02/11/2016 às 13h14min - Atualizada em 02/11/2016 às 13h14min

Raimundo Sarkis: o "peixinho" gigante

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Raimundo Sarkis[/caption]

O “peixinho” gigante Uma vida inteira dedicada ao esporte. Como atleta, técnico e repórter, Raimundo Sarkis participou de incontáveis competições. Natação, basquete, vôlei, futebol... Nas piscinas, uma carreira longeva e exemplar. São mais de 75 anos de braçadas. “Sou o mais antigo atleta da natação de Minas Gerais. O mais antigo, não o mais velho”, diz o “peixinho”.

Raimundo é um dos nove filhos do casal Amélia e Antônio. É um dos que nasceu em Uberaba – outros são do Líbano, como o pai, que, em Uberaba, trabalhava de sapateiro, de porta em porta, e, como não falava nada de português, tirava uma botina da caixa de ferramentas para mostrar o que fazia. Não demorou e Antônio montou uma oficina e ganhou freguesia fixa, com os filhos como ajudantes. A família morava na esquina das ruas Manoel Borges e Afonso Ratto.


O início na natação Ali perto tinha o Centro de Cultura Física. Um dia, o menino Raimundo observava os nadadores, com um colega, e “inventou” que nadava muito bem. Um dos atletas ouviu e o “desafiou” a mostrar. Arranjaram um calção e, no primeiro pulo, Raimundo engoliu muita água, mesmo na parte rasa.

- Você disse que sabia nadar! Estamos precisando de atletas e você quase morre afogado!

Desconcertado, o garoto respondeu:

- Quando eu tinha cinco anos meus irmãos iam buscar lenha no mato, em Uberlândia, me colocavam uma cabaça debaixo dos braços e então eu nadava – explicou, arrancando gargalhadas dos presentes.

Essa seria a primeira experiência de Raimundo nas piscinas. Apesar do trauma, pouco tempo depois ele voltaria ao Centro de Cultura Física, agora para iniciar sua carreira de atleta.

Início que se confunde com os primórdios da natação na cidade. Em 1939, o sargento da PM, Heitor Matos, visitando a sala de aula, contou que o governador de Minas Gerais, Benedito Valadares Ribeiro, lançara um plano para construção de praças de esportes no interior e Uberaba foi uma das cidades contempladas. O sargento Heitor fora designado para ensinar natação, vôlei e basquete. Convidou alunos do 3º e 4º ano para ter aulas de natação, sem pagar nada, com uma condição: depois de aprender, o aluno passaria a ser sócio-atleta e defender o clube (no caso, o CCF) nas competições.


Minas Gerais, 12 vezes campeão brasileiro Em 1938, foi realizado o primeiro campeonato mineiro de natação para adultos, com o Minas Tênis de BH sendo o campeão e o representante uberabense ficando com o vice, recebendo muitos elogios da imprensa da capital. O atleta uberabense Edward Melo foi eleito o destaque do certame, vencendo todas as provas que disputou, inclusive os 1.500 metros.

No ano seguinte aconteceria o primeiro Brasileiro infanto-juvenil, no Rio de Janeiro. A equipe anfitriã sagrou-se campeã e Minas Gerais ficou em segundo lugar para, no ano seguinte, conquistar o primeiro de 12 títulos seguidos.

“Nas décadas de 40 e 50, a cidade e outras do interior revelaram grandes nadadores, que integraram a Seleção Mineira. O estado foi 12 vezes seguidas campeão brasileiro, e o elo entre capital e interior, que não acontecia no Rio e em São Paulo, era a diferença de Minas Gerais”, recorda Sarkis.

Os clubes de Uberaba, como a Associação e o Uberaba Tênis Clube, tinham atletas de primeira e sempre traziam títulos de campeonatos estaduais e nacionais. Em 1945, o atleta Raimundo quis virar professor. Fez o curso para professor de natação e começou a carreira como auxiliar de Ciro Bota no UTC. Em 1947, foi convidado para ser um dos técnicos da Associação Esportiva Cultural. “Fiz dupla com o Orcival e fomos dois anos seguidos campeões estaduais, derrotando o Minas, uma façanha”, relembra. “Na volta, os atletas faziam passeata e eram aplaudidos pelas pessoas nas portas das casas. As competições da época tinham grande público, arquibancadas lotadas, inclusive com as autoridades”, continua.

Em 1953, Sarkis foi ser treinador do Araxá Tênis Clube. A modalidade “deu um salto” na cidade vizinha, na qual o uberabense ficou 18 anos, inclusive conquistando o título estadual em 1960.


Tudo que é esporte Com o esporte “na veia”, Raimundo foi atleta e técnico também de vôlei e basquete, em que pese ter baixa estatura – por isso, nos esportes de quadra, ele jogava na “segunda equipe”.

Apaixonado por todas as modalidades, Raimundo Sarkis esteve sempre próximo ao esporte também na imprensa. Foi cronista do jornal “O Triângulo”. Criou, com Luiz Gonzaga e Farah Zaidan, o jornal semanal “A Bola”, que teve 32 edições. Foi locutor esportivo com Ataliba Guaritá, o Netinho, e Eurípedes Craide. Trabalhou 18 anos como locutor da Rádio Imbiara, em Araxá – sendo, por sinal, o repórter mais próximo dos jogadores da Seleção Brasileira que se prepararam na cidade para a Copa de 1958, ano do primeiro título mundial do escrete canarinho.

Raimundo Sarkis foi também um grande promotor e incentivador do esporte em geral. Nas décadas de 40 e 50, ele promovia em Uberaba uma versão local da Corrida de São Silvestre, reunindo atletas da região para a tradicional disputa de 31 de dezembro. Ele também realizava corridas de bicicleta (que em nada lembravam as modernas “bikes” de hoje) e chegou a fazer até corridas de velocípedes, para crianças de quatro a oito anos, que seriam as únicas corridas do tipo no mundo – e que foram sucesso total, envolvendo toda a comunidade.

Nessa vida ligada ao esporte, Raimundo teve outras profissões, sendo até vereador em Araxá.


Master Em sua coleção, seu Raimundo tem mais de 600 (isso mesmo, 600) medalhas e cerca de 80 troféus, além de diplomas e homenagens diversas. Sem contar, claro, as incontáveis histórias e as amizades, frutos de uma carreira tão prodigiosa.

Com o mesmo orgulho de quem ganha uma medalha de ouro, seu Raimundo exalta a união da família: casado há 63 anos com dona Clarisse, ele é pai de quatro filhos, que lhe deram sete netos e um bisneto. “A família é o maior dos troféus”, afirma.

Na década de 90, Raimundo, depois de um tempo afastado das raias, voltou a competir, na natação master. Em 1997, no campeonato mineiro, em Poços de Caldas, uma mostra do prestígio da categoria: mais de 300 atletas participaram da competição.

Em meio a tantas medalhas, é difícil escolher a mais importante, mas essa que ganhou em Poços, pelas circunstâncias, foi marcante. Enquanto ainda se molhava no chuveiro e tirava os chinelos, a prova começou. Sarkis pulou atrasado e mesmo assim ultrapassou todos os concorrentes. Chegou em primeiro lugar e foi ovacionado pelo público.

O parque aquático do Cemea Abadia ganhou o nome de Raimundo Sarkis, em 2013. É a maior homenagem que ele recebeu, afirma. Mais importante do que o nome, é o apoio que ele espera que os jovens atletas recebam. Quem sabe tenhamos mais “peixinhos” a levar o nome de Uberaba pelas piscinas de todo o Brasil? Não poderia haver maior inspiração do que uma carreira de 75 anos.


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