30/11/2016 às 20h38min - Atualizada em 30/11/2016 às 20h38min

O olhar de Anna e a construção da consciência política de uma criança

Quando nasce o senso de contestação? No longa A culpa é do Fidel (La Faute à Fidel!) a pequena Anna nos é apresentada como um belíssimo exemplo do verdadeiro princípio do questionamento. Aqui, as ideologias proferidas por adultos que se encontram em lados opostos não são colocadas através de lentes embaçadas, justamente, por se tratar do contraponto da visão de uma criança, onde tudo é muito simples e direto. A cineasta Julie Gravas coloca em tela a trama adaptada do romance Tutta Colpa di Fidel, de Domitilla Calamai, ambas mulheres que captaram experiências próprias como forma de construção de seu trabalho.

Nina Kervel dá vida a nossa protagonista Anna, uma garotinha de nove anos que vive com os pais, o irmão e a babá numa casa espaçosa na Paris de 1970. Os frames que dão início à obra colocam Anna sentada ao redor de uma mesa ao lado de alguns primos cortando uma laranja em partes perfeitas (vale pensar como a divisão da laranja será reaproveitada mais a frente). A menina é, claramente, uma princesa: estuda em uma escola de educação católica (onde há várias outras meninas como ela), mal brinca ou corre com outras crianças, e logo no início vemos Anna copiando o gesto de uma senhora que levanta uma taça de champanhe até a boca. Contudo, o equilíbrio na vida e ações da menina mudam, quando sua tia Marga chega a Paris fugida da Espanha após a morte do marido, um militante contrário ao regime de Franco.

O pai de Anna, diante da morte do cunhado e de todo o período que se aproxima (1970 e toda a efervescência da ascensão de Allende) abandona o trabalho e, com sua família, se mudam para um apartamento menor. Passa a trabalhar agora como um interposto na eleição de Allende como presidente chileno. O lugar passa a ser frequentado por “barbudos”, amigos e companheiros de luta de seu pai. A partir desse momento, e através dos passos de Anna, somos levados a construir uma gama de questionamentos. Aproveitando-se de forma competente que a narrativa de Gravas pode proporcionar descobrimos com a pequena Anna que o mundo não é só preto e branco ou vermelho e azul, que contrapões uma visão adulta, dualista e maniqueísta. A cineasta pinta na tela dois elementos constantes: o comunismo que possui suas contradições (representado na figura dos “barbudos”) e a pura e mesquinha individualidade (os avós e a babá que narravam histórias com uma visão negativa sobre os comunistas para Anna). O filme é uma obra didática, especialmente, porque somos obrigados a enxergar com os olhos de outra pessoa, em particular, os de uma criança. Diante disso, temas como o comunismo, a religião, a direita e esquerda, são colocados ao limite da inocência para um espectador já sem lucidez. Temos espírito de equipe ou somos ovelhas? E no caso da religião? Trata-se de comunhão entre os homens ou mera alienação?

É inegável que a história de Anna fale de um período histórico político agitado, mas para além disso, a trama entrega que em diversas vezes, é essencial que se caminhe sozinho sem as trilhas que outros construíram. Julies Gravas, filha do mestre Costa Gravas, mostra como pode fazer uma história graciosa e, ao mesmo tempo, simples onde seu objeto de estudo ganha o primeiro plano: o indivíduo vivo que contesta.


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