07/10/2016 às 14h11min - Atualizada em 07/10/2016 às 14h11min

“Seu” Nenê Baiano: o eterno comandante

Disciplinador, Nenê tirava o melhor dos atletas, tanto dentro quanto fora do campo, por meio de ensinamentos.

José Alfredo Ciabotti

“Nó é San Zózimo, é San Zônimo”, afirmou o padre italiano com o sotaque carregado. E assim foi batizado o segundo filho do casal Celso Ferreira e Theodozina Angélica Coelho: Zônimo, que com o tempo passou a ser conhecido por Nenê, apelido que carrega até hoje. Zônimo, ou Nenê, nasceu em 4 de abril de 1932, dia de São Zózimo, como o pai havia visto na “folhinha” pregada na parede da cozinha. Seus pais vieram da Bahia para trabalhar nas lavouras cafeeiras que por aqui cresciam. Vieram a pé, com uma muda de roupa, da cidade de Brumado, no sul da Bahia, até Conquista, depois se estabelecendo em Uberaba. Nenê cresceu uma criança feliz, apesar da lida com o trabalho no campo desde cedo. Hora ou outra, rumava para a rua Sete de Abril, no bairro Estados Unidos, para bater bola com outros moleques de calças curtas até a noite chegar.

Nenê trabalhou na roça, em farmácia e na enfermaria do Asilo São Vicente, até surgir o convite para comandar um escritório da empresa agropecuária VR. Aplicado, havia terminado o curso científico e levava jeito com números. Nos domínios da propriedade rural da VR, logo deu um jeito de organizar um time com os funcionários da empresa. O time passou a disputar os torneios varzeanos em caráter amador, com Nenê de capitão da equipe. E foi numa dessas partidas que chamou a atenção de um olheiro, que o levou para o juvenil do Uberaba Sport Club, onde ficou por algum tempo, até o clube resolver dissolver o time. Os tempos eram outros e, seguir a carreira de jogador de futebol era algo arriscado, sobretudo para Nenê que, aos dezoito anos, em 1950, casou-se com Júlia Bernardes, com o qual construiria a vida e teria três filhos (Celso, Marcos e Júlio) e uma filha (Lucia Helena). Nenê e Júlia foram casados até a precoce morte da esposa, no final dos anos setenta.

Nenê passou a dedicar-se com mais afinco no escritório, no qual trabalhou por mais de vinte anos e, entre viagens para conferir gados da empresa, sempre dava um jeito de voltar mais cedo para suas paixões: a família e o recém criado time de futebol amador do bairro Santa Marta.

Foi no time de futebol amador do bairro que Nenê Baiano percebeu-se como um bom gestor. Tinha tomado gosto por dirigir os times. Começava assim sua carreira como formador de atletas e pelos próximos 40 e poucos anos, Nenê montou, dirigiu, organizou e educou por meio dos conceitos de futebol, milhares de jovens. Disciplinador, tirava o melhor dos atletas, tanto dentro quanto fora do campo, por meio de ensinamentos. Foi com essa ideia, por exemplo, que montou times em todas as categorias possíveis no time do bairro. Via no futebol um grande trunfo na inclusão social das crianças empobrecidas do bairro. Mesmo sem jeito para o futebol, Nenê dava um jeito de encaixar a criança em algum momento, respeitando seus limites. O importante era tirar a criança ou o jovem da rua e, com os ensinamentos e o trabalho em grupo, transformar suas perspectivas. Foi assim com centenas, que hoje param seu “Nenê” pelas ruas do Santa Marta para agradecê-lo.

Além do Santa Marta, Nenê trabalhou com as categorias de base do Uberaba Sport, com times de crianças no Uirapuru e no projeto “Bom de rua, bom de bola”, com o ex-lateral da Seleção, Djalma Santos. Também foi o fundador do time de futebol amador Butantã, alusão ao seu tempo de VR, onde todos que lá jogavam eram “cobras” em campo, e idealizador do campo do bairro, o Nenenzão, chamado assim em sua homenagem.

“Seu” Nenê Baiano é daqueles personagens que só o futebol produz. É também alguém que transformou sua paixão pelo esporte como pulsão para suas causas.
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