11/09/2018 às 21h15min - Atualizada em 11/09/2018 às 21h25min

O cara do lanche da esquina

O personagem do Retratos da Rua de hoje não tem nome, mas a história valerá a pena e, ao contrário do ele diz, pode sim inspirar pessoas. É ali no cruzamento de uma famosa avenida da cidade, pertinho do parque de exposições, que ele trabalha há 28 anos. “Ei, tem cachorro quente aí?”, gritou o motorista do ônibus parado no sinal. “Não. Só xup-xup.”, respondeu o comerciante com uma gargalhada, destas que dá vontade de rir também. Por incrível que pareça a abordagem, ainda que programada há vários dias, foi mais difícil que imaginei. Expliquei que há anos passo por ali e que o vejo sempre, faça calor ou frio, às vezes muito frio e também chuva. “Você tá me chamando de velho?”. Gaguejei, mas acho que consegui explicar. No mesmo ponto há quase três décadas, aquele jovem de 52 anos, dono de um bom humor invejável, foi me envolvendo ao ponto de eu não conseguir extrair muito da sua vida, mas ele deixou escapar o suficiente para me impressionar. Não foi a timidez que o fez negar o meu pedido para tirar fotos dele e do seu material de trabalho. Foi falta de vaidade. É só o desejo de permanecer anônimo, apesar de cumprimentar quase todo mundo que passava pela avenida, às sete e meia da noite de uma terça-feira. Quis saber sobre os percalços e riscos do ofício, trabalhando na rua, das 18h às 23h. Ele não hesitou em dizer. “Nunca vi”. E não tocou mais no assunto. Solteiro, o empresário do hot dog disse não ter filhos. “A responsabilidade não quis chegar lá em casa”, brincou. Ele mora há três ruas do ponto onde estávamos, com os irmãos e um sobrinho. Começou a trabalhar aos 7 anos, mas não deu muita bola para as perguntas que vieram a seguir. Disse o que quis e fez jus ao seu direito de não ter que responder às minhas indagações. Perguntei por fim, se eu poderia escrever e publicar a nossa conversa na internet, sem citar o seu nome. “Esse negócio de muita informação não é pra mim. Sou do tempo em que a mensagem era a palma, sabe como é? Se quisesse falar com uma pessoa, eu ia à casa dela batia palma na porta e conversava. Bem mais simples”, garantiu. “Pra quê colocar na internet?”. Para inspirar as pessoas, respondi. A gargalhada veio mais forte com a resposta surpreendente. “Cê tá doida? Eu mato. Esse povo tem é que estudar”. “Sim, mas vamos inspirar o povo a trabalhar”, tentei retrucar. “Mas também não pode trabalhar muito. Isso aqui, por exemplo, dá e sobra pra mim e para as minhas bicicletas. Cê trabalha muito?”. Balancei a cabeça afirmando, enquanto dava a primeira mordida no cachorro quente. A resposta veio seca e firme: “Não mandei você fazer conta”. No mesmo instante, ele olhou a minha moto estacionada à frente e perguntou: “Você anda de bicicleta?” e ele mesmo respondeu sorrindo: “não, cê não tem tempo”. Claro! Não deixa de ser verdade. A gente tem vivido para pagar contas mesmo. Tem nos faltado simplicidade e anonimato. Aquele homem não quer se expor como fazemos com todos os nossos momentos nas redes sociais. Não quer ter mais que uma bicicleta para andar aos domingos e o dinheiro para pagar a luz. Não usa celular no trabalho, porque é “falta de educação com os meus clientes. Os meus amigos reclamam que eu não atendo o celular. Eu digo que atendo todo mundo após as seis horas no lanche. É só vir aqui que eu atendo. Não é mesmo?”. Enquanto ele acendia o cigarro, eu o contei que não deixaria de escrever sobre o que conversamos. Entreguei um cartão com o meu telefone e os R$ 3,50 para pagar o cachorro quente. “Vou enviar a história para você ler. Vai ficar bonito”. “Você é corajosa, menina. Acha que preciso fechar o lanche e ir comprar lenços na farmácia?”, brincou. “Acho bom”, respondi agradecendo o tempo doado. A lição veio a calhar: que sejamos mais gente, mais reais e menos personagens. Que vivamos mais por nós e menos para insuflar egos na internet. Que o tempo nos garanta uma boa vida e que essa consista em menos boletos, mais bom humor e sorrisos. ______________________________________________________________________________________ [box type="success" align="alignleft" class="" width=""]E você, conhece alguém que possa ilustrar o nosso Retratos da Rua? Mande sugestões para o e-mail jornalismo@uberabapopular.com.br ou pelo whatsappp (34) 99766-8990.[/box]  
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