05/07/2017 às 23h54min - Atualizada em 05/07/2017 às 23h54min

De solteirona do Mil Réis a Maria do Pensionato

A rua é bem curta, mas a prosa é longa na Doutor Luís de Paula, divisa dos bairros Abadia e Estados Unidos.

Quem passa por aquele pequeno portão é via de regra, recebido com um café quente e uma mesa farta, que não dispensa manteiga de leite e torradas. O pensionato da Dona Maria faz parte da memória afetiva de muitas jovens ou moças, como ela ainda diz, por aí. Quando alguma volta para uma visita, é recebida com um sonoro “Uh, danada!”.

Angelina Maria Destro nasceu na década de 20 e gosta de se resumir como Maria.

Conservadora e ao mesmo tempo despachada, já foi proprietária de um badalado bar, frequentado por estudantes de medicina no passado. Daí veio o apelido que estampou uma crônica em um dos jornais impressos de Uberaba: A solteirona do Mil Réis. Ela faz questão de guardar o recorte de jornal. "Escreveram sobre mim, é uma relíquia, deixo guardadinho".

Cercada de gente, dona Maria é por natureza uma pessoa solitária. Viveu um grande amor que foi interrompido pelo preconceito dos pais. "Se Deus permitir quando eu morrer quero encontrar ele, mas vai ser um namoro só de pegar na mão, beijinho, mais nada", brinca.

Criou uma filha adotiva, e quando se cansou dos fiados no bar, decidiu abrir a própria casa para que outras pessoas pudessem ter um lar, enquanto se dedicassem aos estudos ou ao trabalho na cidade. Recebia estudantes de medicina, meninos no início da carreira profissional, mas com a morte dos pais, optou por hospedar apenas mulheres.

“Ainda bem que tenho as meninas, se elas não estivessem, aqui, nem sei”, “Às vezes eu choro no quarto, mas choro sozinha, pensando na vida”, “Graças a Deus sou invicta”. As frases são célebres e facilmente reconhecidas por quem teve ou ainda tem o prazer do convívio com a sobriedade e astúcia de uma quase noventona.

Dona Maria gosta de dormir e acordar cedo. Não dispensa um bom copo de leite noturno e pontualmente às 17 horas, sai para buscar pão na quitanda da esquina.

Maria é dessas mulheres que popularmente chamamos aroeira, mas gosta de violetas plantadas em pequenos vasos que decoram a casa.

Aliás, em cada canto da casa há hóspedes, e há também quadros e pequenos bibelôs que enfeitam os ambientes. Há muitas fotos que hora ou outra ela exibe e aproveita para fazer rápidas viagens ao passado. “Minhas meninas nunca se esquecem de mim, sempre vem me visitar e eu gosto muito quando elas voltam aqui”, conta sem disfarçar o ar de felicidade.

Há muitos relógios espalhados pelas paredes. A impressão que dá é que em algum momento ela quer apressar o tempo, noutras quer retardá-lo, por isso o calendário na parede as vezes fica na página do dia anterior. “As meninas gostam das frases desse calendário, deixo aí”, explica.

Maria tem na secretária do lar Gina, uma companhia leal. Gina vai durante a semana, faz a limpeza da casa, prepara o almoço e atende telefonemas. Resolve problemas, separa correspondências, administra os remédios que dona Maria precisa tomar.  Oferece boa conversa e um delicioso bolinho de chuchu. “Minha saúde é de ferro, fui ao médico e estou ótima, a Gina sabe”, orgulha-se de comentar.

Maria é temente a Deus e fiel as missas do padre Roberto na televisão. Gosta de ver os jogos da Seleção Brasileira e se irrita facilmente com a política nacional. Quem não?!

Ainda de madrugada, ferve água com açúcar para o café. O aroma de manhã é um despertador para as moças do pensionato, que com o passar dos anos, vão sendo substituídas por outras. São personagens rotativas, que ao passo que escrevem uma história, mudam a página. Maria permanece, única e soberana naquela casa, que de fato é um lar. Sabe reconhecer um abrigo quem é sensível a atmosfera familiar. Por isso muitas meninas retornam para um abraço, para uma conversa, para reviver as memórias que construíram  por lá.

Vida longa a Maria e ao Pensionato!

Maria do Pensionato

Tic tac Tic tac O relógio da parede passa um pouco das cinco Via de regra, ela surge na madrugada Meu sonho desperta com ranger da porta do quarto Um presságio? Diria um anúncio É ela, a Maria do Pensionato.

Apressada com café e pão para as moças que acordam no alvorecer, na matina Vai em um pé e volta noutro da quitanda na esquina A velhinha batizada com nome de anjo parece renegar Angelina Prefere o nome de Santa, o segundo de batismo, Maria Solteirona invicta, orgulha-se do título que para ela soa nobreza Invicta dama de cabelos brancos, que de tantos hóspedes, virou lenda Madura, aos 85 não teme qualquer luta Vai da louça enxuta para as plantas molhadas no quintal Passa, faz conta e anota tudo, invariavelmente, no caderno mensal.

De fé rigorosa, Maria repete quase que toda manhã de frente a TV “Salve Maria, Ave Maria, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro” Socorrendo as moças que chegam de todos os cantos Num abrigo terno feito casa de avó Num abraço doce com jeito de mãe.

Maria tem Gina para se apoiar Do lado direito, de todos os lados a servir, a sanar No médico, na farmácia, no banco e na cozinha Conceito que ultrapassa a fama de secretária do lar.

Maria tem a casa de muitas mulheres Mas já foi dona de bar Cortava dobrado, cobrava fiado centavo a centavo quem se atrevesse a calotear A solteirona do “Mil Réis” é feliz Na solidão encontrou espaço para doar-se a mais gente Vive cercada de quem deseja simples Um dedo de prosa e um café bem quente Na mesa da cozinha, da casa de número setenta Pelo portão daquela que distribui migalhas aos pássaros contenta, já passaram Marta, Fernanda, Ana Paula e tantas outras no anonimato Sempre na lembrança inquestionável de Maria Aquela do Pensionato.


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