02/11/2016 às 14h33min - Atualizada em 02/11/2016 às 14h33min

A bênção, mestres: o gingado que faz crescer

Filha de uma cultura rica em musicalidade, ancestralidade e gingado, a Capoeira com sua definição tão plural surgiu como um canal de ilimitada expressão cultural afro-brasileira criada e desenvolvida no Brasil por descendentes de escravos africanos. Marginalizada em sua concepção, a capoeira não só ganhou espaço em outros continentes ou ainda diversidade de adeptos ao longo dos seus tantos anos, como também ganhou canto, ritmo e ritualidade, presentes nesta manifestação cultural intimamente ligada ao Candomblé.

Filho de Mãe Raimunda, matriarca do Candomblé em Uberaba, Ubiracy Galvão Borges ou Mestre Café, envolveu-se com a capoeira em 1982 aos seus três anos de idade, assumindo como professor de capoeira, a primeira academia onde estudou aos 12 anos. Em 1997, Mestre Café já ministrava aulas em diversos lugares e dividia espaço com sua mãe no Centro de Candomblé, onde ensinava a custo de uma mensalidade de valor mínimo. Neste mesmo ano, sua mãe faleceu levando Café a tornar-se mais íntimo e fiel à capoeira, reformando o espaço herdado da mãe e dando aulas a todo vapor.

O tempo passou e o Mestre percebeu que, para atender a comunidade, seria inviável oferecer aulas contando com a mensalidade da qual nem todos tinham possibilidade de pagar. Sendo assim, buscou apoio do poder público. Como resposta, precisou regularizar o espaço como instituição, fundando  oficialmente em 2006, o CENTRO CULTURAL DE CAPOEIRA ÁGUIA BRANCA (CCCAB).

Um ano depois, após emendas parlamentares, o Centro conquistou uma sala de informática. Mas, suas atividades não paravam por aí: nesse mesmo período, os mestres Café e Puma (Núbia Nogueira Cassiano) elaboraram e participaram de variados projetos, como o Criança Esperança e também Fundos Municipais e Estaduais de Cultura e Esporte, conseguindo aprovação em alguns destes sempre em busca de maior acesso à Capoeira aos Uberabenses.

Desde o início, como professor de capoeira, Mestre Café iniciou - em parceria com a escola -, o CAPOEIRA COM A ESCOLA: UMA LUTA PELA EDUCAÇÃO.Contando com este projeto como alicerce, acredita que a partir do contato com o espaço escolar e encaminhando crianças e adolescentes a uma formação como cidadãos, estudantes e profissionais tirando-os de possíveis contextos de marginalização, violência ou exclusão social que poderiam enfrentar em seus caminhos, o Mestre pôde perceber o quão atrelado estavam a capoeira e o desenvolvimento pessoal e social de jovens e crianças a um futuro melhor, transformando suas realidades.

Conversamos com Roberta Vidal, mãe da aluna Maria Eduarda Vidal (10): "Minha filha frequenta as aulas há quase dois anos. Antes da capoeira, ela era era tímida e quieta, agora é muito mais envolvida e interessada nas coisas. Ela sofria de ansiedade e foi diagnosticada com tricotilomania (comportamento compulsivo que leva a pessoa a puxar e remover os fios do próprio cabelo) e os médicos pediatras em que a levei aconselhavam vários tratamentos com medicação. Como já conhecia há muitos anos o trabalho dele (Café), resolvi tentar um modo alternativo utilizando atividade física e a coloquei na capoeira. Desde então, nunca mais ela sofreu com esse problema e agora é mais tranquila e interessada.".

Visando a inclusão e participação social dos Uberabenses, o CCCAB, não parou por aí. Criaram os projetos: ALÉM DO LIMITE DOS OLHOS (responsável por trazer aulas de capoeira no Instituto de Cegos de Uberaba); o ALÉM DO LIMITE DO CORPO (incluindo a terceira idade à capoeira); através da parceria com a Fundação Cultural de Uberaba, criaram o projeto A COR DA NOSSA CULTURA também no espaço escolar e a ECOCAPOEIRA, que ensina a confeccionar os instrumentos nas rodas utilizados nas aulas, trazendo aos seus participantes a consciência ambiental e preservação da natureza.

Através da união de todos os projetos, a CCCAB concebeu também o CAPOEIRA PARA TODOS: GINGANDO CONTRA A EXCLUSÃO, aprovado por um fundo de cultura financiado pelo MinC (nosso quase instinto Ministério da Cultura), que conta com aulas de capoeira, informática, confecção de instrumentos, percussão e ritmos afro.  O projeto teve início em 2010 e se estendeu com um aumento significativo de envolvidos e beneficiados.

Mesmo com o fim do financiamento do fundo cultural, em 2014, as atividades do Capoeira para Todos não foram extinguidas. Contando com o apoio de professores e voluntários para atender cerca de 450 alunos participantes e frequentes em seus 7 espaços espalhados pela cidade, atende pessoas de qualquer idade, classe e credo, contando como admissão apenas a participação e compromisso com suas aulas. A mensalidade requerida como troca (era e ainda) é: ajudar o projeto a se sustentar como for possível, seja na organização do espaço, dos eventos ou até financeiramente.

O CCCAB ainda concebeu o INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO SOCIAL, formando parcerias com Universidades. Na UFTM, foi criado o "Museu da Memória Viva" e formada uma parceira com o curso de Terapia Ocupacional. Na CESUBE, são realizadas  apresentações de capoeira em seu espaço e bolsas parciais e totais de estudos são oferecidas aos alunos da CCCAB e seus núcleos. Com o Pronatec, a parceria visa o ensino do curso de espanhol. Já com a Secretaria de Igualdade Racial (SEPIR), há distribuições de cestas básicas e ainda realização de palestras bimestrais com todo o público atendido (família, cuidadores e comunidade envolvida). Também há eventos anuais como o Capupira (festa junina), batismo de capoeira, dia das crianças, consciência negra, dentre outros. Bienais, como o MEGAEVENTO, onde ocorre o batismo da sede e seus seis núcleos em conjunto, além de outros eventos culturais como roda de capoeira, palestras, etc. No período de 4 em 4 anos é feito o Festival Feminino, um intercâmbio entre mulheres capoeiristas.

É mantido também um eixo de contato com os Estados Unidos, fazendo intercâmbio entre mestres brasileiros e americanos. Há ainda a participação em seus eventos, permitindo que os capoeiristas troquem o conhecimento da extensa cultura e manifestação capoeirística, nivelando técnica e metodologia de ensino entre os dois países.

E sobre a missão da CCCAB, Mestre Puma diz ao UP: "Por muito tempo, víamos na Capoeira a salvação para todos os problemas sociais e econômicos, físicos, psicológicos e emocionais; para todo e qualquer problema do mundo, até pela nossa própria experiência. Sempre fomos disseminadores ferrenhos da Capoeira, defensores ativos do seu direito de prática por todos, da inserção nos currículos em todos os níveis de escolaridade, que se tornasse esporte olímpico e tudo mais. Hoje, somos mais maduros, mais "pé no chão", estamos mais centrados no Centro Cultural, na nossa própria atitude. O que almejamos é continuar realizando o que já realizamos de portas abertas para quem quiser chegar e inspirando outras pessoas com nossa ação, nosso amor e dedicação pela capoeira. Queremos construir a nova sede no terreno que conquistamos no bairro Nenê Gomes, com amplas salas, anfiteatro, piscina, refeitório e alojamento para podermos atender cada vez melhor nossos participantes e convidados. Queremos treinar muito e "vadiar" cada vez mais pelo mundo afora... Queremos ver nossos filhos e discípulos nos representando e nos superando, demonstrando a transcendência da Capoeira".

O CCCAB está de portas abertas ao público que desejar prestigiar os eventos e até mesmo suas aulas, no endereço Rua Haiti, número 125 - Bairro Fabrício e a página no Facebook é @capoeiraaguiabranca.


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