiro Lobato é o inaugurador, no Brasil, de um projeto literário inovador, de qualidade estética, para crianças, construído no período de 1920-40. A produção literária para crianças se expande em quantidade e qualidade a partir do final da década 60, e cresce notavelmente nas décadas posteriores, atingindo o estatuto, no conjunto de muitas obras de valor, de uma categoria com peculiar identidade artística. Nessas décadas despontaram várias editoras e grandes autores – escritores, ilustradores, artistas gráficos – de reconhecido profissionalismo e talento, assumidos em carreira solo ou em parcerias, empregados na arte do livro infantil brasileiro. Obras primorosas de vários artistas vêm fortalecendo o corpo de uma produção que interessa não apenas a leitores da faixa infantil e juvenil, mas seduz adultos apreciadores de arte, críticos, pesquisadores, educadores e profissionais de diversas áreas. A criatividade da produção brasileira para crianças tem chegado ao mundo, conquistando respeito, admiração e prêmios importantes, como o Hans Christian Andersen (recebido três vezes: por duas escritoras e um ilustrador genial).


A escolha de um título, levando em conta a faixa etária, é tarefa fácil na atualidade?

VR. Nunca foi fácil, porque o ser humano continua sendo o mesmo em aspectos essenciais; sendo assim, reage diante do universo da literatura com as peculiaridades individuais, que definem suas identificações ou não, expectativas, emoções, e nível de maturidade de leitura, em que pesa ou não densidade de experiências estéticas e informativas acumuladas. O adulto guia da educação literária deve pautar-se no bom senso e sondar a realidade concreta dos leitores, para conhecer fronteiras da acessibilidade, para perceber limites, particularidades e possibilidades do grupo e dos indivíduos. A variedade de opções assegura a oportunidade de atingir diferenças e interesses individuais. O critério da escolha e sugestão do educador, seja de um título, seja de vários, deve partir da observação de aspectos elementares implicados à competência do leitor para a recepção, como: nível de desenvolvimento linguístico, que determina ritmo, resistência na relação com o texto e habilidade necessária à assimilação do que é lido; capacidade ou não de concentração e permanência sem pressa na leitura do texto propriamente (e de outros elementos que componham o livro: capa, ilustrações, projeto gráfico, etc.). No mundo do imaginário, o tempo tem valor subjetivo: tem a duração da fruição, do prazer, da aventura íntima da leitura. Mas, se o texto estiver além da competência linguística e de outros fatores subjetivos do leitor, pode justificar o desajustamento, a dispersão, o não querer ficar ali; do descompasso vem a alegação do leitor de que não gostou do que de fato não leu, porque não estava apto, ou devidamente motivado. Acrescente-se a essas considerações o que sempre escapará ao controle objetivo: a natureza da linguagem simbólica da arte que não depende exclusivamente da “compreensão” lógico-racional. Na esfera artístico-literária, o leitor nunca esgotará tudo, nunca dominará e saberá de maneira cabal. A leitura literária é sempre desafio a levar mais longe, a fazer ultrapassar o conhecido, lançando criança, jovem ou adulto a instâncias inéditas na exploração de sentidos; a fantasia não os afasta da dimensão cognitiva racional, apenas exige mais do leitor, ou o provoca a ir além da área de conforto, no sentido do que conhece, para pensar com a complexidade imaginativa o que não conhecia ou não havia pensado ainda. Como última reflexão, é oportuno admitir que no horizonte aberto do humano e da arte o leitor em formação não está proibido de transitar também por riquezas da literatura adulta, desde que lhe sejam acessíveis, descobertas por si mesmo ou compartilhadas por um professor ou bibliotecário habilidoso.


Qual a importância da leitura para o jovem?

VR. Com a leitura o sujeito entra em contato com referências fundamentais, podendo conhecer o que vem antes dele, a história e a memória de tudo que foi produzido, criado e registrado pelos ancestrais. A partir daí, ele tem consciência de si mesmo e da sua espécie, aprofunda o entendimento da própria condição humana, dos limites do tempo e da importância de se colocar no seu tempo como uma parte importante na continuidade do todo. Pelo autoconhecimento, que ocorre com a leitura, percebe-se como peça minúscula mas singular no presente, podendo se situar criativamente e contribuir para a trajetória da humanidade e a sustentabilidade do planeta. O homem lê, para conhecer diversidades, para pensar com relatividade, para sentir complexamente, e, afinal, para inovar e compartilhar a vida com sentido criativo, revelando-se de maneira única e repercutindo favoravelmente no outro. Pela leitura é possível ter a noção de que qualquer ato (como no texto literário qualquer sinal) por mais simples, sendo singular, altera o conjunto de maneira imprevisível e às vezes grandiosa. A literatura é um manancial inesgotável de singularidades, onde cada um entra, se reconhece, e ao sair leva para a realidade o condão de se recriar continuamente.


Pode se dizer que um jovem leitor será um adulto leitor?

VR. Se esse jovem leitor tiver passado por estágios progressivos de educação estética, construída com leituras que atendem a ampliação de necessidades e a elevação crescente do nível de exigências da inteligência e da sensibilidade, evoluirá da fantasia infantil à perspicácia da consciência analítica, que se move impulsionada por curiosidade, seletividade crítica, autonomia. Quem chega a esse estágio tem necessidade de avançar sempre mais em busca de satisfazer necessidades profundas, entendendo que não há ponto final para crescimento humano e enriquecimento interior. Com certeza, continuará buscando e renovando incessantemente o conhecimento e o senso admirativo, por meio dos livros de modo geral e da linguagem artística e literária de modo especial, alargando sempre mais a visão ilimitada de si mesmo, da vida e do universo.


A leitura influencia ideologicamente o jovem?

VR. As leituras com certeza são formadoras do pensamento, de convicções, de ideias próprias, e melhores são as que o influenciam de maneira complexa e crítica, não com concepções ingênuas, absolutas, conservadoras. A leitura literária de qualidade descortina uma gama de visões, favorecendo a educação do senso estético e a tolerância com o múltiplo. Pela convivência com as ambiguidades, o leitor literário adquire uma sensibilidade exigente; não sendo apenas um instruído, nem se satisfazendo com entretenimentos banais para passar o tempo, adquire consistente lucidez, posições sólidas, com profundidade de argumentos. Embora expresse opiniões bem definidas, não quer dizer que sejam imutáveis, podendo pensar a favor ou contra com pontos de vista flexíveis, enxergando ângulos controversos ou diversos de uma mesma realidade. O maior benefício que a leitura crítica possa dar ao sujeito é libertá-lo de preconceitos e de convicções ortodoxas, dogmáticas, autoritárias. A formação crítica que a educação precisa promover deve suscitar visões não passivas, mas questionadoras que ponham em debate crenças estratificadas, que cegam ou imobilizam a mente, tornando-a incapaz de conviver com a diferença, a incerteza, a dúvida, a provisoriedade. Há tipos e tipos de leituras e tipos e tipos de influências de que resultam as concepções ideológicas. Acredito que modos de pensar puramente técnicos, burocráticos, com exclusiva racionalidade, e, por outro lado, contaminados por irracionalidade passional são defeituosos e desequilibrados; facilmente se colocam a serviço de causas de desarrazoada desumanidade, que tudo permitem, quando a ideologia destrói o sujeito pensante com fanatismo, poder opressor, ignorância, insanidade, violência. Com boas leituras e debates a escola pode formar humanamente, aliando estética e ética, auxiliando o sujeito a apropriar-se de ideias e defendê-las em favor da liberdade, da vida, e de direitos amplamente ecológicos.


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