16/11/2018 às 17h12min - Atualizada em 16/11/2018 às 17h12min

Desculpe o incômodo, mas a imprensa vai continuar noticiando quando o homem morder o cachorro

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Foto: Internet[/caption]

Ah e me perdoe também o título longo. Na faculdade de jornalismo, aprendemos que os títulos devem ser breves, objetivos, concisos. Não há espaço para a poesia ou divagações nessa breve linha de caracteres contados. Outra coisa que talvez vocês precisem me perdoar é que esse texto possa estar bem longe de algo claro, objetivo e conciso. Eu provavelmente vou esticar esse texto para tantos lados, que o slime da sua filha (ou sobrinha adolescente) vai se torcer de inveja dentro do potinho.

Esse texto, não é sobre divagações, slimes (sério, eu quase passei batido por essa nova mania adolescente. Mas vi um ou dois vídeos antes de cair na vala comum das pessoas antiquadas que ignoram o universo infanto-juvenil), nem tão pouco sobre o cachorro, apesar de que aprendemos na faculdade que “notícia não é quando o cachorro morde o homem e sim quando o homem morde o cachorro”. Este texto é sobre o Jornalismo, sobre a Imprensa e sobre esse elevador descontrolado que a tem levado do céu ao inferno nos últimos tempos.

A imprensa brasileira poderia estar passando pelo seu melhor momento. Nunca na história desse país (eu sei, vocês já conhecem essa frase) ela teve tanta liberdade para investigar, cobrir e divulgar os fatos. Só que está acontecendo exatamente o contrário e a imprensa vive sua mais grave crise existencial, onde a velocidade da internet pegou todas as peças do tabuleiro de xadrez, jogou para o alto e agora salve-se quem puder para dar o xeque-mate primeiro. E se já não bastasse a concorrência com Blogs, Sites de notícias, Facebook, Twitter, agora a imprensa tradicional também precisa competir com a rapidez, anonimato e intimidade do WhatsApp. As notícias chegam céleres, vindas de gente como a gente, em quem confiamos ou que nos dizem para confiar. Checar as informações ainda não se tornou hábito e veja a ironia do destino, quem deveria ser o receptáculo de toda a confiança - a imprensa - é vista como portadora de toda a dúvida, das mentiras mais escabrosas, das artimanhas mais engenhosas, a mãe de todas as Fake News. É horrível admitir, mas, quando a credibilidade da imprensa se tornou mais indispensável, é justamente quando ela caiu aos níveis do absurdo e está se arrastando mais baixo que barriga de cobra. Só que, quer queiram ou não, uma imprensa livre e atuante é necessária para a sobrevivência da Democracia. É pelo trabalho da imprensa que os fatos são trazidos à luz, para que sejam averiguados investigados. Mesmo que a notícia não agrade ao João, à Creusa, ao Teddy ou a você que me lê agora, é ela quem vai resistir ao tempo e figurar nos livros de história, nas pesquisas que o futuro fará para conhecer o passado, ao contrário do “zap” que a sua tia passou na semana passada e que você já deve ter apagado do celular para ter espaço para novos “zaps”, novas notícias que “a Globo não mostra” novas teorias mirabolantes.

“Notícia é tudo aquilo que alguém não quer que seja publicado. Todo o resto é publicidade” essa frase – que ao contrário da Fake News em que você caiu, não é do George Orwell e sim de William Randolph Hearst – nunca foi tão verdadeira e nunca foi tão necessário que meus colegas jornalistas acreditem nela com todas as suas forças. O jornalismo é a ponte entre o cidadão e o mundo que o cerca e somos nós quem sustentará essa ponte de pé, evitando a volta aos tempos sombrios de ignorância e isolamento. E já fomos longe demais para achar que vale a pena dar um passo atrás. Então goste ou não, concorde ou não, acredite ou não nas diferentes versões que cada fato pode apresentar, vamos continuar noticiando quando o homem morder o cachorro.


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