17/10/2016 às 12h06min - Atualizada em 17/10/2016 às 12h06min

Pixote – A lei do mais fraco: realidade que após 30 anos ainda pertence ao país

Hector Babenco cessou sua vivência há poucos meses aqui na terra. Contudo, o trabalho produzido durante sua vida como cineasta continua poderoso e com todo o vigor desde seu lançamento. Se ainda não conhecia esse nome, é bem provável que os filmes Carandiru, O beijo da mulher aranha e Pixote – A lei do mais fraco, lhe traga alguma lembrança. O diretor argentino que se naturalizou brasileiro, é o executor de obras pessimistas e claustrofóbicas, que, de forma alguma fogem das distorções que o espelho da realidade pode nos oferecer. E no mês das crianças nada mais sincero que um pequeno passeio na obra que deu notoriedade ao cineasta.

O longa Pixote – A lei do mais fraco, ambientado na intricada década de 1980, não é somente um dos marcos do cinema nacional, é antes uma obra crua e melancólica que coloca questões sociais brasileiras para um espectador, ainda hoje, completamente inerte. A câmera de Hector Babenco acompanha a história do jovem Pixote interpretado por Fernando Ramos da Silva, morador das ruas de São Paulo que nunca conheceu os pais. Um homem importante é morto e um grupo de jovens são levados ao reformatório (FEBEM) como suspeitos, dentre eles Pixote. Pouco tempo depois alcançam uma forma de fuga através de Lilica (Jorge Julião), uma jovem travesti que, ao ver seu companheiro ser brutalmente assassinado dentro do reformatório, estimula uma fuga em massa do lugar. Longe da FEBEM, Pixote, Lilica, Chico (Edílson Lino) e Dito (Gilberto Moura) mergulham de vez no profundo e incompreensível mundo da criminalidade como forma de sobrevivência em uma sociedade implacável.

A narrativa de Babenco e Jorge Duran, baseada no romance de José Louzeiro é completa e toca em elementos que insistimos em pensar ser intocáveis. Executa o retrato doloroso das crianças em situação de rua nas megalópoles brasileiras. Ao acompanhar os passos do jovem Pixote, o espectador deve estar, no mínimo, preparado para ver em cena: polícia violenta, corrupção, a inexistência da família, o tráfico, a promiscuidade e claro, o desprezo da sociedade que evita sequer trocar qualquer tipo de contato com essa margem. E o elemento mais tocante diante de tanta angústia, é a forma como Babenco, mesmo trazendo para tela grande toda a dura realidade desses jovens, consegue construir nítidos personagens humanos que buscam um espaço no mundo.

Babenco fez uso de um elenco formado por atores não profissionais, o que deu um tom digno de neorrealismo italiano. Boa parte retirada da favela para atuar em papeis muito parecidos ao da vida real. O próprio protagonista – de olhar triste e penetrante e que dá grande credibilidade ao que se vê na tela – traz consigo toda a realidade de uma vida complicada da favela.

E é impossível, falar de Pixote, sem tocar na infeliz história de Fernando Ramos da Silva que, após o filme, até conseguiu papeis em outros trabalhos como ator, mas por não saber ler ou escrever, acabou voltando para favela, lugar de onde sua família nunca havia saído. Em 1987, Fernando Ramos foi assassinado em uma batida policial, crime esse que tardou a ser solucionado. O lamentável destino do rapaz faz um resumo de toda tragédia, dor e isolamento de jovens que nascem e crescem nas ruas das várias cidades do Brasil ainda hoje. Assim, Hector Babenco sem em nada parecer maniqueísta, faz uma pintura cruel, mas, integralmente, sensível e competente de uma realidade repleta de armadilhas colocadas pela própria sociedade.


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