10/11/2018 às 21h47min - Atualizada em 10/11/2018 às 21h55min

"Eu não queria mais ser um pretinho" - Entrevista com Rodrigo Tubaraum

Dono de uma voz inconfundível, carisma e alta popularidade nas redes sociais e no rádio, Rodrigo Viriato Mendes é Rodrigo Tubaraum e o entrevistado do Uberaba Popular neste mês em que celebramos o Dia Nacional da Consciência Negra, no dia 20.

Locutor e apresentador na rádio Sete Colinas, há mais de uma década, digital influencer, com páginas nas redes sociais que movimentam postagens com centenas de compartilhamentos diários, é difícil acreditar que, na infância, Rodrigo tenha se sentido um alienígena por ter a cor da pele diferente dos colegas da escola.

Contrário às cotas raciais, o comunicador quer apenas que as diferenças não sejam fomentadas e que a sua raça não ocupe espaços menores e inferiores às demais, mas sem alardes. O que ele deseja mesmo é que um dia não seja necessário ter uma data específica para lembrar que todo ser humano é igual.

UP - O que significa a sua raça e a sua cor para você? RT - Significa eu mesmo, como qualquer pessoa, qualquer ser humano. Cheia de nuances e dúvidas da vida. Me sinto como qualquer pessoa, mas de pele escura.

UP - Já sofreu preconceito ou injúria racial? RT - Sim. No meu local de trabalho, no início com brincadeiras inconvenientes e vindas de pessoas e hierarquias acima da minha, mas sempre me posicionei quanto a isso e deixei bem claro que para ser respeitado deveria me respeitar ou a partir dali as coisas passariam a ficar mais incandescentes. Comigo do mesmo jeito que vem volta numa boa.

UP - Muita gente fala que atualmente o mundo está chato porque não temos mais aquelas velhas piadas e brincadeiras com negros, gays, loiras ou portugueses. Você também acredita que só quem acha engraçado é quem faz a piada e incomoda mesmo e não é nada engraçado? RT - Sim. Talvez existisse um romance nisso tudo e, no passado, parecia ser engraçado, mas era sempre engraçado pra quem fazia a piada. A vítima dela geralmente não gosta e realmente é incômodo. Passei a minha infância e adolescência relevando muita coisa. Não levando tudo a ferro e fogo, embora no fundo me aborrecesse. O meu primeiro apelido era Semente de Bucha, o Semente ou Sementinha. Foi quando descobri que a semente de bucha era pretinha mesmo e não sabia. Depois veio o Kichute: preto feio e bicudo. Na verdade, não gostava daquilo, mas era criança e, talvez, não visse tanta maldade nisso. Com o tempo, você passa a entender um pouco as coisas, sem ter que suportá-las quando são inconvenientes. Foi quando passei a ter problemas de relacionamento na escola com os demais colegas.

UP - Você é uma pessoa da comunicação e está em todos os lugares. Quando a sua voz sai do rádio e ganha corpo, como é? Tem aquelas frases: achei que você fosse diferente? RT - É como se eu fizesse parte a turma e tivesse uma ligação muito forte com os mais jovens. Minha voz não apresenta a idade que eu tenho, 43 anos. Antigamente, sem as redes sociais, existia muita curiosidade por saber quem estava por trás daquela voz e como ela era. Ouvi muito que a minha voz não parecia de um negro ou que meu biótipo não condizia com a minha voz. As meninas queriam me conhecer, mas não agradava tanto quando descobriam quem eu era, disfarçando o desencanto. Infelizmente, frases como eu achei que você fosse diferente, sempre soavam como se eu fosse tudo, menos um negro, mas você vai relevando!

UP - E na sua carreira? Sempre teve portas abertas ou em algum momento, além das dificuldades comuns que todos os profissionais enfrentam, você chegou a perceber que deixou de conquistar algo apenas por ser negro e não pela sua capacidade? RT - Talvez, no começo sim, mas não ficava com lupa observando se tinha ou não essa situação da cor ser um empecilho.  Embora estivesse atento quanto a isso. Depois que você vai formatando o seu espaço e pavimentando a sua caminhada, com credibilidade e competência, essa situação deixa de existir ou é mascarada, passa a ser “glamourizada”. Há casos em que você passa a não ter mais uma cor. Te toleram muitas vezes pelo o que você se tornou num determinado meio.

UP - Como foi na sua infância? Os seus pais falavam abertamente sobre racismo e os preconceitos que você pudesse sofrer ao longo da vida? RT - Foi difícil. Na minha sala tinha apenas eu de pretinho e eu não queria mais ser um pretinho. Às vezes, eu me sentia um alienígena com pele diferente, cabelo diferente, biótipo diferente. Não me adaptava e não aceitava quem eu era. Os meus coleguinhas também não entendiam muito bem porque eu era diferente deles. Não queria mais ser negro e, a partir daí passei a dar uma dorzinha de cabeça aos meus pais. Eu dizia que iria me casar com uma mulher branca para clarear a minha pele. Parece doido isso, mas era verdade. Os meus pais ainda eram casados e passaram a me apresentar ícones que alcançaram respeito em seus segmentos, sendo negros e muito competentes em suas funções, como Michael Jackson, Michael Jordan, Pelé, João do Pulo, Lionel Ritchie, Milton Nascimento, Mike Tyson... até que as coisas ficaram mais claras e entendidas.

UP - Você é a favor das cotas raciais? RT - Não sou de jeito nenhum. Acho que fomenta ainda mais a segregação e o preconceito. Se os direitos são iguais e somos todos iguais, não há motivo de ter as cotas raciais, pois o índio tem que ter o direito dele, o albino tem que ter também e assim por diante. Entendo que a intenção é minimizar a história que envolve os negros, ao tentar inseri-los na universidade. Ao mesmo tempo, sei que sem as cotas, as inserções do negro em várias situações e segmentos continuarão desiguais.

UP - O que você comemora no Dia da Consciência Negra? RT - Não é uma data que me agrade. Por mais que o objetivo seja a reflexão da caminhada do povo negro na sociedade, que eu particularmente, não acho que necessária uma data específica ou um feriado para isso. Vários avanços têm sido alcançados, mas a verdadeira consciência está naquele que continua na luta sem amarras do passado, pensando no seu crescimento no presente e no futuro. Não dá mais pra ficar só remoendo as coisas. O que passou precisa ser deixado para trás com louvor e os obstáculos devem continuar sendo superados.


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