14/10/2016 às 21h08min - Atualizada em 14/10/2016 às 21h08min

Kaká Carneiro

No alto do São Benedito, o pequeno Edcarlo tinha que ter olhos para a bola, que rolava diariamente nas ruas do bairro, e para o irmão Juju, que, vez ou outra, escapava dali para ser encontrado alguns quarteirões depois, pedindo pão com açúcar para alguma vizinha. Edcarlo, ou Kaká, não se importava, e rumava atrás do irmão para mais uma vez trazê-lo de volta e reiniciar o futebol - cuidado que se repete até hoje.

Quando não estava batendo bola ou na escola, levava os salgados que a mãe fazia para vender no supermercado Alfa ou na fábrica de calhas, além dos quitutes para fazer um dinheirinho, ajudava o pai na pastelaria instalada no Mercadão. Vez ou outra apareciam por lá figurões da cidade, que discutiam, entre um ou outro pastel, preparado por Edmur, os rumos políticos da cidade.

Foi Carlos, treinador das categorias de base do Fabrício que percebeu que o menino levava jeito para o futebol. E foi lá, nos campos do time grená, que o pequeno foi tomando intimidade com a bola. Pelos próximos dez anos, Kaká vestiu a camisa do Fabrício, conciliando as partidas dos campeonatos locais com a escola.

Aos dezesseis anos chamou a atenção de empresários. Deixava, assim, os gramados de Uberaba e, principalmente, a casa dos pais, para jogar no União São João, da cidade paulista de Araras, onde ficaria por pouco tempo, pois uma oportunidade inesperada iria lhe surgir: jogar fora do país. Vera e Edmur tiveram que emancipar o filho, que antes de completar dezessete anos iria viver em Santiago, onde atuaria pelo Universidad de Chile. Apesar das dificuldades com a língua e o clima, Kaká foi se adaptando à cultura chilena.

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Kaká com o irmão Juju[/caption]

Foi em um dia comum, após o treino, que veio a notícia: por não entrar em acordo financeiro com os chilenos, o empresário o levaria de volta ao Brasil, onde desembarcaria em Belo Horizonte, primeiro no Atlético, depois no América, onde, após se profissionalizar, recebeu a notícia de que seria emprestado para um algum clube do interior mineiro. Atordoado com mais uma reviravolta e, sobretudo, com mais uma incerteza, Kaká saiu debaixo de chuva atrás de orelhão, de onde ligou chorando para o pai. E após uma conversa decisiva, os pais afirmaram que receberiam o filho de braços abertos. Os mesmos braços que dois anos antes o deixaram sair. Kaká ainda jogaria um Campeonato Mineiro pelo Nacional, de Uberaba, antes de encerrar de vez a carreira como jogador de futebol.

Os anos de futebol deixaram uma lacuna no que se diz respeito a escola. Tão logo decidiu pendurar as chuteiras, Kaká terminou seus estudos no Instituto Borba Gato, de São Paulo, prestou vestibular e ingressou no curso de Administração, na Faculdade de Ciências Econômicas do Triângulo Mineiro.

No primeiro ano de curso, foi aprovado em teste para ingressar no banco HSBC. Dividia, assim, a faculdade com o emprego no banco. Caseiro, gostava de assistir televisão nas horas de folga e foi durante o programa Se Liga, em uma emissora local, que tomou conhecimento da oportunidade que viria a mudar novamente o curso de sua vida. O Se Liga, comandado por Alexandre Balcão, Taciano Giacoia e Gabriel Rezende, criou a ‘Casa dos Farristas’, sátira aos realitys shows das grandes emissoras. Por três dias, dezenas de pessoas dividiriam o mesmo teto, como nos formatos já consagrados. Kaká se inscreveu, foi selecionado, passou três dias na casa e uma semana depois foi chamado para ser repórter do Se Liga – programa que deixaria a marca registrada que carrega até hoje.

No irreverente programa, Kaká fazia a cobertura de diversas festas e eventos, o que lhe rendeu certo reconhecimento. Contudo, não deixou de trabalhar no banco e de cursar a faculdade de Administração, a qual concluiu sem pormenores, em seguida se pós graduando em Marketing. O relativo sucesso do programa lhe atribuiu certa fama local e não demorou para que fosse “namorado” por partidos políticos. Acabou optando por se filiar ao PSL (Partido Social Liberal). Com os conhecimentos adquiridos durante os estudos e a popularidade alcançada, trabalhou e ajudou na eleição do candidato a vereador Afrânio Lara.

No mesmo ano, Kaká tomaria outra difícil decisão: deixaria o banco para se dedicar a uma posterior candidatura. Foi uma decisão tomada junto à família, que mais uma vez o apoiou. O fortalecimento e amparo familiar em suas decisões foram de suma importância, assim, intensificou sua participação na televisão pelos próximos anos e lançou-se candidato em 2008, obtendo 1627 votos e ficando como 1º suplente. A expressiva votação serviu para que Kaká tivesse uma certeza: seguiria na política.

Devido a sua formação, o seu papel no entretenimento e, claro, o sucesso nas urnas, recebeu o convite para ser Diretor Cultural e de assuntos Afros na Fundação Cultural de Uberaba, presidida na época por Rodrigo Mateus. A burocracia diária, o atendimento ao público e o cotidiano do serviço público foram de suma importância para o aprendizado de Kaká como gestor e, claro, o entendimento da funcionalidade pública.

Nas eleições seguintes, agora pelo PR (Partido da República), foi eleito com expressivos 3966 votos. Era o sonho se tornando realidade. Kaká procurou formar uma equipe forte e dedicada. Durante seu primeiro mandato, entre outras ações, impediu que o Centro de Triagem de Cartas e Encomendas (CTC) fosse transferido para Uberlândia. Ainda sobre a cidade vizinha, junto ao engenheiro Nelson Ciabotti, Kaká denunciou um erro na demarcação da divisa entre as terras uberlandenses e uberabenses, conseguindo uma nova demarcação. Na primeira legislatura, mostrou-se empenhado e, além de ir ganhando notoriedade, desmitificou com o tempo a fama de boêmio, erroneamente atribuída por conta das participações em festas com o programa Se Liga. Kaká nem sequer consome bebidas alcoólicas.

Nas eleições deste ano, com 3510 votos, foi eleito para seu segundo mandato. Serão mais quatro anos para mostrar serviço e a força de quem sempre foi firme em suas decisões ao longo da vida. O menino que jogava bola na rua, no alto do São Benedito, sonha ainda em ser prefeito da cidade. Planeja isso desde o momento em que ingressou no Legislativo, estipulando uma marca: 20 anos para ser eleito prefeito. Restam dezesseis. Restam, também, as qualidades de sempre, que fizeram de Kaká um sujeito querido e simples. Que ainda olha pelo irmão Juju, continua ajudando os pais e vez ou outra, chuta uma bola.

Ao longo da vida, Kaká decidiu abandonar carreiras, como a de jogador de futebol e como bancário. Decidiu, também, sempre ouvir os conselhos de “seu” Edmur e “dona” Vera, afinal, são nos momentos de decisão que traçamos nosso destino. Kaká traçou o dele que, sobretudo, está no ato de “se ligar” no que o coração tem pra nos dizer.


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