19/02/2019 às 21h06min - Atualizada em 19/02/2019 às 21h06min

Vereadores vetam investigação contra prefeito

Por mais que a gente desconfie das intenções do advogado Vicente de Araújo Netto, já que raramente na política alguém consiga defender os interesses coletivos sem vaidade ou interesse particular, uma coisa ficou escancarada após o pedido de investigação de improbidade administrativa do prefeito em exercício: Uberaba vive o retrocesso.

Não só pela economia estacionada, por mais que os anúncios de que o progresso chegará lotem as manchetes dos folhetins. Não pelo desmazelo, principalmente nos bairros periféricos, em que as ruas são buracos a céu aberto e a segurança e a manutenção da tal infraestrutura não passem por lá. Por mais escrachadas que sejam as nomeações e alianças que beneficiam bons e velhos amigos e tantos macacos velhos, com expertise na preservação do poder.

No mercado livre do conchavo e do escambo, só é permitido refletir sobre o exorbitante valor do aluguel do imóvel onde funciona a autarquia da Codau quem não deve, quem não teme e quem não se vende.

Trabalho com imóveis, especificamente, no setor de locação, há alguns anos. Anos bons, de IGPM altíssimo e, para quem não sabe, este é o índice que regulamenta o reajuste dos alugueis. Estou no setor desde o tempo em que comprar um imóvel era mais rentável que aplicar o dinheiro em qualquer linha de investimento disponível no mercado.

Anos rebeldes, em que tivemos quase 8 mil imóveis disponíveis para locação em Uberaba e que o IGPM ficou negativo ou abaixo de 1%, por quase dois anos. De janeiro de 2016 a novembro de 2018, os proprietários da minha carteira de clientes não conseguiram reajustar o valor dos seus imóveis. O que é pior, ou reduziam o aluguel ou perderiam os seus clientes. Ou seja, em dois anos renegociei todos os contratos, para baixo, evidentemente, já que a crise chegou com força na terra do Zebu.

Se os oito vereadores que foram contrários à denúncia vivessem Uberaba como deveriam e pudessem utilizar a própria inteligência, sem tê-la colocado a preço baixo na troca de favores, esse argumento bastaria para uma severa investigação.

Não questiono quem foi, é ou será o proprietário do imóvel. Nem há quantos anos a autarquia funciona no local. E os vereadores poderiam ignorar tudo isso se quisessem, ou melhor, se pudessem.

Uma visitinha ao passado, nos faz recordar que em 13 de abril de 2016, o prefeito, denunciado pelo ex-secretário, publicou no Porta-Voz o Decreto de Crise Financeira da Prefeitura de Uberaba.

O mesmo decreto anunciou o escalonamento do pagamento dos salários dos servidores municipais e, ao explicar a criação de um Gabinete de Gerenciamento de Crise para reduzir e barrar gastos desnecessários, o prefeito não descartou a possibilidade de decretar calamidade financeira. O extremo não ocorreu.

No mesmo ano, acionei o Ministério Público para que investigasse os valores exorbitantes gastos com publicidade no primeiro semestre de 2016, levando em consideração também o período eleitoral. No final de 2018, recebi a resposta de que a minha denúncia era improcedente.

Nesta segunda-feira (18), oito vereadores se negaram a desempenhar as suas atividades de membros fiscalizadores. Não viram coerência em uma denúncia que, a meu ver, parece muito mais óbvia do que o documento protocolado na Câmara, com 18 páginas. Resumidamente, o questionamento é muito simples: onde estava o Gabinete de Gerenciamento de Crise que não renegociou contratos de locação com valores justos, porém, fora da realidade do mercado naquele momento?

Nobres vereadores que vetaram a investigação, por que todos os proprietários de imóveis abriram mão dos seus lucros para não terem prejuízos, enquanto o ex-sogro e sócio do presidente da autarquia, levando em consideração a facilidade de entendimento entre as partes, não poderia ter revisto o valor cobrado? Que outra empresa teria capital pra investir na locação de um imóvel a bagatela de R$ 40 mil naquela época?

Improbidade administrativa é o ato ilegal ou contrário aos princípios básicos da Administração Pública. Se manter valores exorbitantes de alugueis em tempos tão difíceis economicamente, principalmente quando os proprietários estão ligados diretamente a estes gestores, não for, pelo menos, motivo de averiguar procedimentos ilegais, queiram desculpar a franqueza, mas ficamos todos burros.

Voltando ao retrocesso, considero o regresso intelectual do Poder Legislativo em Uberaba o pior deles. Ainda que o denunciante tenha esperanças de que o Ministério Público possa entrar na briga por alguns milhares de habitantes, paira nos ares desta cidade que a amplitude do conchavo chega também às portas da justiça.

Aguardem boas novas nas manchetes da imprensa local. Eventos culturais que acalmarão os ânimos. Que tal a inauguração de uma praça no início do mês ou um samba no parque no próximo domingo?

Dançamos todos.

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