20/02/2019 às 19h37min - Atualizada em 20/02/2019 às 19h38min

O altruísmo no conto A Bela e a Fera: sacrifícios do gênero feminino

A proposta da análise não é simplesmente encontrar elementos literários presentes no texto, mas explorar dados que mostrem como a obra de Madame de Villeneuve, isto é, o Conto a Bela e a Fera, pode se relacionar com a realidade das mulheres que ainda possui fortes traços de inferiorização que são causados por uma cultura machista e misógina. Para tanto, buscaremos ponderações fazendo algumas considerações delineares ao libertarianismo, ao liberalismo, ao individualismo e ao egoísmo, por meio dos escritos de Ayn Rand e Murray Rothbard.

Madame de Villeneuve produziu uma obra que deveria ser ensinada nas escolas – com esse olhar defensor das liberdades  alheias e de valorização do individualismo – pelo menos uma vez ao ano, para incentivar a desconstrução dessa cultura misógina. Logo no início do conto “A Bela e a Fera”, de Villeneuve, o primeiro plano temático descreve como foi o declínio financeiro de uma família tradicional que vamos considerar ser do século XVIII, pois é o período em que a obra foi publicada (1740). A família em questão começa a ser  retratada  sendo muito rica, com prestígio social e com uma fortuna consideravelmente grande. A estrutura da família é a seguinte: Um pai viúvo, seis filhos homens  e seis filhas  mulheres. No mesmo trecho em  que é revelada a composição genealógica há o enunciado [... “Os rapazes eram muito novos para ter pressa; as moças, orgulhosas de seu dote, com o qual contavam no futuro, hesitavam quanto à escolha que deveriam fazer”...], que se refere ao tema que virá a ser o eixo principal do conto, o casamento. A autora complementa a apresentação dos jovens fidalgos com a frase [... “todos ainda solteiros”...], justamente para dar início às questões afetivas. Naquela época era comum que os patriarcas combinassem casamentos entre si para conseguirem mais  prestígio  social e honrarias, mas era principalmente por conta dos dotes, que acompanhavam as  esposas,  que  as  negociações aconteciam.

Dado o período histórico, a comercialização do gênero feminino não existia apenas dentro do texto, e é aí que nós encontramos a primeira marca antiliberal de subjugação da mulher. Ora, serem tratadas como mercador, comercializadas pelos homens, nos apresenta o fato de que as mulheres não escolhiam qual seriam os rumos das suas próprias vidas, como vemos no trecho: [... “Disponho-me a perdoá-lo, mas com uma condição: que me entregue uma de suas filhas”...]. Como diz Amaral (2017, p. 2), “as leis prendiam as mulheres numa linha de raciocínio compulsória que as tratavam como patrimônios de valor, pois os seus pertences passavam para o controle do tutor masculino, bem como suas vidas”.

Pode-se analisar que a ação de imposição de casamentos compulsórios foi ao mesmo tempo imposições de escravidões involuntárias, e que a liberdade de escolha, naquela época, era usada conforme os ventos sopravam a favor dos interesses dos patriarcas, levando em conta que apenas eles eram retentores da liberdade de escolher, considerando apenas suas “necessidades” e anseios, e desconsiderando as vontades e opiniões das filhas, como é mostrado no trecho, [... “O velho, porém, vencido por todas aquelas razões – e lembrando-se de uma antiga profecia, segundo a  qual  aquela filha estava destinada a lhe salvar a vida e ser a fonte da felicidade de toda a família –, desistiu de se opor à vontade de Bela”...], a vontade de Bela, tomada pela confusão e pelo medo, era de se entregar para a Fera, ou o futuro marido, para livrar o pai de uma dívida. Se concordarmos  que  em uma sociedade genuinamente libertária, como diz Rothbard (1998, p. 99), “as partes envolvidas no casamento (contrato) são donas de si mesmas e, por isso, as partes deveriam responder por si e não terceiros”, por óbvio, concordaremos que a liberdade não fazia parte da vida da personagem, vencida por interesses e ideologias alheias. Uma ação de coerção também acontecia nesses casamentos compulsórios, quando, para tentar amenizar a atitude de tratar a mulher como um objeto e não como  um ser humano, mesmo que de modo sublimado em uma necessidade individual, era prometido de pai para filha que o casamento arranjado lhe traria mais felicidade ou a única chancede felicidade. Para Hayek, segundo Rothbard (1998, p. 296), diz que para que a coerção ocorra se faz necessária uma ação explícita de violência física, porém, essa tese é aprimorada por Rothbard, que vai nos dizer depois que qualquer tipo de ação que não de a oportunidade de negá-la às partes é uma coerção, nós observamos isso no trecho [... “Esse monstro é mais horripilante do que você pode imaginar. Por mais  inflexível que seja sua decisão, temo que vacile ao ver o aspecto da Fera. Aí será tarde demais, você estará perdida e ambos morreremos”...].

Há um contrato de promessa firmado entre a Fera, o pai e a filha. No trecho anterior, recortado do conto, o pressuposto é o pai dizendo que se a filha não quiser morrer, ou se não quiser ver o pai “morrer”, deverá aprender a amar o “aspecto” da Fera, ou seja, seus valores, portanto, ao pressupor   que se isso a acontecesse, o complemento é que ela ainda poderia sentir esperança, mas,  como podemos imaginar, na prática não era bem assim que as coisas se construíam, portanto, é aí que a  quebra de contrato de promessa se faz necessária, mas, que, nesse caso, não estava apenas sob o  controle das partes, e é aí que a coerção se materializa definitivamente de forma  clara. E, logicamente,  o subtendido da mulher não poderia ser outro a não ser um sentimento de angústia, de culpa, crise existencial e de prisão em uma divida moral que não lhe dizia respeito, como é mostrado em outro trecho [... “contando com uma morte próxima e que julgo inexorável, o que me importa que seu causador seja bonito ou feio?”...]. Mas Rothbard (1998, p. 202) nos diz que não se deve existir preceitos de moralidade ou obrigatoriedade legal sobre as promessas, pois isso violaria completamente  o livre arbítrio de alguma das partes envolvidas se essa viesse a desistir de executar a ação prometida, como uma pessoa que desiste de se casar, mas é obrigada a continuar as ações por conta de um  conceito equivocado ou de um risco eminente.

A realidade que promove apenas uma possibilidade de direção também pode ser chamada de escravidão involuntária e, por óbvio, a liberdade e a escravidão involuntária são totalmente incompatíveis, na verdade são completamente antônimas. Nesse caso as questões de coerção se manifestam, pois, como diz Rothbard (1998, p. 197), existe a necessidade de possibilidade da negação sem danos da pessoa que está a ser indagada para que não seja coercivo o tratamento e, no caso das mulheres, isso não aconteceu, pois a liberdade de dizer não simplesmente não foi dada a elas.

Chame-as do que você é, acuse-as do que você faz.

Sobre a mudança da classe social da família, de muito rica para muito pobre, Villeneuve narra seu estopim num incêndio repentino na casa onde viviam, o qual a autora não explica como teria começado. A residência que fora queimada no incêndio e a família da personagem principal, segundo   a autora, possuíam endereço em uma grande cidade macroeconômica, que tinha o  comércio  como maior ferramenta de produção de riqueza. As falhas na administração da fortuna, como gastos desvairados, acúmulos de dívidas, crise no mercado relacionado com o comércio do pai e a falta de planejamento financeiro, também são apontadas no texto como possíveis motivos  da  falência repentina, mas a culpa e, por isso, a fama inepta às finanças recaíra apenas sobre os ombros das mulheres. Na análise a seguir veremos que apesar  da narração agrupar  as mulheres e os  homens em  um momento, [... “Aqueles com quem o pai havia sido mais generoso foram os primeiros a caluniá-lo, espalhando que todos os infortúnios eram fruto de sua incompetência, de suas liberalidades e das despesas mirabolantes que fizera e autorizara os filhosa fazer”...], sugerindo uma igualdade no trato com os gêneros e apontando também algumas críticas sociais sofridas pelo masculino, no caso o pai, em outro momento ela nos mostra a quem realmente foi atribuída à culpa, [... “Mal elas se viram na miséria, todos, sem exceção, pararam de cumprimentá-las, levando a crueldade a ponto de acusá-las pelo desastre que acabava de acontecer”...]. Ora, o que passamos a discutir neste ponto é como o texto toma a forma de um grito de protesto do feminino, essa passagem nos faz pensar no por que as mulheres eram consideradas como uma “bagagem” para o homem e por que elas eram automaticamente rotuladas por vários indivíduos da sociedade como  megeras consumistas em caso de problemas familiares financeiros, inclusive por outras mulheres, como vemos no trecho a seguir que marca a fala de uma das irmãs da personagem principal, [... “tornou-se a causa de todos os nossos infortúnios. É ela quem os atrai e é sobre nós que pretende despejá-los”...].   Não existe outra explicação, a não ser a misoginia. Mas essa cultura de redirecionamento espontâneo  do que é nefasto à forma feminina não fica a margem da realidade atual e nos mostra a segunda marca antiliberal de subjugação da mulher, correspondente ao fato de que a sociedade enxergava as mulheres como meros bodes expiatórios do mal. Tais pressupostos não estão claramente apresentados no texto, porém, como poderiam estar se, apesar da autora ter vivido forma privilegiada, por  isso  toma  a palavra, ela viveu em tempos de trevas para a expressão feminina e também tinha uma vida com necessidades que poderiam ser afetadas por aquilo que ela ousasse incluir num mundo que não a acolheria? Sem dúvidas Villeneuve construiu uma obra que servirá de base para análises libertárias, enquanto for possível o acesso à mesma, com sustentações  para  tais reflexões  e questionamentos, se foi proposital não sabemos afirmar, mas, de fato, é apropriada para as reflexões libertárias e para a educação das relações positivas entre os gêneros.

Em seguida, Villeneuve narra que o último bem da família foi uma casa simples em local ermo (lugar campestre e bem distante da metrópole), e que a única solução encontrada pelo pai – para “resolver” os problemas e a desonra que a falência “lhes” trouxera – foi se mudar com toda a família para essa residência, [... “Obrigado a procurar um refúgio longe do tumulto e do escândalo, foi para lá que levou a família, desesperada face àquela reviravolta”...]. Esse trecho no revela uma subcategorização da coerção. A humilhação imposta. O pai prefere fugir da sua responsabilidade e impor aos filhos um choque de realidade, ao invés de enfrentar as suas dívidas e, como vimos anteriormente, as mulheres ficavam com as piores partes dessa marca antiliberal.

No conto há também uma quebra de conceito, Villeneuve inverte os papeis primeiro com os homens, [... “Os filhos do infeliz comerciante, não tendo como contratar um ajudante, dividiram entre si as funções e tarefas domésticas”...], e depois com as mulheres, [... “As filhas, por sua vez, não permaneceram ociosas e, assim como humildes camponesas, tiveram de empregar suas mãos delicadas em todos os labores da vida rural”...]. O fato controverso é que quando o homem perde o emprego e deixa a casa sem respaldo, é a mulher que vai a luta para manter a estabilidade do lar, garantindo, por meio de trabalhos declarados pela cultura machista como sendo “serviços de mulher”,   a dignidade e o acesso aos insumos básicos para a família. Isso não é uma crítica ao homem, mas sim uma reflexão crítica para toda a sociedade, ora, quantos homens no atual cenário  social  e econômico não se encontram em situação de desemprego e só não passam de “patriarcas chefes de família”  a  serem rotulados como “pedintes moradores de rua” graças ao esforço das mulheres? Pensemos. Essas inversões de lugares, que só fazem sentido na mente dos extremos conservadores que vivem a rotular    o que são coisas de homens e o que são coisas de mulheres, nos fazem refletir sobre o mundo real,  afinal, quantos homens, que se intitulam nobres chefes de família, teriam a coragem de se propor a serviços de faxina, limpeza doméstica ou cozinha, que são setores do mercado que não foram tão afetados pela crise financeira quanto os outros, pelo bem estar da família? A cultura machista também está aí. No texto há a inversão de papeis, mas a mudança no modo de vida da família pelo erro do homem que gera críticas automáticas à mulher,  ainda acontece e, em outras palavras,  há certo receio  em criticar o masculino, o que reforça a ideia de superestimação com o gênero da testosterona. O fato  do gênero masculino ser colocado como o provedor da casa ou como o detentor da sabedoria e do gênero feminino ser colocado como um mero provedor de saciedade para o gênero masculino, nos mostra que, por uma reles ideologia misógina,  as mulheres eram constantemente rebaixadas aos pés dos homens. Como diz Mises, referindo-se ao termo lógico e racista que chamou de polilogismo e que podemos facilmente associar ao gênero:

“O polilogismo marxista assegura que a estrutura lógica da mente é diferente nas várias classes sociais. O polilogismo racial difere do polilogismo marxista apenas na medida em que atribui uma estrutura lógica peculiar a cada raça, e não a cada classe” (MISES, 2010)

Villeneuve coloca o homem como o executor das mais terríveis ações e o idealizador  de decisões que, na maioria das vezes, terminam com um problema  social ou  individual,  sendo  assim,  esse exercício de retórica com as mulheres, que às acusa de más administradoras de recursos financeiros, quando se materializa, nos confirma a misoginia, e levanta uma  importante  reflexão: Como pode ter sido considerado normal apontar no outrem algo que, na verdade, é parte  do perfil e do caráter do acusador?

Bodes expiatórios

No conto, a vida da mulher pode ser comparada a qualquer um dos conceitos da palavra “incógnita”, sendo eles, i. [Matemática] Grandeza que precisa ser determinadapara  a resolução de  uma equação ou problema; ii. [Filosofia] Aquilo que não se pode afirmar, que não se conhece, que é impossível de se conhecerou pode-se apenas especular; iii. [Lógica] Que é desconhecidoao homem,  no entanto, todas essas correspondências fazem sentido apenas para as  personagens  femininas  do conto, pois, para as personagens masculinas o destino das mulheres sempre  aparece  claro,  como  vemos mais uma vez na narração, [... “Advirto-o  mais uma vez – disse a Fera – para ter o cuidado  de não iludi-la quanto ao sacrifícioque a espera e aos perigos que correrá”...]. O conto A Bela e a Fera retrata com bastante precisão a vida de uma mulher em uma sociedade altruísta, onde ela é obrigada a substituir seus sonhos, suas vontades e seus valores (concepções de felicidade), para viver em uma utopia escravagista (casamento compulsório), como é apresentado na fala a seguir, [... “Se conseguir persuadir uma delas a acompanhá-lo, ela permanecerá em meus domínios e você retornará”...], que corresponde à condição imposta ao pai da mulher, professada pelo futuro marido  que, neste caso, é representado pela Fera. As expressões que foram sublinhadas e destacadas em itálico apresentam alguns dos elementos fundamentais para a composição da  unidade  do  altruísmo:  o sacrifíciode uma vida por coisas sem valor para o penitente e o total desconhecimentode si, em face   ao culto do outrem, que transformam toda a existência do indivíduo numa crise de subjetividade do  ego, ou seja, numa incógnita. É quase uma insanidade que a coexistência humana seja direcionada por essa força altruísta. Mas é contra intuitivo recusá-la, pois, afinal de contas, a maioria das pessoas passou por uma educação que não pode apresentar a vida como ela realmente é por questões de poder e  política.   O expoente do egoísmo, sem dúvidas é um contraponto a ser considerado, também chamado de individualismo. Como diz Rand:

[... a ética do altruísmo criou a imagem do ser humano insensível, de forma a levar o homem a crer em dois princípios básicos: a) que, independentemente da sua natureza dos seus interesses, cuidar deles é algo mau e b) que a atividade do ser humano insensível é, de fato, o resultado do seu próprio interesse (ao qual  o  altruísmo nos impõe renunciar para o bem daqueles com quem convivemos)...] (RADN, Ayn. 1964, p. 472)

O altruísmo defende que qualquer ação feita em benefício dos outros é boa e que qualquer ação feita em prol de interesses próprios é má. Deste modo, o beneficiário de uma ação é o único critério de valor moral e, desde que o beneficiário não seja o próprio agente da ação, tudo é aceitável.  (Rand,  1964, p. 474). Para compreendermos melhor, os valores de felicidade de uma pessoa são ideologicamente colocados inferiores face à coisas que ela não atribui valor, para justificar a sua razão de existir. No trecho, [... “Sua submissão me satisfaz – replicou a  Fera”...], as marcas altruístas  estão muito claras, ora, o marido diz claramente que o fato da mulher aceitar ser submissa às suas vontades, ou seja, que ela agregue valor primeiro nas coisas que o homem agregar valor, é o que lhe causaria contentamento. Por outro lado, se fosse o individualismo a força que movesse a cultura social daquela época, nenhuma mulher seria obrigada a ser a expiação de alguém chegando ao ponto compulsório de dizer coisas como [... “minha vida está à sua disposição, submeto-me cegamente ao destino que vier a me reservar”...] ou [... “Sou a culpada por esse infortúnio, sou eu que devo repará-lo”...], pois a virtude do egoísmo, que diz que devemos agir  por nossa  própria razão sem  querer obrigar o outro a agir da mesma forma ou aceitar coações  advindas de terceiros, está presente   no individualismo. Como Rand nos mostra em:

“Dado que o egoísmo é “preocupação com nossos próprios interesses”, a Ética Objetivista utiliza este conceito no seu sentido mais puro e exato. Não é um conceito de que se possa render-se aos inimigos do homem” (RAND, Ayn. 1964, p. 14)

Fazendo uma alusão ao ditado que diz que “uma mentira contada por várias vezes acaba tornando-se verdade”, a autora nos mostra que Bela, tomada pela cultura altruísta, encara os  desmazelos com aceitação, [... “inocente ou culpada, é justo que eu o expie”...], é claro,  considerando que ela não tinha escolha. Diante do que foi exposto neste capítulo, chegamos à quarta marca de subjugação da mulher, que, por motivos óbvios, nessa análise será elencada no topo da lista  de atrocidades antiliberais contra o feminino, a qual corresponde à relativização da individualidade do ego da mulher em relação ao gênero masculino que poderia simplesmente ser moldada de acordo com  as vontades do cônjuge, conhecida também como escravidão intelectual.

Após os infortúnios, após o pai realizar a barganha, já na casa do homem com o poder aquiritivo sobre seu corpo, psique e destino, a personagem principal começa a ter contato com a sua nova ou antiga vida, [... “Bela abriu um armário cuja porta era de cristal de rocha com incrustações em ouro”...], onde a intimidade com os luxos e prazeres que só a riqueza pode fornecer  voltou a fazer   parte do seu dia-a-dia à medida que os sacrifíciostambém tomavam forma, [... “a iminente  partida  do pai desconsolava Bela, causando-lhe extrema angústia. Mesmo assim, ela achou melhor obedecer a Fera”...]. Não há como precisar, mas pode-se dizer que o tempo não é o melhor amigo das mulheres que sofrem com o peso da opressão machista, pois quanto mais se alongavam os  dias  da jovem ao lado da Fera mais a rotina se incorporava ao seu intimo, [... “com a chegada da Fera, cuja abordagem não lhe pareceu nada terrível, seus pavores se dissiparam”...]. A julgar que  no  momento de sua chegada à casa do futuro marido tudo lhe pareceu embotado e plano, Villeneuve começa a nos mostrar que pouco-a-pouco a jovem abandonava a esperança de viver por seus ideais e     se entregava à rotina, como reforça o trecho, [... “Julgava-se, no mínimo, condenada  para  sempre  ao cativeiro, tendo como única companhia uma Fera medonha”...].  O liberalismo social defende  que as pessoas, sobretudo as mulheres, tenham direitos iguais e, independente de qualquer coisa, sejam tratadas de forma igual sob a luz de uma razão meritocrática e de ações livres de coerções estatais, isso todos nós devemos saber (ROTHBARD, 2010). Qualquer tipo de força  seja ela material  ou invisível, que influencie as ações individuais de alguém, ou seja, as ações que vão ser realizadas por um corpo e, que as reações delas advindas, vão atingir exclusivamente o mesmo  corpo realizador  da ação, é um  tipo de escravidão. Diante do que foi exposto, refletiremos com muita atenção sobre trecho a seguir, pois ele vai estampar a quinta marca antiliberal de subjugação da mulher:

[... “Foi então a vez de Bela fazer-lhe o relato do que se passara desde a sua partida, narrando a vida prodigiosa que levava. O bom homem, cativado pelos adoráveis incidentes das aventuras da filha, cumulou Bela de bênçãos. Sua alegria foi muito maior quando, abrindo os baús, ela lhe mostrou as riquezas imensas que continham, pois essas últimas demonstrações de generosidade da Fera lhe davam liberdade de dispor das riquezas que trouxera consigo em benefício das filhas e      manter o bastante para viver confortavelmente com os filhos. Vendo nesse monstro uma alma demasiado elevada para estar alojada em corpo tão desgracioso, ele julgou dever aconselhar a filha a desposá-lo, apesar de sua fealdade. Apresentou inclusive argumentos fortes nesse sentido”...]

O trecho que acabamos de ler mostra que o  pai de Bela não considerou as coisas ruins  que a  filha sofreu nas mãos do marido e só deu importância, obviamente, às coisas que Ele depositara valor, [... “Sua alegria foi muito maior quando, abrindo os baús, ela lhe mostrou as riquezas imensas que continham”...], fato que é reforçado em outro momento, [... “Meus filhos gozam de uma vida confortável, era tudo que eu desejava”...]. Os acontecimentos que perpassam pela história de uma pessoa são as interações que ocorrem entre o indivíduo e tudo o que existe ao seu redor e, mesmo que indiretamente, reciprocamente, tem um efeito persuasivo que é simplesmente impossível de  ser  evitado por qualquer manifestação de resistência, seja ela pensante ou não. Quando  essas interações  são saudáveis para ambos os envolvidos, nós chamamos o fenômeno de simbiose, que é quando as  partes se chocam e não perdem absolutamente nada do que quer que seja de si, mas isso não acontece no texto de Villeneuve, pelo contrário, Bela é a única que perde o direito de pensar antes e após o casamento, que dirá agir por seus pensamentos. Se a vontade masculina estivesse saciada, tudo estaria bem e sob quaisquer circunstâncias, é essa a mensagem que nos é passada, é essa a marca de inferiorização, que diz que a mulher, por obrigação de gênero, deveria ser uma cúmplice  do seu  próprio martírio.

Disciplina de Literatura e Gênero da Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM
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