02/11/2016 às 14h15min - Atualizada em 02/11/2016 às 14h15min

Perfil - Sidney Pires

A música começou acontecer para Sidney Pires em 1971, quando foi trabalhar na equipe técnica do conjunto do Rosset. “Nunca pensei que ali eu estaria selando minha vida profissional. Me lembro como se fosse hoje, eu na porta do Parque Fernando Costa para a primeira viagem. Quando a famosa perua Combi chegou, me despedi de minha mãe e entrei com o meu chefe de equipe formada por dois carregadores e um motorista (grande equipe, kkkk)”, conta Sidney. O primeiro de incontáveis “bailes” foi em Nova Granada, próxima de São José do Rio Preto. Continua narrando - “Naquela época quase todo músico era universitário, e brincavam comigo de igual para igual. Eu me senti em casa, pois eu estava tentando me encontrar na vida e tinha sido aceito numa tribo acima do meu horizonte”. Naquela época, os profissionais de baile tinham jornada dobrada, como carregar e montar todo o equipamento, operar a iluminação (que era manual) durante as 5 horas de duração do baile, e após o mesmo, desmontar e carregar a Combi pra voltar pra casa. “Minha mãe perguntou como tinha sido a viagem, e eu respondi que foi ótimo e que na próxima semana seriam três dias de eventos, e quando ela me perguntou se eu iria continuar, eu respondi “na lata” – Lógico! Naquele momento estava selando minha vida profissional no maravilhoso mundo da música...” lembra Sidney.

O primeiro efeito da música em Sidney foi em 1966 quando foi assistir o conjunto “Poligonais” no auditório da rádio em Patos de Minas onde morava na época. “Eram 6 ou 7 cabeludos tocando ieieie. Eu e meus amigos ficamos o dia inteiro na porta do hotel admirando aqueles caras que a gente só via nos videotapes das Tvs em preto e branco”. Ali ele conheceu grandes músicos em início de carreira que se tornariam um grande sucesso nacional. Quando foi morar em Uberaba, morou ao lado do clube Associação Musical de Uberaba era um salão popular dirigido pelo Sr. Langerton, que era músico e maestro da Banda Musical Municipal. Era como uma família, de onde nasceram os “Mugstones”, o antigo “Poligonais”. Eles eram um sucesso nacional e viviam na estrada, aqui e ali, até o nordeste tocando todos os dias em excursão. “O sucesso era tanto que para uma apresentação dos “Mugstones”, os prefeitos das cidades vizinhas decretavam feriado municipal para aproveitar a passagem deles pela região, porque sabiam que seria “casa cheia” e pegavam a renda para dar uma incrementada social na cidade, e de quebra já faziam campanha pra angariar votos. O Brasil daquela época era bem mais barato. Os mesmos foram pro Rio de Janeiro e fizeram uma apresentação no Canecão que nem eles mesmos previam a importância para o show bis do Brasil” relembra Sidney.

Sidney Pires testemunhou coisas incríveis, como um show com a atração internacional Billie Holiday, que teria na sequência um cantor em início de carreira com o nome de Roberto Carlos, que vendo o tamanho do evento foi embora, cabendo aos Mugstones fazer a sequência até o final, sem terem noção da importância disto para música brasileira nas próximas décadas. Nos anos 70, no auge da jovem guarda, Uberaba chegou a ter 65 conjuntos de ieieie. “Tinha o conjunto do Rosset onde eu trabalhava , Som Especial 7 , Dimensom que nasceu do encontro de alunos do Colégio São Benedito, que fornecia bolsas para alunos que tocassem um instrumento ou cantassem, o Conjunto Califórnia que era dirigido por um militar com nome de “Adão Soldado” que tocava sax na banda do quartel, outro Adão, o “Cavuca”, montou um conjunto com o nome de Mobile 2000, por causa da proximidade dos anos 2000 que representava pra nós um futuro promissor pro país, propagado pelos dirigentes”.

A entrada feroz da música eletrônica e dos DJs, além da globalização da mídia comercial foi um baque para estas bandas “artesanais”. “Os conjuntos sofreram grandes “baixas” pelo custo operacional e a falta de equilíbrio entre DJs e Bandas ao vivo” narra Sidney. Se transferiu então para o teatro amador, porém com qualidade profissional, “...pois era feito por universitários antenados com os movimentos políticos e apoiado por grandes cabeças pensantes do momento. Isso me ajudou muito culturalmente...”

O próximo passo foi trocar a “técnica” pela comercialização e produção de eventos. “Os pessimistas de plantão me diziam: Como você vai vender você não fala nem português corretamente? Eu disse: Eu aprendo o que der.” continua Sidney – “Minha coragem e a força da juventude me empurrou pra um mercado de ponta no país. Na época, os universitários ouviam uma música de qualidade, a verdadeira MPB, com grandes nomes da música brasileira como Toquinho e Vinícius, MPB 4, Chico Buarque, Elis Regina, Quarteto em Cy, Simone, João Bosco, Ivan Lins e outros... No mesmo nível, Uberaba por ser uma cidade universitária, era contemplada por um circuito universitário. Me liguei a um produtor de Campinas, onde produzi Bailes e Formaturas”.

Neste período foi trabalhar como representante de uma firma em Ribeirão Preto com a representação de todas banda de ponta de São Paulo e Rio de Janeiro. Foi quando lançou no Triângulo Mineiro, um grupo que despontava como o melhor grupo de bailes do Brasil: “Edinho Show”. Na sequência fizeram uma excursão nos Estados Unidos da América e voltaram com o nome de “Santa Cruz”. Em 1985, Sidney organizou uma feira agrícola em Uberaba com os maiores nomes da música brasileira da época, começando com Ney Matogrosso (com o mesmo show que tinha aberto o Rock in Rio naquele ano), Elba Ramalho, Alcione, Milionário e José Rico, Morais Moreira e Armandinho, Erva Doce, Gilliard, a banda “Primeira Mão” como base, e Elke Maravilha como apresentadora. “Mas nada é perfeito. O parceiro na ocasião designado pelo escritório E&C Produções (Roberto Carlos), quando viu o valor final do contrato da programação que chegou à cifra de 3 milhões de dólares, fez uma trapaça e associou a empresa “Studio Um” de São Paulo (Manoel Poladian) e “puxou o tapete” do escritório do Roberto Carlos e do Grupo Santa Cruz. Sem saber de nada, fiz todo trabalho de logística, que era a minha função, sendo socorrido em parte pelo líder do Grupo Primeira Mão, Armando, que me pôs a par do que tinha acontecido...” lamenta Sidney.

Foi quando foi pra São Paulo dirigir o escritório do Grupo Santa Cruz. A temporada com eles valeu muito para seu conhecimento profissional, e quando voltou, continuou com as representações, com uma bagagem muito maior. “Foi quando um garoto cabeludo me procurou pedindo para eu representar a banda dele com um nome engraçado de “kreddo” que era ligada ao Rock. Eu fui lá ver como era e tive uma grande surpresa, pois encontrei um bando de garotos adolescentes cheio de sonhos e disposição para herdar a história musical de um futuro Uberaba. Lá eu vi nascer o “Marco guitarrista”, hoje Dr. Marco Aurélio cirurgião plástico, guitarrista da Banda Outubro. Ricardinho Morais, baixista, hoje na produção do grande evento semanal do município “Domingo na Concha” também atuando no instrumento, João Borges, que ficava escondido atrás de uma bateria de acrílico, provando ser grande homem de frente com um visual incrível para época, com uma cabeleira ruiva bem americanizada. Um “Afro” alto, único adulto do grupo, o querido Geraldo Mathias tocando uma boa guitarra base, um baixinho invocado conhecido como “Rato” responsável pela luz, e um rapaz alto, bem jovem e magrinho responsável pelo som com o nome de Ryger Gomes. Eu falei pro João - Você arruma um baterista, venha pra frente cantar e fazer performance, pois era uma figura bem curiosa e bem vista pelos jovens. E procure um tecladista, pois as músicas exigem muito um teclado. Em uma manhã, João chegou em minha casa empunhado um belo violão, eu ainda estava dormindo, ele entrou no meu quarto, chegou, sentou numa cama ao lado e começou a tocar. Para minha surpresa, ele era infinitamente melhor guitarrista que baterista, confirmando um sentimento que eu tinha, quando eu fui no ensaio deles. Na sequência de ensaios e ajustes, um dia cheguei lá e tinha um baixinho como nome de Pedrinho muito educado pelos padrões dos garotos da época que me foi apresentado como futuro tecladista do grupo, além de uma alternância na bateria com os outros membros”.

Surgiu então a oportunidade na Exposição do Parque Fernando Costa de fazer a abertura do Show de uma banda de renome nacional, o Dr. Silvana e Cia. A banda Base da Exposição naquele ano, que já era sucesso aqui era a Apolo’s Band. Sidney perguntou ao pessoal da banda qual seria um repertório interessante, pois já havia presenciado bandas regionais sendo tiradas do palco antes do final da segunda música, pois a prioridade era o público e não o grupo. Eles deixaram o Kreddo fazer a abertura e continuando a pesquisa de músicas, um amigo colocou uma fita cassete no carro que tinha “All Night Long”, do Lionel Richie que foi usada no encerramento das Olimpíadas de Los Angeles, com um efeito de lanternas no escuro. Sidney apresentou a música para o pessoal do Kreddo, e sugeriu que os arranjos de sopro e orquestra da versão original fossem feitos pelos vocais dos meninos, à la “Edinho Santa Cruz”. A música ainda teve uma bela introdução com um arranjo “à capela”, com a batida da bateria e com uma mix pra música “Palco” de Gilberto Gil. “Resultado: a grande atração da noite foi ofuscada pelos garotos desconhecidos, e quem me contou isso foram os músicos do Apolo’s Band. Em meio às lágrimas de emoção em ver um garotos cabeludos, principiantes, assustando ídolos da mídia e músicos experientes”, conta Sidney emocionado.

Atualmente, seja no Teatro Municipal Vera Cruz, em eventos particulares aqui e fora de Uberaba, ou nas produções do Teatro do SESI, Sidney Pires continua contribuindo para a música e a cultura da região. História viva.


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