13/11/2018 às 10h19min - Atualizada em 13/11/2018 às 10h48min

"Minha pele não vai clarear para que mais pessoas se sintam melhor na minha companhia" - Entrevista com Michelle Rosa

Um sorriso largo e cheio de peculiaridades. A jornalista Michelle Rosa é uma das mais competentes profissionais da sua geração e um mulherão que chama a atenção pela força e determinação que demonstra.

No rádio, no jornal ou na televisão, seja como produtora, apresentadora, repórter, atleta, desenhista, Michelle vive em movimento e se encaixa em todos os lugares, sempre em busca de aprendizado, sendo este, para ela, a melhor escolha e o caminho mais estável.

Neste mês de em que celebramos o Dia Nacional da Consciência Negra, Michelle revela que já sentiu medo de não corresponder às expectativas dos outros, mas aprendeu que o importante mesmo é estar bem consigo, com o seu trabalho e com a sua fé.

UP - O que significa a sua raça e a sua cor para você? MR - Minha cor e a minha raça significam minha história. Minha vida e a minha essência. Através de mim, se vê todos os meus ancestrais. Toda luta que eles tiveram para que eu pudesse estar aqui, com um pouco mais de autonomia. A minha cor e a minha raça significam luta, coragem, esperança passado, presente e futuro.

UP - Já sofreu preconceito ou injúria racial? MR - Nunca sofri preconceito ou injúria, mas já vi alguns olhares de surpresa. Isso nunca me paralisou, nunca foi um problema pra mim.

UP - Como foi na sua infância? Os seus pais falavam abertamente sobre racismo e os preconceitos que você pudesse sofrer ao longo da vida? MR - Minha infância foi bem tranquila e os meus pais nunca falaram com abertura da questão do preconceito. Me lembro de algumas falas da minha avó materna sobre o assunto. A verdade é que, em boa parte da vida nunca tinha pensado em preconceito racial até chegar a vida adulta e entender que declamava poesia, participava dos grupos de dança na escola porque era coletivamente. Na festa junina era uma luta. As possibilidades de um par sempre desapareciam. O cabelo crespo e o tom da pele intimidavam os meninos. Isso não era algo declarado, mas compreendi que, no final, sou eu comigo mesma e que não seria a um par que me faria perder a festa ou celebração. Meu olho arregalado, meu cabelo pra cima e um sorriso sempre fizeram parte das minhas características. Ao longo do tempo compreendi que em casa algumas coisas não foram verbalizadas, mas que nem por isso meus pais deixaram de me preparar para vida, essa batalha diária através dos bons exemplos e de não se deixar abater. E assim, ter consciência de que as diferenças vão existir e que ninguém pode dizer que eu não posso. Com trabalho e tranquilidade tudo se alcança.

UP - Muita gente fala que hoje em dia tá chato porque não temos mais aquelas velhas piadas e brincadeiras com negros, gays, loiras, portugueses. Você também acha ou acredita que só quem acha engraçado é quem faz a piada? Que no fundo incomoda mesmo e não é nada engraçado? MR - Só acha engraçado quem faz a piada.Pimenta só arde no olho do outro, já é um ditado , não por acaso. O problema não está na piada, mas em como as pessoas, para se mostrarem, diminuem o outro. Vemos diariamente no noticiário os resultados disso.

[caption id="attachment_14467" align="alignright" width="300"] A jornalista trabalhando na cobertura da Eleições 2018, na Band.[/caption]

UP - Você é uma pessoa da comunicação e está em todos os lugares. Já sentiu que foi inferiorizada em algum lugar por ser negra? MR - Eu nunca passei por essa situação e acho que eu nunca me deixei passar por isso. Acredito que se minha presença incomoda, então, a outra parte que se mude. Minha pele não vai clarear para que mais pessoas se sintam melhor na minha companhia.

UP - E na sua carreira? Sempre teve portas abertas ou em algum momento, além das dificuldades comuns que todos os profissionais enfrentam, você chegou a perceber que deixou de conquistar algo apenas por ser negra e não pela sua capacidade? MR - Ser jornalista nos leva a ter um desafio diário em como vamos contar as histórias. Tive dificuldades na faculdade, igual a todos que vieram do ensino defasado e que começaram a trabalhar muito cedo, no meu caso aos 12 anos. Isso só me mostrou que preciso estudar mais e estar mais atenta em alguns pontos. Mas isso nunca foi um obstáculo. Claro! Às vezes tive medo de não corresponder às expectativas, porque somos criados com o objetivo de sempre fazer mais.  Depois compreendemos que temos que fazer por nós mesmos e não pelos outros. Conquistei o meu espaço com muito esforço e fé na minha caminhada.

UP - Uberaba tem alguns grupos como o EmpoderAÇÃO das Pretas. Você também abraça essas causas em defesa da mulher negra? MR - EmpoderAÇÃO das pretas é um projeto do Coletivo AFROntar-se, um grupo que tem como referência manter a identidade étnico-racial africana, no contexto histórico e prático e que tem feito um excelente trabalho em Uberaba e também na região. Na escola quando era pequena e continuo sendo, me contaram a história só do negro que perdeu. Que perdeu a dignidade como humano. Que era tratado como objeto, que só apanhava, que comia o resto. Tive que aprender algumas coisas sozinha e, mais tarde, com outras pessoas, como os nomes e as histórias dos meus heróis, como Teresa de Benguela, Dandara, Antônieta de Barros, Zumbi e tantos outros. A partir disso tomei consciência de quem eu sou e qual o meu papel. Acredito que não tenho feito o suficiente, que posso muito mais, até mesmo porque quando um de nós avança, todos nós avançamos juntos.

UP - O que você comemora no Dia da Consciência Negra? MR - Celebramos a possibilidade de falar sobre nossa cultura e nossa a história, mas há muito o que fazer.  Moramos num país onde a cor da pele ainda importa, mas educação não. Vivemos num país onde a desigualdade social invade as nossas casas e nos achamos no direito desrespeitar o ser humano. É um trabalho de conscientização que parece que não tem fim.

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