18/10/2016 às 08h57min - Atualizada em 18/10/2016 às 08h57min

Sobre dinossauros, personagens e um sonhador

São nove e quinze da primeira manhã após o controverso horário de verão entrar em vigor. O sol já é forte. A calçada em frente ao estádio Uberabão está parcialmente ocupada por barraquinhas que comercializam espetinhos e latinhas de cerveja mais ou menos gelada e Coca-Cola. Alguns “tios do isopor” abastecem suas caixas com latas para venderem as latas nas arquibancadas. Alguns grupos exibem camisas alusivas aos dois times que, daqui uma hora, iriam começar a decidir o Campeonato Amador da cidade.

Peirópolis e Bonsucesso decidirão o “Amadorão” de 2016. Durante o certame, as duas equipes jogaram dezenove vezes cada, durante cinco meses cruéis, de muita luta, sol, campos esburacados, gols, alegrias, bombas e dores. Deixando para trás bons times.

Nos últimos dez anos, o time do Parque das Américas só não fez a final em 2010 e em 2015, quando, por sinal, o Peirópolis perdeu o título para o Parque das Américas. Os dois escretes contam com nomes de peso. Dos vinte e dois jogadores que iniciaram o jogo, mais da metade já aturam por times profissionais. Era muita prata em jogo.

[caption id="attachment_2963" align="alignleft" width="300"]
carlinhos-fundador-do-time

carlinhos-fundador-do-time

Carlinhos[/caption]

A frente do time do bairro dos dinossauros, que entra em campo primeiro, vem Carlinhos - fundador do time, em 1997, junto ao primo Paulo Sérgio, carregando, além de uma bolsa com bolas, um saco com laranjas. A Sociedade Esportiva Peirópolis brigaria por seu primeiro título. O Bonsucesso vem em seguida, surgindo em meio a um fumacê vermelho, cores do time. Badalado e multicampeão, conta até com torcida organizada, que grita o nome de Ratinho, craque do time.  Os times pousam para fotos. Fazem rodas, os capitães de cada equipe capricham nos clichês de motivação. A bola rola, começam os últimos noventa minutos do Campeonato Amador de 2016.

[caption id="attachment_2964" align="alignright" width="300"]
artilheiro-serginho-com-o-filho

artilheiro-serginho-com-o-filho

Serginho artilheiro dentro e fora dos gramados[/caption]

Com apenas cinco minutos de jogo, Marcelo Moreira, centroavante do Peirópolis torce o joelho e sai de campo, dando lugar a Chitão que mal sabia que dali a pouco se tornaria herói. O jogo é nervoso e disputado, o primeiro tempo passa rápido, apesar do abafado clima, sem alteração no placar. Nas arquibancadas, comentaristas de plantão arriscam palpites, além de disputarem um lugarzinho na pouca sombra de que o estádio Uberabão dispõe. Após o trio de arbitragem devorar meia melancia, o jogo retoma. Nem o mais otimista torcedor do Peirópolis poderia imaginar que, logo aos 4 minutos da segunda etapa, após bola cruzada na área, o jovem Serginho abriria o placar. Marcando seu vigésimo terceiro gol na competição, isolando-se na artilharia. Pouco deu para celebrar, pois, pouco tempo depois, Felipão deixaria tudo igual. Do lado de fora, muita gente apostava agora no Bonsucesso, que usaria do peso da camisa para virar o jogo e sagrar-se campeão, ainda mais que, no lance seguinte, Chitão perderia um gol na cara de Gustavo, deixando Carlinhos, que assistia da arquibancada e os demais torcedores do time do bairro dos Dinossauros apreensivos.

O Bonsucesso chegava e parava no goleirão Alvim que estava disputando sua quinta final seguida do Amadorão. Uma marca invejável. O jogo prosseguia nervoso, até brilhar a estrela do treinador Fabinho. O técnico do Peirópolis colocou em campo o veloz Paraíba, personagem querido pela torcida que, em sua primeira jogada, entrou na área em velocidade e sofreu pênalti. Chitão pegou a bola e bateu sem chances para o goleio Gustavo. Peirópolis colocava novamente a mão na taça. Os gritos de “é campeão” da torcida só cessaram com o gol de Cesinha, empatando o jogo nos acréscimos, mas nada adiantou.

O Peirópolis era pela primeira vez campeão da Primeira Divisão do futebol Amador de Uberaba. Já dentro de campo, um emocionado, e agora campeão, Carlinhos, corria descontrolado, abraçava jogadores e levantava as mãos para o céu. O capitalizado futebol amador pode, no próximo ano, levar embora todo o time do Peirópolis. A memória do sonhador Carlinhos, não.


Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »
Comentar

*Ao utilizar o sistema de comentários você está de acordo com a POLÍTICA DE PRIVACIDADE do site https://uberabapopular.com.br/.
Plantão
Atendimento
Envie a sua sugestão de notícia pelo PLANTÂO.