06/06/2018 às 20h03min - Atualizada em 06/06/2018 às 20h03min

A repositora

Tive um dia difícil, tem sido assim ultimamente. Acho que já me acostumei. Com tantos compromissos, só me dei conta que ainda não tinha almoçado às 19h15.

Antes de ir para casa, resolvi passar no supermercado para comprar o meu kit sobrevivência: leite desnatado, toddynho, bisnaguinha (brioche, hummm), Sensodyne e três Stellas Artois para assistir ao jogo do Corinthians contra o Santos, enquanto tento finalizar os meus trabalhos gráficos.

Esqueci do bendito dia de pagamento salarial e o supermercado estava lotado, mas desta vez não desisti na porta. Persistente, peguei um carrinho pequeno...

Parei logo na gôndola de creme dental. Fiquei esperando um casal se decidir entre o verde e o roxo para pegar o meu produto (o de sempre).

Um homem aproximou e, claro, passou à minha frente. Esticou o braço, pegou um Colgate pequeno e derrubou a fileira do mesmo produto. Ele olhou com desprezo para os produtos no chão e com desprezo ainda maior para a repositora sentada sob duas caixas, enquanto tentava repor e organizar a gôndola.

Deixei o meu carrinho no canto, agachei e peguei os Colgates que ele havia derrubado. Recoloquei-os na gôndola como estavam antes. Olhei para a mulher: negra, magra, rosto fino, usando o uniforme azul do LS Guarato, a testa brilhava com o suor, o cabelo desarrumado e as mãos sujas da poeira das caixas. Foram os 5 segundos mais longos da minha vida e, talvez, a percepção mais dolorida das narrativas dos meus personagens.

Ela ergueu a cabeça e me olhou. Eu só tive tempo de encostar a mão em seu ombro e dizer “Isso é abuso” e perceber os olhos dela marejados de lágrimas.

Devolvi o carrinho no lugar e desisti da compra. Entrei no carro e, quase chorando, pensei: que diabos certas pessoas pensam que são?

O que temos na cabeça, sobretudo no coração, para humilhar outras pessoas pelo simples e irrelevante fato de estarmos em posições diferentes?

Os olhos da repositora me disseram tantas coisas! Talvez a vida dela seja maravilhosa e ela estivesse apenas cansada, mas talvez ela estivesse triste como eu, e sensível às ações perversas de algumas pessoas.

O “próximo” está tão distante de nós. Quem é que se importa, não é mesmo?

Que Deus abençoe aquele homem. Ele me mostrou estar vivendo na mais intensa pobreza, mesquinharia e soberba.

Quero acreditar que a vida manda a conta. Ah se manda!


Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »
Comentar

*Ao utilizar o sistema de comentários você está de acordo com a POLÍTICA DE PRIVACIDADE do site https://uberabapopular.com.br/.
Plantão
Atendimento
Envie a sua sugestão de notícia pelo PLANTÂO.