07/10/2016 às 13h53min - Atualizada em 07/10/2016 às 13h53min

Os imigrantes e as oportunidades para todos nós

De dez anos pra cá, o número de imigrantes no Brasil aumentou 160%, segundo dados da Polícia Federal. Só ano passado, 117.745 estrangeiros deram entrada no país. Situada nas proximidades de cidades importantes e com uma economia de médio porte, Uberaba também se tornou destino dos estrangeiros que, por variados motivos, escolhe as terras uberabenses como morada. Vários veem com um rumo definido, seguindo o caminho já tomado por familiares e amigos que aqui chegaram anteriormente. Outros parecem abertos a qualquer possibilidade, sem muita noção do que é o Brasil e do que encontrarão pela frente, em situação de grande risco.

Em Uberaba, vários dos imigrantes escolhem o Calçadão da rua Artur Machado para fazer algum dinheiro, vendendo os mais variados produtos, como óculos de sol, meias, relógios, anéis, pulseiras. É o caso de Abdullah, que de Bangladesh foi morar no Paraguai, depois em São Paulo e por fim Uberaba, onde vende meias no Calçadão. Vizinho da Índia, Bangladesh há muito tempo é caracterizado por uma grande pobreza, sobretudo após os inúmeros conflitos que assolam país. Abdullah nasceu em Daca, capital do país e aceitou uma proposta para trabalhar com vendas em Assunção. Da capital paraguaia, passado pela louca São Paulo, a qual não se adaptou, chegou a Uberaba, onde está a menos de um ano. Com 26 anos, o bengalês ainda está se adaptando ao jeito brasileiro.

Morando há quatro anos em Uberaba, Sohna Samba, veio por intermédio de um irmão que por aqui já estava há quase 10 anos. Natural do Gâmbia, um pequeno país da África Ocidental, deixa bem claro que a “A África não é um país”, como muitos pensam e completa “Temos povos totalmente diferentes uns dos outros”, completa. Sohna se posta todos os dias em frente a uma famosa loja para vender relógios e bijuterias. Seu filho, por exemplo, aproveitava um dos sofás da loja para tirar um cochilo durante a tarde. Na sua terra natal, que recebia inúmeros turistas, principalmente europeus, trabalhava como vendedora ambulante, assim como em Uberaba.

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Soumayila: ex-professor de francês hoje vende óculos[/caption]

Diferentemente de Sohna, o marfinense Soumayila Bara, que está em Uberaba também há quatro anos, não era vendedor ambulante em sua terra natal e sim professor de francês. Não consegue lecionar por ainda não dominar o português e, quando não está no Calçadão vendendo óculos, trabalha como auxiliar de serviços gerais em uma faculdade local. Soumayila deixou na Costa do Marfim a esposa e quatro filhos, os quais quer buscar em breve.

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Peruano Lucho tem uma loja de eletrônicos.[/caption]

Há bem mais tempo no Brasil que os outros imigrantes, Luiz Davi, o “Lucho”, já foi imigrante em três momentos diferentes, primeiramente quando saiu do Peru, aos dezoito anos e foi morar no Japão, em 1990, onde trabalhou em diversas indústrias e, sobretudo, conheceu sua atual esposa, Paula, brasileira, filha de um descendente de japonês com uma descendente de italianos que estava na “Terra do Sol Nascente” para trabalhar. Lucho e Paula foram morar nos Estados Unidos, onde ficaram por dois meses sem se adaptar, resolvendo por fim, fixar-se novamente no Brasil, onde, em 2001, o peruano abriu junto ao sogro, uma importante loja de eletrônicos.

Fronteiras reais desobedecem a fronteiras geopolíticas e vagueiam pelo mundo, separando etnias, povos e classes. Para atravessar uma fronteira real, não é necessário passaporte. Com pouco, se atravessa uma barreira econômica, às vezes sem nem se dar conta. Mesmo com tantas realidades ao mesmo tempo, parte de Uberaba ainda maltrata imigrantes marfinenses, haitianos, bolivianos, chineses ou de qualquer parte. A dondoca “escritora” pede em sua coluna no jornal para limparem o Calçadão, o estudante abonado pelo papai ri da cultura diferente e o radialista formador de opinião (mesmo que nenhuma) aponta sem saber o que.  Todos precisam compreender que não se trata de uma oportunidade para os imigrantes, trata-se de uma oportunidade para todos nós. De aprender com o diferente, que seja.


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