06/10/2016 às 14h22min - Atualizada em 05/09/2018 às 16h27min

Cinema: quando quase brincamos de Deus

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tubarao

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Cena do filme Tubarão 3, lançado em 1982.[/caption]

Estamos em 1982, você leu mais cedo no jornal local que o novo longa do Steven Spielberg acaba de entrar em cartaz. Você pode escolher entre ficar em casa e ouvir discos com mais dois amigos do colégio ou dançar durante horas numa discoteca próxima a seu bairro. Talvez os filmes em cartaz não sejam do seu agrado, ou sua namorada prefira um faroeste do Leone que está sendo reexibido num cineclube. Você, muito provavelmente, resolveu que assistiria a película do extraterrestre perdido, pois o texto da crítica reforçou a lembrança de Tubarão, sucesso de público e crítica. Foi ao cinema, estava parcialmente cheio, alguns senhores fumavam, algumas mãos enfurecidas atacavam sacos de pipoca, outros tomavam Coca-Cola, não coincidentemente um pequeno comercial do refrigerante é exibido minutos antes do filme. Enfim, a película é estampada na tela grande e as luzes são apagadas.

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8-one-half-clowns-marching

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Cena final de 8 1/2, de Federico Fellini, lançado em 1963[/caption]

Todo esse processo faz parte de um rito sagrado que envolve indivíduo, experiência, indústria e dinheiro. Todo o prazer que exalamos ao assistir a nova poesia de Fellini está permeada, não somente, pelos nossos anseios mais íntimos, mas pela publicidade, pelas distribuidoras, pela entrega dos filmes para os donos das salas que exibirão para um público que pagou pelo lugar. Então o cinema é isso? É todo esse processo complicado que envolve tantos indivíduos inseridos num dado espaço tempo? Obviamente, o cinema nem sempre foi esse da década de 1980, sabemos disso! Temos consciência de que estamos diante de uma nova forma de se consumir o filme, de se apaixonar por uma trama ou personagem, de seguir os passos de um diretor. Mas o que nos faz pensar que o cinema é eterno?

Quando dois jovens inventores exibiram pela primeira vez a imagem da chegada de um trem, os espectadores se assustaram com as figuras em movimento, todos sabiam que não se tratava de uma máquina real, que estavam seguros sentados em suas cadeiras confortáveis daquele café parisiense. Talvez alguns pudessem pensar que tal invento não criasse raízes e servisse apenas como instrumento para se registrar experimentos científicos. Não sabemos se os Irmãos Lumière poderiam imaginar que sua máquina estaria presente em todo canto do globo e das mais variadas formas.

É acalentador pensar que o cinema não ficou preso aos registros dos acontecimentos, ao contrário, rasgou o tecido que prendia o homem a dura realidade. A fantasia nos faz vibrar de emoção quando o pequeno e amável extraterrestre, com a ajuda de amigos, encontra o caminho de casa em alguma galáxia distante. Você sente que fez a escolha correta, mesmo sem conhecer todo o maquinário por trás da indústria cinematográfica, você sabe que comprar os ingressos naquela noite úmida de sábado foi a melhor opção.

Estamos em 2016, a sala está escura, o rapaz se senta e a garota conecta o cabo HDMI na televisão de tela plana. O beep do micro-ondas avisa que a pipoca está completamente estourada. A Coca-Cola está bem alocada ao lado sofá. Hoje vão assistir ao premiado O Balão Branco de Jafar Panahi. O filme iraniano preenche a tela com o rosto da pequena protagonista Razieh e as desventuras infantis que envolve um pouco de dinheiro e um peixinho dourado. O casal se encanta com o drama da personagem, assim como há 120 anos em um café, as pessoas se emocionavam ao assistir à projeção de um trem chegando à estação. O cinema, já dizia um senhor italiano, é a maneira mais direta de entrar em competição com Deus.


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