14/11/2018 às 16h02min - Atualizada em 14/11/2018 às 20h20min

Gustavo Achcar: o menino do bem

Cheguei ao apartamento do Gustavo, onde ele mora com a esposa Patrícia, no Parque do Mirante, em cima do horário marcado para a nossa entrevista. Cordialmente, ele me aguardou na entrada do prédio com um sorriso enorme.

E a conversa foi hilária! Porque o “Gustavim”, o “Lalim”, o “Boca” é assim. Um cara feliz, do bem, que tem o coração “maior que ele”, como descrevem os amigos.

Atualmente, ele não precisa mais “construir” suas pedaleiras com materiais reciclados ou pedir instrumento emprestado para ninguém. Ele vive da música e a música já lhe proporcionou algumas conquistas.

Pai do Gustavo, de 22 anos, e da Lara, de 11, Gustavo é mesmo o “cara” família, apaixonado pela família, capaz de trocar um contrato incrível em Milão para ver o filho crescer no Brasil. É também o amigo solidário, que doa voluntariamente um rim e que não toca no assunto durante a entrevista. Ele não propaga, não se vangloria.  Ele apenas sorri para a vida e ela tem lhe sorrido de volta.

Do primeiro contato com a música, num violão de brinquedo, Gustavo lembra que os sons sempre lhe despertaram curiosidade. “Eu era bem criança. Meu tio deu para o meu irmão um violãozinho só para brincar. Ele já estava destruído com uma corda só. Com aquela uma corda eu ficava tocando a música da cerveja Brahma na época, “pensou cerveja, pediu Brahma Chopp”. E eu achava aquilo muito interessante”.

Caçula de quatro filhos, Gustavo viu o irmão mais velho, César, fazer aula no conservatório e comprar uma guitarra. “Ele não me deixava nem colocar a mão”.

Para ter o primeiro instrumento, o menino trocou sua bicicleta por um teclado de pilha. Nele, aprendeu a tocar Chariots of Fire, de Vangelis, o que aguçou ainda mais o desejo de ser músico. O velho violão ganhou novas cordas e graças ao esquecimento do irmão, Gustavo teve acesso à revista “Aprenda Tocar Violão”. “Fiquei louco quando eu coloquei os dedos na posição que mostrava na revistinha e vi que o som dava certo”.

Mas Gustavo queria tocar guitarra. Nesta época, César já ensaiava em casa com um amigo músico, e era o som da guitarra que o garoto precisava fazer o seu velho violão reproduzir. “Fiz um captador. Troquei as cordas de nylon coloquei de aço e liguei num rádio, no talo. Dava aquela distorção (risos)”.

A engenhosidade não parou por aí. “Cortei o violão para alcançar as notas da guitarra”.

O pai, vendo a trabalheira do filho e comovido com a situação, o levou até à loja de instrumentos musicais para, finalmente, lhe presentear com uma guitarra. “Mas eu paguei. Já estava ganhando dinheiro. Não tinha tudo naquele momento, mas meu pai parcelou no cheque e eu ia todo mês até a loja para trocar pelo dinheiro”.

Gustavo conta que não se adaptou às aulas do Conservatório. Frequentou a escola de música por apenas quatro meses. “Tocava de ouvido. Naquela época tirar música era difícil demais. Você tinha que pedir a música no rádio, esperar tocar e no meio do solo da guitarra, a rádio colocava a vinheta (risos)”.

Depois que conheceu Marcelo Capucci, atualmente, baterista da banda Plebe Rude, Gustavo formou a sua primeira banda de garagem. Ironicamente, com o irmão César que, à  essa altura, já tinha se rendido ao talento e à persistência do irmão.

Foi no Flor Amorosa, bar da mãe do Capucci, nas quartas-feiras sem movimento, que Gustavo e Banda tocaram suas primeiras cinco músicas na noite.

A banda ensaiou. O repertório aumentou. Capucci já tocava com o Emerson que viria a ser um dos grandes parceiros, amigo e compadre do Gustavo.

Nascia a Banda Kelpis. Gustavo tocava com o violão e guitarra emprestados. O amplificador ele mesmo construiu com a ajuda de uma revista de eletrônicos. “Pegava até rádio. Muita gambiarra. A bateria do Capucci, de ensaio, montamos com o resto dos instrumentos da fanfarra do Colégio Nossa Senhora das Graças. O pedal pro bumbo foi feito com uma roldana, um taco (piso), uma bomba de caixa d’água, uma borracha pra puxar. Minha canela vivia sangrando”.

Profissionalmente a banda deu muito certo. Tocaram onde puderam, inclusive na região, Araxá, Uberlândia, Frutal, mas um desentendimento entre Capucci e Emerson colocou fim ao trio.

Gustavo se viu sozinho de novo em busca de uma nova tocada. Sem instrumento e sem banda. “O Capucci me disse que a Banda Vênus estava precisando de guitarrista. Fui lá, tirei umas músicas, apresentei e fui aceito. Toquei muito tempo, mas por ser banda de baile, era muito desgastante. Você toca muito tempo. Quando está cansado, toca mais duas horas”.

À espera do primeiro filho e em busca de cachês maiores, da Banda Vênus, Gustavo foi parar em Uberlândia. Ele fez teste com o amigo baixista, também de Uberaba, Edmilson Camelo, e os dois foram aprovados para tocar com a dupla Max e Michel. À época, eles abriam os shows de outra dupla, já nacionalmente conhecida, Rio Negro e Solimões.

Foram quatro anos de dupla, viagens incessantes e a formação de uma nova banda: a Dibadá. Formada por Gustavo, Emerson, Elias Junior (Marambinha) e Carlinho Canhoto.

Muitos músicos passaram pela Dibadá, mas a formação com tantos integrantes não compensava financeiramente. Por fim, Gustavo e Emerson, embarcaram juntos, e banda passou a ser dupla, mas com voz, violão, guitarra e percussão. Deu certo!

Dibadá embarcou para Arraial d’Ajuda, na Bahia. Depois de percorrer os quiosques, apresentando o CD gravado para aquela viagem, vieram os primeiros convites que resultaram em quatro meses tocando na praia, ganhando uma grana e fazendo o que gostavam. Era sol, mar, calor e música boa até o retorno a Uberaba.

O cenário musical encontrado na terra natal era o mesmo. Ser pai, agora, pesava na decisão tomada lá atrás em relação à música. Quem sabe morar no exterior, mesmo que fosse para trabalhar em qualquer outra profissão, não valeria a pena? Com César morando nos Estados Unidos, Gustavo tentou ir também, mas teve o visto negado.

Em contato com uma cantora brasileira, que tinha morado em Londres e estava na Itália, Gustavo e o baixista, Ricardo Moraes, decidiram ir para Milão, depois que conseguiram algumas fontes para hospedagem. “Vendi meu fusca. Peguei uma grana emprestada com o meu tio, reservei o dinheiro da passagem da volta e fomos”.

Gustavo viveu os apertos com o idioma, a incerteza de conseguir um emprego como pintor de paredes e o desejo de que alguma coisa desse certo. “Muito ruim você não saber falar o idioma. Um dia fiz um macarrão com um molho, o negócio ficou muito ruim. Meu deu uma azia. Tive que ir à farmácia para comprar um sal de frutas e não conseguia. Mandei um “sales de frutas”. O atendente começou a me zoar, tipo ecco pharmacia non mangiare” (aqui é farmácia e não para comer)”. Após uma confusão na comunicação, o músico achou, entre tantos outros sachês, um antiácido que faria o efeito desejado.

Mas o cômico de estar em Milão, sem falar italiano, é fazer teste para ser admitido em banda de cabaré. O bar Brasil Samba nem havia sido inaugurado, Gustavo e Ricardo estavam à procura de trabalho. “Nem que fosse de garçom”, comenta o músico.

Após algumas tentativas, sem sucesso, os dois encontraram um baterista na porta do bar de nome tipicamente brasileiro e conseguiram um teste com o proprietário da casa noturna. “Mas o cara não me disse que aquilo era um puteiro. Toquei umas músicas, mais MPB, e o dono falava “no va bene” e me mandou embora. Lá fora o baterista nos disse que a casa era frequentada por garota de programa, que o dono queria que tocasse samba e forró. Voltei lá, insisti pra que ele me deixasse cantar de novo. Quase implorei, e aí sim, fui admitido”.

Do cabaré, a pub jazzista, a festivais, Gustavo tocava e conhecia outros músicos. A grande oportunidade veio com uma banda formada para tocar no Restaurante Rios, do ex-jogador da Inter de Milão, o brasileiro, André Cruz. “Eles iam abrir uma boate e estavam pegando músicos para tocar, com contrato, cachê fixo e tudo certinho”.

Longe dos irmãos, dos pais e do filho, Gustavo resolveu não assinar o contrato e voltar para o Brasil. Depois de um ano na Itália, onde permaneceu por mais seis meses, o músico optou por estar ao lado da família. “Talvez hoje eu não voltasse. Me arrependo de não ter ficado porque poderia ter feito diferença na minha vida como músico. Mas aí já não teria a Lara, não teria conhecido a Patrícia, com quem estou há nove anos. É difícil saber o que teria acontecido”.

A Dibadá voltou a tocar nas noites uberabenses, até maio deste ano, quando Emerson e Gustavo decidiram “dar um tempo” no relacionamento que durou mais de 20 anos. “O Emerson me ajudou demais. Somos amigos, irmãos, compadres. Ele me ensinou muita coisa, me emprestou instrumento quando eu não tinha. É meu parceiro e, por mais que hoje tenha um desgaste natural de tanto tempo, o que a gente viveu junto não tem como não ser considerado”.

Para o futuro, Gustavo pensa em ser professor de música, quando cansar de tocar. Mas isso parece que vai demorar um tempo para acontecer. Centrado profissionalmente, ele é extremamente rigoroso com a sua agenda e com a voz. “Parei de fumar há seis anos, o que me ajudou muito. Não bebo para cantar, só tomo água para hidratar. Sou muito chato com os meus horários, com o equipamento, a apresentação. Vivo disso e tenho que ser o mais profissional possível”.

Em casa, o estúdio home está pronto. O músico pensa em se dedicar à produção de outros artistas. Gustavo ainda pensa em lançar algumas canções autorais. “Em alguns bares eu até toco algumas coisas minhas. Quem sabe, né? (risos)”.

Depoimentos:

“Eu toquei poucas vezes com ele. Nos conhecemos, há mais de 20 anos, mas nosso convívio sempre foi pequeno por causa das agendas diferentes. Nunca vi o Gustavo de cara feia, sempre sorrindo e alegre.

Me lembro de uma história sobre ele ter doado um dos rins pra uma pessoa que não é da família dele. Fiquei realmente impressionado com esse exemplo incrível. (Fabiano Borges, músico).

“Pra falar do Gustavo preciso de muito tempo, mas vou resumir. Como músico é um profissional exemplar. Organizado, muito responsável, tem uma percepção musical inigualável, sabe tudo de harmonia. Ele se preocupa muito em agradar. Trabalho com ele desde o dia em que o conheci e foram 25 anos de música boa e muito trabalho. Como pessoa, Gustavo é muito simples, riso muito fácil, coração imenso. Ele sempre será meu irmão mais novo, que eu nunca tive. O Gustavo tem uma agenda cheia de compromissos e ele arruma tempo para ajudar muita gente. Ele é um coração grande mesmo. Ele tem um irmão que precisa de cuidados especiais. Ele cuida deste irmão com muito amor. O Gustavo é muito presente na vida dele.

Há pouco tempo, ele doou um rim para uma pessoa que é muito querida por ele, mas que não é da família. Na época, eu falei: bicho, você tem uma filha, e se ela precisar? Ele me calou a boca. Disse que agarraria com Deus para proteger a filha e que doaria com amor. Deus está com ele sempre, eu tenho certeza disso. É uma das poucas pessoas que eu me inspiro. Ele é mais novo que eu, mas eu me inspiro nele”. (Emerson Dibadá, músico).

“Gustavinho, junto com a banda Dibadá, foi uma das inspirações pra então banda Eskina II, que estava no começo da sua trajetória nos bares da cidade. A banda Dibadá já era veterana, logo nos conhecemos e algum tempo depois as duas bandas dividiam as quintas feiras na choperia Archimedes. Algum tempo depois, o Gustavo me chamou pra fazer algumas quintas com eles, e foi aí que eu também fui Dibadá. Convivi por uns 10 anos com esse cara excecional que é o Lalim. Ganhei um amigo com um coração enorme, maior do que a boca dele (risos). Lalim é uma pessoa muito responsável com a sua família e amigos, tem um carinho enorme por todos. Ele nos ensina a respeitar e amar quem está ao nosso redor. Sem falar o carinho que ele tem com o Maurinho (irmão). O Lalim é isso: pequenininho, mas gigante. (Leandro Gouvêa, músico)

"Admiração é o que sinto pelo Gustavo. Acredito que é dentro da admiração que mora o amor verdadeiro! Admiro-o principalmente pelo filho amoroso, pai devotado, esposo e companheiro de vida que é, pelo músico autodidata, perseverante, dedicado e comprometido, por usar este dom buscando sempre fazer o melhor, levando alegria para as pessoas por meio de “música boa” e com isso ainda ganhar o pão de cada dia. O amor que deposita em tudo que faz, das mais simples tarefas do dia a dia, seu desprendimento e disponibilidade para ajudar. Enfim, eu o admiro, e o amo!". (Patrícia, esposa)

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