09/11/2016 às 16h09min - Atualizada em 09/11/2016 às 16h09min

Crônica: Cartas, declarações de amor à memória

A escritora e professora de Física na Escola Estadual Professor Chaves, Jamili de Paula, têm em mãos dezenas de envelopes coloridos. São cartas que serão envidas aos membros do Clube de Cartas Versos das Inversas. “Nossa proposta é enviar, dentro de um pedaço de papel colorido, todo o nosso Universo impresso em palavras a punho, para que, independente de longitude e latitude alguém possa tocar nossas palavras”, resume.

O Versos das Inversas foi criado há pouco mais de dois meses e já conta com quinze membros. Mensalmente, são enviadas quatro cartas, a cada semana, escrita por uma das “Inversas” - como se denominam as criadoras e escritoras do clube. Para se filiar ao clube, é solicitada uma simbólica mensalidade de R$9,90 por mês, valor com o qual são pagas as taxas de envio e com a qual se compra os materiais para confecção das cartas. “Nosso objetivo é resgatar um costume há muito esquecido: a troca de cartas! No mundo moderno que vivemos, com interações rápidas via internet, perdemos o sentido e sentimentos de realmente parar para conversar com alguém”, enfatiza Jamili, que assina suas cartas sob o pseudônimo de Sophie Sirius. A falta do sentimento nas interações e relações humanas, por sinal, foi o tema das primeiras cartas.

Além de Sophie Sirius, escrevem as cartas do Versos das Inversas a naturóloga e yogi Laís Madalena, que escreve como Inaé Callas e as irmãs Caiapó, a poetisa Vitória e a física Isadora, campo-floridenses e netas de índio que assinam suas cartas, respectivamente, como Açucena e Teçá. “A carta traz a delicadeza de um aperto de mão de quem escreveu e de quem irá receber. Tem a espera da correspondência. O local onde foi escrito. Tem a letra - personalidade de cada escritora. Tem a assinatura e toda sutileza que cada uma de nós traz num pedacinho de papel”, diz poeticamente Jamili.

Paloma Moreira, estudante de Psicologia que foi funcionária dos Correios nos últimos dois anos, afirma que hoje em dia “Cartas são raras. As cartas são mais pra presídio ou crianças que algumas escolas pedem para trocar cartas com o coleguinha num período do ano E os mais velhos mandam telegramas para datas especiais. Mas no geral são poucas cartas de correspondência, são mais documentos ou cobranças”. Paloma deixou a agência dos Correios localizada na rua São Benedito, no Centro, para se dedicar ao curso. “Muitos clientes, sobretudo mais velhos, reclamavam sobre do fato de não se trocar mais cartas, que os mais jovens nem sabem como escrever no envelope. E não sabem mesmo (risos) sempre me perguntavam como subscrever”, completa a futura psicóloga.

Escrever uma carta, sobretudo nos dias de hoje, é dedicar seu tempo ao outro. Rascunhar, escrever atento para não errar, escolher pela melhor frase, caprichar na caligrafia, decidir por um envelope, ir aos Correios, selecionar um selo, procurar o CEP. Escrever uma carta é uma declaração de amor a quem irá recebê-la e, por que não, uma declaração de amor à memória.


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