11/12/2018 às 22h00min - Atualizada em 11/12/2018 às 22h16min

Valt Spíndola: o multiartista

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Foto: Adreana Oliveira | Diário de Uberlândia[/caption]

Jornalista, designer, cartunista, ilustrador. Esse multiartista, conhecido como Valt Spíndola e que nasceu Valtenio Oliveira Spíndola é o entrevistado do Uberaba Popular.

Em recuperação de um câncer, após 39 sessões de radioterapia, Valt está com a fala comprometida, mas aceitou responder às nossas perguntas escritas e conseguiu me mandar uma foto quase inédita para a matéria enquanto discutíamos o conteúdo. Alguns dias após o envio das perguntas e ansiosa para editar e publicar, cobrei o material. A explicação? "Brinquei com a médica que vou fazer uma série "As dores da Alma".  Aproveitei para engatar a pergunta: sua alma dói, Valtenio?

"Nessa idade tudo dói, até o pretérito do passado".

Valt usou toda a sua genialidade, conseguiu brincar com a idade e com as dores da alma, mas falou da sua preocupação com a preparação das gerações que estão por vir. Antenado com a vida e, sobretudo, com a arte, o ser humano se revela neste registro impressionante, sem vitimismo, sem vaidade e sem fantasias. Valt é o artista de ontem, de hoje e de sempre.

Conhecendo o Valtenio

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Foto: Arquivo Pessoal[/caption]

UP - Nome completo? Tem acento? (risos)Valt - Meu nome é Valtenio Oliveira Spíndola. O primeiro nome sempre foi problema. Perdeu a acentuação por erro de cartório, depois abreviei pra Valt, ja assino assim há alguns anos. O Oliveira vem aqui da região, por parte de mãe lá pros lados de Monte Alegre. O Spíndola, por parte de pai, veio fugido da inquisição europeia pro Nordeste, de onde, numa gaiola do São Francisco chegou aqui na região. Também foi outra vítima de cartório. Perdeu o E de Espindola.

UP - Idade?Valt -Um tempo atrás virei os 50, depois parei de contar e de fazer aniversário. Mas isso dura pouco, tem sempre algum cadastro que nos faz exibir documentos (risos).

UP - Casado? Foi? Com quem? Quanto tempo?Valt- Casei no papel, em Uberaba, com a Sandra Satiko, também jornalista. Inevitavelmente, acabei também contraindo matrimonio com o Yassú, a moçada do São Benedito e a Uberaba das oito colinas (uma a mais, mas que na realidade é algo embaixo do tapete risos. De lá pra cá casei mais algumas vezes. Hoje sou free lancer (risos).

UP - Filhos? Valt - Tenho dois do último casamento com a Ana, produtora cultural. Zeca com 16 e o Caio com 12.

UP - Natural de? Valt- Eu nasci no Operário, bairro de uma Uberlândia que não existe mais. Alienígenas em seu próprio planeta. As oligarquias já dominavam a entrada e os meios dos sertões.

UP - Atualmente mora em... Valt -Hoje moro em Uberlândia, na casa onde nasci (naquele tempo os médicos atendiam em casa e os partos eram naturais). Minha mãe contava que escorreguei das mãos do médico e fui parar no chão escorregando com o líquido amniótico. Já nasci procurando outros caminhos (risos).

Vida e trabalho

UP - Infância, família e amigos Valt -Tive uma infância feliz. Era um tempo em que a cidade era nossa, brincávamos na rua, muita coisa a gente criava ou inventava pra brincar. Era diferente. Minha mãe me incentivou a desenhar, ela era boa desenhista. Éramos 4 irmãos. Meu pai era dono do café do Fórum antigo. Cresci ali servindo água em julgamento, frequentando o Palácio da Justiça, em meio à ditadura. Sempre tive muitos amigos, dessa época ainda tenho contato com alguns.

UP - Juventude, faculdade, viagens e locais onde morou Valt - Não pude ter vida acadêmica. Comecei a trabalhar cedo, com 13 anos. As minhas escolas foram as redações de jornais. Cresci na profissão fazendo, aprendendo e experimentando. Projetamos e fizemos muitos jornais. Preferi continuar no interior com andanças por Minas, Goiás, São Paulo e Distrito Federal. Em tempos de paridade cambial também andei pela Alemanha e França.

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UP - Descobrindo o talento: como foi? Comecei a desenhar em fundos de caderno ou papeis que caiam na minha mão. O desenho foi se desenvolvendo. Ainda é hoje um trabalho em evolução. Só acaba quando acaba. Trabalhei e prestei serviço pra muitas empresas, governos Estaduais, Federais e Municipais. Grandes empresas como Algar, Peixoto, Armazém do Comercio, Unitri, Rezende Alimentos, Fosfértil, Arafértil, dentre outras Entre jornais e outros periódicos, publiquei cerca de 10 mil desenhos. Publiquei e fiz parte do corpo editorial de jornais de Belo Horizonte, como O Tempo, Estado de Minas e o Pauta, Pasquim, no Rio de Janeiro. Em Araxá, no O Tempo e o Jornal das Geraes. Em Uberlândia, no Correio de Uberlândia, Primeira Hora, Jornal da Universidade Federal de Uberlândia e Jornal do Fundinho. Em Uberaba Jornal de Uberaba e Lavoura e Comércio. E ainda no O Diário, em São Sebastiao do Paraíso e Jornal de Araguari, Folha de Rio Verde e em Ribeirão Preto no Jornal de Itumbiara e Jornal do Campo, mas tem muitos outros. Fui premiado em alguns salões de Humor e expus algumas obras no Museu Olímpico, em Barcelona, no Museu Nacional de Belas Artes no Rio, Museu Municipal de Uberlândia e Museu do Dmae.

UP - Desafios da carreira, fatos mais marcantes. Fala um pouco do livro, lançado este ano. Valt -Este é o meu terceiro livro individual. Participei também de uma coletânea sobre Deus com artistas de todo o Brasil. O livro “Náufrago” foi muito bem recebido. O trabalho demonstra uma evolução na ótica do trabalho, pois oferece uma visão mais ampla. O grande desafio hoje é enfrentar a realidade do mercado editorial. O fechamento de jornais, de bancas e livrarias. Um retrocesso que expõe a situação da leitura nesse país. Os meios digitais ainda corroboram isso com o seu imediatismo e, por vezes, a falta de profundidade e geração de conteúdo.

UP - Decepções e tristezas Valt - Eu sofro com o ser humano. A forma como ele se comporta em grupos (risos). Hoje vivemos uma realidade onde todo mundo tem razão e parou de aprender. O imediatismo a que se resumiu a coisa, os interesses pessoais sem respeito aos outros. A forma como se vive e não se planeja um futuro de geração em geração. Os maus hábitos e a corrupção da alma estão passando de pai pra filho. Todo mundo correndo contra o tempo. O tempo tem que ser nosso amigo, temos que usá-lo a nosso favor.

Valt por Valtenio

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Foto: Arquivo Pessoal[/caption]

UP - Valt, você está bem? Como está o tratamento? Como foi quando descobriu a doença? Valt- Estou em tratamento. Há pouco, acabei as sessões de radioterapia. Foram 39 no total. Isso após uma cirurgia de sete horas, quer dizer, ainda rola muita água debaixo dessa ponte (risos).  No geral, estou em recuperação. Com calma chegamos lá. Descobri no início do ano, o processo até chegar à doença é complicado. A realidade da saúde pública nesse país é condizente com os governantes que temos.

UP - Recentemente, amigos fizeram um show para arrecadar dinheiro para custear as suas despesas. Como foi ver tanta gente engajada para lhe ajudar? Valt - Eu fiquei muito emocionado e preocupado. É difícil enxergar o que está acontecendo com a gente. É muito emocionante ver que os amigos estão aí, independentemente de tempo e distância. É bom ver que ainda tem gente que se preocupa com o outro. É um tesouro que levamos: os amigos.

UP - Você acredita no jornalismo? E na arte? Valt -Eu acredito que o jornalismo é uma utopia ótica. Eu venho de jornal impresso. Uma edição impressa é um documento. Você lê, interpreta , lê de novo e pode até mudar de opinião, mas é preciso aprender a ler também nas entrelinhas. Há um grande jogo de interesses. Depende muito de quem e como está fazendo. Hoje, a indústria do entretenimento está embrutecendo o leitor e o expectador. As novas gerações saem malformadas da escola. A falta de formação está refletindo no aprendizado. A arte alivia a vida e faz sonhar. Ela combate o excesso de realidade. Pra mim ela gera equilíbrio pra enfrentar excesso de realidade nessa profissão de jornalista.

UP - Você fala de política? O que você espera do país no novo Governo? Valt - Eu não acredito que se possa fazer grande coisa sem mudar a Constituição, reescrever o Código Penal e promover uma ampla reforma das estruturas públicas. O funcionalismo e a classe política descendem da estrutura pública da colonização portuguesa. Veja o exemplo do Rio de Janeiro: a intervenção tem que ser na zona sul, em Angra dos Reis, nos condomínios luxuosos, e onde o alto escalão da bandidagem se acotovela. A corrupção é generalizada e prática comercial comum. Alguém ouviu o Bolsonaro ou qualquer um dizer que vai legalizar o jogo do bicho e a verba vai ser investida em presença do Estado nas zonas carentes e abandonadas a sua própria sorte? A favela começou com ex-soldados da Guerra de Canudos e as suas famílias que ficaram acampados nas encostas à espera de terras prometidas pela vitória na guerra. Essas nunca vieram. Favela é uma planta do sertão, por isso favelados.

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Foto: Arquivo Pessoal[/caption]

UP - E de religião? Teve algum momento da sua vida que você apelou para Deus?Valt - Eu costumo dizer que professo a minha ignorância. Me julgo agnóstico. Acredito na natureza e na natureza das coisas. Eu apelo aos sete ventos e até onde o vento faz a curva (risos).

UP - Os seus desenhos e charges nos dão a sensação de liberdade de pensamento, indignação com alguns assuntos e expressão das suas insatisfações. Você é um homem livre?  Gostaria de ser mais ou, quem sabe, menos?Valt -  Sou preso a mim mesmo (risos) e estou até precisando de férias. Há muito tempo deixei de desenhar políticos ávidos por mídia, por aparecer, mesmo que negativamente. As minhas cenas cotidianas na charge e no cartum são povoadas de gente comum, de pessoas atônitas ao excesso de realidade. As coisas são cíclicas, as situações se repetem, como estações. Eu gostaria de mais tempo pra criar e aprender.

UP - Em quem você se inspirou ou inspira ainda hoje para desenhar?Valt - Ah, são muitos. Tem um pouquinho de cada. São influências que vamos sofrendo no dia a dia. Tem o Don Martin, da revista Mad. Aquele mexicano Guilherme Mordillo, o Sergio Aragonés, Uderzo e Goscinny, o Henfil...Putz, são muitos. Há muita coisa legal.

UP - Como é o seu processo criativo? Leva quanto tempo para a ideia se concretizar? Valt -Em tempos normais, o jornal me disciplinou a produzir rápido. Fora dele o processo é mais lento e mais reflexivo. Você vai se alimentando de histórias de fatos e de imagens que vê. O resto o papel em branco te instiga, fica desafiando, um ângulo, um cenário, uma situação. Pode levar dias, dependendo da envergadura, mas em geral é coisa de um par de horas.

UP - Tem algum ritual para trabalhar? Como é o seu espaço de trabalho? Bagunça organizada ou não bagunce a sua organização?Valt- Eu já fiz desenho pra 5S e minha mesa era uma bagunça. Junto muitos papeis, revistas, jornais velhos. Tento me organizar. Não gosto que mexam na minha bagunça organizada (risos), mas depende muito da pauleira da tarefa. Arrumadinho demais parece que não está acontecendo nada. Criação e colchinha de retalhos, você vai juntando...

UP - Falar o que pensa ou engolir para não brigar? Valt -Eu cansei de discussões. Eu mesmo tenho mais dúvidas do que certezas. Não há como brigar com o excesso de razão. É chato (risos). Uma vez li uma pichação num muro: “coma merda. Milhões e milhões de moscas podem estar enganadas?”. Chulo, mas real.

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Assinatura adotada há algum tempo | Foto: Arquivo Pessoal[/caption]

UP - Você tem quase 60 anos. A sua mente acompanhou a idade? Você já está ranzinza e cheio de manias?Valt - Bom, vamos por etapas. O meu corpo tem quase 60 anos. Minha mente nem tanto. Teve infância mas se recusou a crescer. Eu falo diariamente com ela, mas conhece os adolescentes...ela nao me ouve (risos). Quanto às manias, não tem como escapar. Tenho gênio complicado. Tem hora que quando vi, “já elvis”.

UP - O que te tira do sério? Muita coisa. Me assusta alguém se achar melhor que os outros. A falta de profissionalismo e gentileza. Eu acho que isso vem da formação que tivemos. É de berço como diziam.

UP - Amor...você acredita? O que é amor para você?Valt - Puxa, passei a vida apanhando nesse quesito. Acreditei muito e cultuei, mas em certo ponto me fragilizei e fiquei mais na minha. Amor é companheirismo, compreensão, carinho e alma lavada (risos).

UP - Vícios? Drogas, bebidas? Até que ponto? Valt - Vixe! Sempre fui viciado em mulher, cerveja e “roquenrrou” (risos). Todos três dão ressaca. Atualmente, estou na morfina, que é a exigência médica nesse tratamento, para controlar a dor. Mas veja bem, a realidade é a maior droga. O jornalismo que o diga ou retrate.

UP - O que espera do seu amanhã?Valt - Não tenho muitas ilusões. Me preocupa o que virá e a preparação das novas gerações ainda incipiente com os desafios que irão se revelar. Hoje, a concorrência é difícil e as práticas são horrorosas. Eu pretendo trabalhar até onde der. Vamos continuar a tentar estabelecer áreas do pensamento e expressão. Mas, é preciso acabar com o discurso que o jornalismo impresso morreu. Tenho visto até professor de jornalismo com essa retórica. O que morreu foi a capacidade desses profissionais em propor saídas e alternativas. Isso não se aprende na escola.


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