29/09/2020 às 22h22min - Atualizada em 29/09/2020 às 22h22min

Thiago Sorrisão: o palhaço humanitário

Voluntário em tragédias como Mariana, Brumadinho e, mais recentemente, nos incêndios no Pantanal, Thiago teme sentir medo de dar continuidade às suas ações.

O que você faria por outras pessoas? O Retratos da Rua, desta terça-feira (29), conta um pouquinho da história do Thiago Alves Pereira, o Thiago Sorrisão. De menino travesso a um dos mais ativos voluntários de Uberaba, ele não mede esforços para mobilizar a sociedade em prol da ajuda humanitária.

“As pessoas costumam dizer que o filho do meio é o mais custoso. Então, deve ser verdade, porque eu sou o filho do meio e dei muito trabalho para a minha mãe e para o meu pai. E ainda dou. Fui expulso de algumas escolas e até da faculdade”, conta Thiago.

Aos 35 anos, o filho da Dona Creuseni e do Sr. José Alves pode até dar um pouco de dor de cabeça, mas ela vem acompanhada de um imenso orgulho. “Hoje em dia a minha mãe já vê alguém precisando de alguma coisa, ela me mostra e pergunta: a lá, não vai ajudar não”.

Nascido e criado no bairro Abadia, Thiago faz questão de ressaltar que pertence à comunidade “Olhos d’água”, denominação dada ao perímetro que abrange parte do “grande Abadia” e Costa Telles. “Eles me apoiam em tudo. Me ajudam em todas as arrecadações e campanhas que faço”, comenta.

Aos 12 anos, Thiago sentiu, pela primeira vez, a necessidade de amparar uma pessoa. Uma aluna, da mesma turma, não tinha condição de comprar o material escolar e ele acreditou que pudesse ajudá-la. “Naquela época, as coisas eram bem mais difíceis. Nós éramos pobres, eu ainda sou pobre, mas tudo era mais difícil, inclusive, nesta questão da educação. Daí vi aquela situação e conversei com a minha mãe, pedi um dinheiro para fazer uma vaquinha. Pensa bem, naquela época a gente já fazendo vaquinha. E deu certo. Outros alunos também doaram dinheiro, entregamos à professora e ela mesma comprou o material para a nossa colega”.

Após a adolescência, Thiago sentia um desconforto. Ao mesmo tempo em que queria se entregar logo ao assistencialismo, alguma coisa o impedia. “Mas, não é que Deus escreve certo por linhas tortas?”, ele pergunta.

Foi depois de cometer um crime de trânsito que ele se aproximou de vez do voluntariado. O que não serve de orgulho para nenhum outro jovem, foi o que fez nascer o palhaço Sorrisão.
“Eu era inabilitado. Ainda sou, mas dirigia uma moto e um dia, tentei fugir de uma blitz. Quando eu vi a polícia, virei em uma rua que era contramão. Fui detido por infração perigosa e condenado a prestar serviços voluntários em uma instituição de Uberaba. Depois de cumprir a pena, eu nunca mais quis me afastar das ações”.

O trabalho era dar vida ao palhaço humanitário Sorrisão. De assistência em hospitais, lares de idosos e crianças até atuações maiores, como o trabalho realizado nos deslizamentos das barragens de Mariana, Brumadinho, enchentes em Minas Gerais, no início deste ano e, recentemente, as queimadas no Pantanal.

Pode-se dizer que Thiago “vive disso”. Sem vergonha de pedir ajuda financeira, ele recebe doações para custear o transporte e a alimentação.
“Às vezes saio de Uberaba apenas com o dinheiro da passagem, que consigo pedindo ajuda para as pessoas. Você não está indo para um passeio em uma tragédia, é literalmente, estar indo à guerra.”, explica.

Mesmo com a saúde comprometida, (Thiago teve bronquite asmática na infância e depois de adulto acabou sofrendo alguns transtornos, ocasionados pelas ações que pratica), Sorrisão não se intimida e permanece ativo nas mais diversas atividades.  

“Depois de Brumadinho, comecei a tomar medicamento faixa preta. Eles me deixam um pouco desnorteados, inclusive, estas reações aos remédios geram depressão, perda de memória, mas não sinto medo. Eu tenho medo é de sentir medo de ajudar o próximo, de estar envolvido nestas tragédias. Não é para aparecer, mas para amparar a dor de um irmão”, explica.

Questionado sobre a forma com que as pessoas o enxergam e interpretam as suas ações, Thiago garante que muita gente não tem coragem de fazer o que ele faz. “Uns são indiferentes, outros sentem inveja”, resume.

Agnóstico declarado, sacramentado no catolicismo, Sorrisão já passou por várias experiências religiosas, mas nenhuma das ações voluntárias praticadas é motivada por qualquer doutrina. “Conheci quase todas as religiões mais populares. Isso foi extremamente importante no meu trabalho, principalmente, nos hospitais. Nem sempre um paciente quer uma brincadeira de um palhaço. A pessoa ali no leito precisa de um amparo, muitas vezes religioso. E cada uma tem a sua religião, e eu preciso saber que Deus apresento a ela”.

O fato é que Thiago continua pedindo ajuda por alguém e continua emprestado o seu trabalho às tragédias que a gente não evita, mas que ameniza, se houver dedicação e amor. “Costumo dizer que eu tenho uma equipe enorme que está sempre comigo. Primeiro Deus, que carrego a todos os lugares, e depois cada pessoa que faz uma prece, que manda uma energia positiva para que eu possa realizar uma boa ação e voltar para casa”.



Contar quantos mortos ele ajudou resgatar em Mariana e Brumadinho ou que ele se viu cercado pelo fogo, sem controle, no Pantanal, numerar as pessoas que ele viu em um dia no hospital e ao retornar elas tinham morrido, contar quantas mil toneladas de alimentos ele já conseguiu arrecadar ou quantos tratamentos ele proporcionou aos doentes, pedindo dinheiro de porta em porta, nas redes sociais e na sua comunidade, tudo isso parece irrelevante diante da grandeza da sua primeira atitude, lá atrás, aos 12 anos, quando Thiago percebeu que é possível fazer mais pelo outro, sem interesses, sem imposições religiosas ou políticas, apenas para se sentir bem e proporcionar o bem ao próximo.

Contar que os pais pensaram em interná-lo em um hospício por ele ter se abstido do casamento, da convivência com o filho para estar onde ninguém faz questão de estar, isso sim, é necessário.

Thiago Sorrisão. É, ele parece louco. “Mas se são os loucos que fazem mais por seus irmãos, então, eu não me importo”, se diverte, ironicamente o palhaço.
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