06/10/2016 às 15h43min - Atualizada em 06/10/2016 às 15h43min

Picolé premiado

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Há 16 anos o senhor Valter faz hemodiálise, processo para “limpar” o sangue, quando os rins não dão conta da tarefa.[/caption]

“Senta aí, major. Se você puder colocar no jornal, fala aí que estou agradecendo a todo mundo que me ajudou nesses últimos meses, que foram difíceis”. Quem manda o recado é Valter Gaspar Costa, ou, como é mais chamado, Picolé. Conhecido técnico de futebol no meio das categorias de base da cidade, o treinador está afastado dos campos há quase um ano.

Por causa de um acidente banal, ele ficou mal de saúde, andando só de cadeira de rodas, e, com dificuldades financeiras também, teve que contar com a solidariedade de várias pessoas – inclusive desconhecidas – para driblar os problemas. A pior fase passou e o “professor” está quase totalmente recuperado. Picolé contou ao Uberaba Popular como foi o “perrengue” que enfrentou e relembrou sua trajetória. Sobre o “major”, o repórter não tem nenhuma patente militar para receber tal tratamento. É só um cumprimento que Picolé costuma usar nas conversas.


Entre a vida e a morte

Há 16 anos o senhor Valter faz hemodiálise, processo para “limpar” o sangue, quando os rins não dão conta da tarefa. Seguindo a orientação médica, o paciente leva uma vida normal. Em novembro do ano passado, no entanto, um acaso deixaria a saúde de Picolé frágil.

Na obra de uma casa vizinha, dois pregos vazaram o pé do treinador. Após os curativos, ficou claro que não seria um simples machucado. A infecção na ferida alastrou, atingiu as pernas e causou até uma hemorragia intestinal. “Fiquei mal. O médico disse que só não morri porque o sangue saiu por trás. Se fosse pela frente, pela boca, eu poderia não ter resistido”, conta o técnico.

Após o tratamento, Picolé voltou pra casa, todavia, as dificuldades ainda estavam longe de terminar. Com a saúde debilitada e problemas financeiros, ele precisou da ajuda de pessoas que fizeram campanhas para arrecadar dinheiro, alimentos e remédios.

“A primeira pessoa a me ajudar foi o Arnaldo, um ex-jogador meu, que estava no estado de São Paulo, mas ficou sabendo da minha situação pela mãe e mandou providenciar o melhor médico. A Ana Maria, do Codau, ao ficar sabendo também de imediato ajudou. E muita gente do Fabrício também: o Julião, o Serginho, Carlinho Babão, Madrinha... o Alisson, que fez o jogo solidário. O Giovane (Faquinelli), que começou uma campanha pela internet e aí minha casa ficou cheia de gente. Ainda não tive chance, então quero aproveitar o espaço para agradecer a todo. Fiquei surpreso, não imaginava que era tão querido, teve muita gente que eu nem conhecia e veio aqui ajudar”, diz Picolé.


Sonhando com o retorno

Agora o treinador está bem de saúde. Continua com a rotina de fazer a hemodiálise três vezes por semana. Enquanto o retorno aos campos não acontece, vai lembrando mais pessoas a quem deve um “obrigado”. “O prefeito Paulo Piau veio aqui em casa saber do que eu estava precisando, só tenho a agradecer. A ambulância leva e traz e o pessoal da Saúde faz os curativos e a fisioterapia em casa. O filho dele, o Gustavo, mexeu com a burocracia para conseguir essa casa aqui no Anatê. Eu pagava 600 contos de aluguel, agora pago R$ 63 por mês”.

O técnico não vê a hora de voltar a trabalhar com o futebol. “Ele até chora pensando em voltar”, diz a esposa Adriana, companheira nos momentos mais delicados. “Até sonho com os meninos”, completa o “professor”.

Segundo Picolé, o Pinheiros, seu último clube, aguarda seu retorno. “Vou trabalhar com meninos de 15 anos pra baixo. Aqui nessa região dá pra trabalhar tranquilo, tem menino demais aqui. Já ganhamos um campo, e o presidente Zé Roberto e a diretoria vão dar o apoio necessário na base. O médico não quer deixar eu voltar, mas já estou 75%, logo estou de volta”.


Nômade

Andes de virar treinador, Valter Picolé foi lateral-direito e volante. Teve uma vida de atleta nômade, passando por diversas localidades.

A trajetória foi sendo resgatada no bate-papo. “Eu tinha uns 11 anos, perdi minha mãe no dia 10 de agosto e meu pai no dia 20. Fui morar com uns tios, mas judiavam de mim. Comecei a trabalhar e jogar no campo do ‘pega bezerro’, ali atrás do Independente. Um dia, estava jogando no primeiro campo atrás da estação Mogiana, lá em cima. Tinha um olheiro lá, o Elvécio, veio me perguntar pelos meus pais, quem eu tinha de responsável, que ele queria me levar pra Barretos. ‘Você vai só jogar bola, morar no fundo da minha casa com meu filho, que também joga’. Ele conversou com o patrão do meu pai e eu fui, tinha 14 anos. Passei por Barretos, daí Jaboticabal, Dom Bosco de Cuiabá, Operário, Cáceres, joguei na Bolívia, depois voltei pra cá, pra Goiás: São Luís de Montes Belos, Uruaçu, Goianésia, Inhumas... Mas nunca tive a bela sorte de ser premiado com um time bom. Aí fui pra São José dos Quatro Marcos, no Mato Grosso, mas não aguentei o calor. Lá perto, em Rondonópolis, estavam precisando de treinador e eu aceitei. Aí vim andando, até chegar em Campo Florido, Nova Ponte, e há 16 anos voltei pra Uberaba”.


Cinco anos de USC, 11 de Fabrício

Aqui, Picolé começou como técnico no Uberaba Sport Club, a convite de Luiz Alberto Medina (“Está me devendo uma visita”) e Lobão. Depois de cinco anos no Colorado, foi para o Fabrício, levado pelo Julião. Na carreira, são mais de 50, entre títulos locais e regionais. “No Uberaba fomos até vice-campeões de um ‘Brasileirinho’ de base, só com grandes clubes”, recorda. No Fabrício, ganhou a “tríplice coroa” em 2010, quando foi campeão no Pré-Mirim, Mirim e Infantil da Liga Uberabense.

No ano passado, foi pro Pinheiros, a convite do técnico Elvinho, e logo no primeiro ano chegou às finais do Pré-Mirim e foi campeão em um torneio em Campo Florido. “Já trabalhei com Juvenil também, mas não gosto. Nessa idade o garoto quer ser dono de si, quer chuteira de ouro, calção de diamante”.

Em meio aos troféus que ganhou, há espaço para homenagens, como as que recebeu do Jornal Replay e da Liga Uberabense de Futebol pelo trabalho nas categorias de base.

Inúmeros atletas do futebol amador tiveram ensinamentos com Picolé. “Chego nesses campos e sempre tem cinco, seis que jogaram comigo. Mandei poucos pra fora, uns dez, mas estão em boa situação”, comenta. A primeira preocupação é formar um homem de bem. “Eu trabalho sério, não prometo mundos e fundos, levo o pai para ele ver se onde o filho vai ficar, serve. Temos que fazer o homem primeiro, senão não faz atleta. Hoje tenho muitos ex-alunos que são responsáveis, tem gente estudando para ser advogado, teve um que mexia com porcarias, mas eu fui atrás dele, ele ‘virou a casaca’ e casou, trata bem a mulher, é pai de família.”


Futebol moderno

Picolé assiste futebol “até de madrugada” e dá sua opinião sobre o jogo moderno. “Os técnicos estão acabando com o futebol, trazendo o jogo pra beirada, e os craques jogam no meio. Embola cá embaixo, aí não sai jogo”, analisa.

O professor Valter tem mais críticas dos “tempos modernos” no esporte. Para ele, os grandes jogadores ganham muito dinheiro e os “cartolas” só atrapalham.

“Jogador ganha muito, aí não quer jogar bola mais. É isso de um lado e diretor ruim de outro. Diretor acaba com qualquer time, a qualquer hora. Olha a Portuguesa, que tanto craque fez, está morrendo”, comenta. Ele também palpita sobre o futuro da Seleção. “A Copa é em 2018? Então, olha, tem que começar a trabalhar agora. Formar a base do time já e treinar com ela até lá”.

E o apelido Picolé? Surgiu durante os “rachinhas” na praça Carlos Gomes. “Tinha um tal de picolé premiado, eu tirei nove picolés premiados do carrinho, aí o Ticha colocou o apelido e não saiu mais. Era uma época boa. Aquela pracinha já deu jogador: Leonardo Caldeira, Jarbas Cury, muita gente boa começou lá”.

“Major”, a conversa está boa, mas é hora de despedir. Não sem um último toque, sobre o futebol profissional local. “Tem que mudar essa história de trazer só jogador de fora. Os meninos vão subindo, chegam ao profissional e não têm chances”, finaliza. Prêmio para o Picolé!


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