06/10/2016 às 14h37min - Atualizada em 06/10/2016 às 14h37min

A grandeza opressora da história: o poder de Kleber Mendonça Filho

Se fazer cinema é o mesmo que brincar de Deus, então Kleber Mendonça Filho está fazendo isso muito bem. Com seis curtas-metragens premiados e aclamados pela crítica em festivais brasileiros, o diretor pernambucano está com seu segundo e polêmico longa em cartaz em capitais nacionais e estrangeiras. Aquarius traz um arsenal assombroso de um cineasta criativo e ciente do seu lugar de fala que em nada se aproxima da prepotência de muitos outros que nadam na contracorrente. Se com O Som ao Redor, seu primeiro longa, Kleber nos fez sentir imersos num universo tão brasileiro de classes e latifúndios, em Aquarius a crítica continua viva e inteligente com mais potência e maturidade de uma protagonista que ecoa cólera e força.

Kleber Mendonça Filho é mais do que as últimas manchetes que circularam (e ainda circulam) desde maio envolvendo boicote por parte de blogueiro (com síndrome de adolescente emburrado) da revista Veja. O diretor é responsável pelo curta-metragem Eletrodoméstica, de 2005, que narra o breve cotidiano de uma dona de casa recifense de classe média inserida na década de 1990. Muito bem realizado, está tudo lá, por meio de diálogos, signos e ações.  Todo o enredo vai ser revisitado quase dez anos depois para ser inserido em O Som ao Redor. O longa de 2014 tem o vigor que há muito não se via em território nacional. A forma como o pernambucano coloca as imagens em preto em branco logo no início do filme nos oferece uma maneira de narrar (muito parecida com a abertura de Os Donos da Noite) reflexiva sobre o país e o que ele já foi. As imagens estampadas na tela contam, na realidade, a história dos donos de fazendas e senhores de escravos. Conscientemente as fotografias antigas fazem um belíssimo paralelo com o que de fato será discutido em todo o longa: a exploração do e pelo trabalho e, claro, a fixação e compulsão pela posse apenas estão com novos realces no século XXI.

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Cena do Aquarius, dirigido por Kleber Mendonça[/caption]

Em Aquarius, além de todo o enredo altamente bem desenvolvido, que você já deve ter lido em outro lugar acerca da história de Clara e a venda ou não do apartamento a construtora, temos um grupo de jovens negros que quebra com o que pensamos ser o óbvio: eles não levam o dinheiro das pessoas que praticavam “riso terapia” (atividade que consiste em rir para relaxar). Os dois sentam junto ao grupo e praticam a distinta atividade. Mais a frente, temos um jovem branco de classe média alta (o afamado playboy) vendendo drogas durante o dia. Num mesmo filme temos jovens negros que não roubam e um homem branco rico traficante.

Em seus dois filmes a discussão da sociedade é latente, é viva, e talvez, algumas pessoas tenham uma certa resistência em compreender os processos profundos (e por que não labirínticos) de uma sociedade que está em constante estado de urgência e necessidade.

Em tempos altamente complexos, a narrativa de Kleber Mendonça se destaca de forma segura ao colocar dentro de seu trabalho todo um conjunto de influências e críticas de um ramo intricado do Brasil e suas questões sociais. O estilo surrealista em seus filmes faz do diretor um homem consciente que sabe lidar não apenas com a câmera, mas com o discurso de uma classe que cresce, de relações de trabalho que se complicam, e, principalmente, indivíduos desesperados inseridos em uma realidade angustiante.


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