12/06/2019 às 22h11min - Atualizada em 12/06/2019 às 22h13min

Dona Dirce

Foi em Igarapava, interior de São Paulo, que conheci a Dona Dirce. No registro de nascimento, Dirce Aparecida Machado, que no dia 24 de junho completa 80 anos.

Nascida em Nova Granada, também no estado de São Paulo, a talentosa senhora cresceu debaixo das lonas do circo. Trapezista e atriz de drama e comédia, para Dona Dirce, a vida de artista ainda está na memória. “Eu nasci numa barraca. É uma vida de sofrimento. Cada dia em um lugar. Circo pobre, lona furada. Muito difícil”.

Mas a dificuldades não impedem que as lembranças tragam saudade dos tempos de estrada. “Passa a propaganda, eu falo que sinto saudade do circo, minha filha diz: mãe como você tem saudade daquela vida? É muito sofrida, mas eu sinto saudade. Rodei muitos estados, conheci muita gente. Ainda sinto falta”.

No circo ela se casou e conheceu as primeiras dificuldades do matrimônio. “Meu marido bebia muito, ficava agressivo. O tio e o pai dele conversavam com o delegado e prendia ele durante o espetáculo, para ele não causar nenhuma confusão”.

A bebida o levou cedo embora. Dona Dirce estava grávida de oito meses da décima filha do casal, quando ele morreu. “Eu criei as meninas dentro da igreja, com muita dificuldade, mas sem Deus eu não teria conseguido”.

O trabalho sempre fez parte da vida da família. Com dez filhas crianças, vender quentão nas noites mais frias era a forma de levar sustento para dentro de casa. “Passamos muito aperto, muita dificuldade, mas tá aí a filharada e a netaiada, todos bem”.

Dirce casou-se mais uma vez e teve outros dois filhos, o caçula, o único homem entre onze mulheres. “Eu fui ao médico pedir um hormônio pra engravidar. Ele achou engraçado eu querer mais filhos. Eu já tinha dez, mas meu marido não tinha nenhum comigo. Então, engravidei”, conta sorrindo.

Hoje, os 12 filhos lhe deram 26 netos e 21 bisnetos. A vida já não é tão difícil, mas o trabalho, este não acaba.

Dona Dirce tem diabetes, problemas cardíacos, artrose na coluna e nos joelhos. E, mesmo com a saúde debilitada, ela encontra formas de trabalhar, seja vendendo roupas em casa, criando galinhas ou fazendo maçã-do-amor para vender. “Vem muita gente aqui comprar roupa. Coloco uma cadeira aqui na sala e fico atendendo. Faço minhas maçãs pra vender e crio as galinhas. A gente não para”.

O andador é necessário para a locomoção, já bastante lenta, mas as piadas ainda estão na ponta da língua. E é com elas que terminamos a entrevista, acompanhadas de um café fresquinho.

A famosa Dona Dirce de Igarapava tem uma história linda de luta, superação e sobrevivência, mas o maior ensinamento que ela transmite é que dá para passar por tudo isso sorrindo.

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