01/11/2016 às 20h50min - Atualizada em 01/11/2016 às 20h50min

Chico Cavalcante

Pedimos licença para publicar um editorial diferente nessa edição. É, na verdade, uma homenagem a um homem que faz parte da história de Uberaba – e, também, do Brasil. Trata-se de Francisco Cavalcante, um dos pioneiros responsáveis por difundir o gado do tipo Zebu por todo o território nacional. Se Uberaba é conhecida como a capital mundial do Zebu, é por causa de homens como Chico Cavalcante.

Ele foi chefe de comitiva na época em que o gado zebuíno começou a se “espalhar” por todo o Brasil. Naqueles idos, o transporte era nos barcos a vapor ou nas comitivas. Hoje com 102 anos, seu Chico é o único chefe de comitivas daqueles tempos ainda vivo. Em que pese a idade avançada e o físico frágil, seu Chico está lúcido e faz suas caminhadas. Não escuta e não enxerga mais tão bem, mas ainda gosta de assistir o futebol ou ouvir músicas antigas.

A criação e comércio do Zebu hoje são sinônimos de cifras astronômicas. Originária da Índia, a raça é encontrada em países de todo o mundo, por conta de sua resistência e facilidade de adaptação ao ambiente. Contando os vários cruzamentos para a produção de carne e leite, o Zebu corresponde a 80% do rebanho bovino do Brasil. Nem sempre foi assim.

Os primeiros registros do “gado trazido da Índia, com uma corcova que dava aparência de deformado”, datam de 1855, no Rio de Janeiro. Em 1900, os irmãos uberabenses Antônio e Zacarias Borges Araújo viram pela primeira vez o  Zebu pela primeira vez, na fazenda de Manuel Lengruber, em  Niterói. Maravilhados, perguntaram se o proprietário não lhes venderia ao menos um exemplar. Lengruber não vendeu, porém, indicou onde poderiam comprar. Os irmãos Borges adquiriram então o “Lontra”, touro guzerá que foi o primeiro trazido para Uberaba, que tem até monumento em sua homenagem na praça Dom Eduardo. Depois de Lontra vieram muitos outros, uma vez que a novidade atraía adeptos por onde passava.

Começava assim a trajetória do Zebu no Brasil. Antes, o gado era conhecido apenas em certos locais, mas depois de chegar a Uberaba, foi difundido em todo o país. A espécie era vista como uma novidade, coisa do outro mundo. Até então o tipo de gado que havia era curraleiro, pé-duro, dentre outras espécies europeias.

Nascido em Veríssimo, o boiadeiro Francisco Cavalcante, com 12 anos, trocava os bois de laranja com os quais brincava pelos bois de verdade. Chegou a viajar com o pai até Porto Suarez, na Bolívia, levando 200 reses. Com 18 anos, veio para Uberaba para fazer o Tiro de Guerra. Certo dia, o jovem Francisco foi o responsável por conduzir mais de 100 soldados ao circo que estava na cidade. Enquanto todos ficaram nas arquibancadas, ele ficava andando e conheceu Alda. “Eu passava, a moça ficava olhando o sargentinho, eu olhei pra ela... e deu casamento”, conta. Do casório tiveram dois filhos, que deram cinco netos e um bisneto. Hoje viúvo, seu Chico também perdeu um filho. A filha Lúcia mora no andar de cima da casa na Leopoldino de Oliveira, uma das primeiras da região, hoje “escondida” no meio de prédios.

Na década de 1940, todo o Brasil já conhecia o novo gado. O Zebu inspirava músicas, patrocinava concursos, abria cassinos, atraía bancos – o número de agências de Uberaba passou de quatro para dez, entre 1935 e 1945. Em 1946 houve a primeira exposição da espécie, na Fazenda Cassu.

Chico Cavalcante não tinha um patrão fixo: trabalhava para quem o chamava e pagava melhor. Seus feitos são impressionantes. “Eu levei duas mil novilhas pra Bolívia. Levei 300 touros na água de Uberaba pro Pantanal, do Pantanal pra Rondonópolis... ixi, tem muita coisa”, diz o boiadeiro. O que mais impressiona não são as distâncias, mas sim como ele ia: com a cara e a coragem. Um exemplo é uma viagem que fez ao Maranhão. Um dos empregadores que mais confiavam nele era Lamartine Mendes, um dos maiores criadores do Brasil, que dá seu nome ao Museu do Zebu, no Parque Fernando Costa. Em 1961, Lamartine intermediou um negócio e um político veio comprar 700 novilhas, para expandir a criação de nelore no Maranhão. Seu Chico e sua tropa levaram o gado até a ponte do Estreito, na divisa com Goiás (hoje Tocantins), com a responsabilidade da marca (o que quer dizer que, se um boi morresse, tinha que ser retirada a marca para entregá-la ao dono).

Antes, Chico conversou com o doutor Randolfo Borges. -Chico, cê vai lá? -Vou, doutor, se Deus quiser. -Chico, você sabe que vai levar 700 novilhas no Maranhão? -Vou, se Deus quiser. -Você já foi lá? -Não. -Alguém te ensinou o caminho? -Não. Mas, doutor, eu tenho boca, então eu pergunto, eu vou. -Então vou te ensinar o caminho. Você já viu quando a mulher pega uma galinha pra sapecar, com fogo, ela pega no bico e nas pernas e vai virando pra sapecar? -Sei. -Então ocê entra aqui no cu dela e sai no bico. Aí cê chega lá.

Em 1972 seu Chico decidiu não ser mais comissário de boi, mas fazendeiro, e foi com a família pro Cisco, um povoado perto de Frutal. “Meu cunhado comprou uma fazenda pra nóis por 220 contos, financiada. Tínhamos uns 400 bezerro. Vendemos tudo e em um ano num tinha como pagá o banco. Um dia vi meu cunhado, que tinha o apelido de Mascate, feito uma onça fazendo conta”.

-Chico, nóis vai vendê a bezerrada, pagá a prestação, e do jeito que tá o gado, vamo levá mil ano pra pagá nossas dívida. -Mascate, vamu fazê uma coisa? Eu sô sua muié e o que ocê fizé eu assino embaixo. -Chico, vamo vendê a fazenda? -Se eu já falei que sô sua muié. -O seu Abido disse que quando nóis quiser vender a fazenda, ele compra.

“Fomos lá e dissemos: ‘Seu Abido, nós temo que vendê e ir lá pagá o banco, pra poder te dar essa escritura’, e ele: ‘Eu sei que ocês é muito homem, Abido dá o dinheiro, vai lá paga banco’. Saímo pro Banco do Brasil, chegamo lá tá um coronel, conversando com o gerente, papapá, papapá, e o Mascate já tava feito uma cobra, quando eu vi, ele levantou e entrou: ‘O senhor tem muito negócio a tratar co o gerente aí? Se não tem, o senhor despacha que eu tenho assunto pra tratar com ele’. Pagamos a conta, demos a escritura pro seu Abido e sobrou pra mim uma maleita, quatro cavalo, uma cama véia e um Ford 1000. Pro Mascate acho que não sobrou nada”.

Aos poucos seu Chico foi refazendo a vida e, além da casa na Leopoldino, tinha seu sitiozinho – e não abria mão de continuar trabalhando nele, até quando podia. Com 100 anos, ainda andava a cavalo.

O nome Francisco Cavalcante Nascimento deveria constar nos livros de história ao lado de Teófilo de Godoy, Pylades Prata, Edilson Lamartine Mendes, João Martins Borges e outros criadores. Seu Chico foi apenas um humilde cavaleiro, mas são homens como ele os responsáveis pela propagação do Zebu, e não os “doutores” que fechavam negócios apenas. Se o Zebu atingiu o patamar que tem, é por dois motivos. Os ricos fazendeiros tinham o dinheiro. E os boiadeiros como Chico Cavalcante, a coragem.


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