29/06/2017 às 09h09min - Atualizada em 29/06/2017 às 09h09min

O legado de Sebastião Braz

Uma biografia impressionante, ainda que tenha raríssimos registros. No centenário do Uberaba Sport Club, é imprescindível narrar a história de um homem que transitou em todos os cargos de um time de futebol, mas a função que Sebastião Braz melhor desempenhou, em três décadas de dedicação ao Colorado, foi a de torcedor.

Durante anos, Sebastião foi visto em Boulanger Pucci, ora como treinador, ora supervisor ou dirigente. E, se é possível morrer fazendo o que gosta, Sebastião assim o fez: no dia 25 de abril de 1948, sentiu-se mal à beira do gramado do estádio do seu time do coração comandando um treino e não resistiu. O Uberaba Sport Club perdia seu marqueteiro e um dos torcedores mais entusiastas dos cem anos da sua história.

Supersticiosos, à época, garantiam que o técnico teria conduzido o time em uma heroica vitória do USC sobre o Atlético Mineiro, por 3 a 2, um mês após a sua morte.

Redator do Lavoura e Comércio, não poderia ser apenas coincidência a frequência com que o nome do clube surgia nos grandes jornais do Brasil das décadas de 20 e 30. Alguém, com conhecimento jornalístico, teria que encaminhar os telex aos editores de publicações como o Correio Paulistano, Diário da Manhã, Folha de São Paulo e Última Hora.

É certo dizer, ainda que não se possa provar, que Braz se encarregou de propagar o nome Uberaba Sport durante muito tempo.

Em 1924, o América, octacampeão mineiro, perdeu para o Colorado. Foi sim uma vitória expressiva. Os 5 a 0 significam muito para um time do interior, mas um telex que dizia “Uberaba é o novo campeão mineiro” chegou às redações dos jornais nacionais e, por muito tempo, o Coelho perdeu seu título para a equipe do Triângulo.

Em um artigo, escrito no jornal local, Sebastião deixou escapar sua habilidade publicitária. Trecho do texto dizia que o América, campeão mineiro, havia vencido uma outra partida e o torcedor-redator retrucou: “Que campeão? O América deixou o título em Uberaba”.

Em 1938, Sebastião Braz, contrário à profissionalização do futebol alvirrubro, ajudou a fundar o Independente Atlético Clube e ficou afastado do USC por algum tempo. Nesta época, ele defendia a manutenção das categorias de base e o elenco do futebol profissional formado por “pratas da casa”.

Para provar que estava certo, Braz desafiou o Uberaba e levou os seus meninos para três jogos contra a equipe profissional colorada.  Sebastião e a sua convicção foram derrotados nos dois primeiros por 10 a 0. Cinco gols do USC em cada jogo.

Era precisava derrotar o Uberaba. Foi aí que o ego falou mais alto que o motivo que o afastou de Boulanger Pucci. O mandatário reforçou o seu time com alguns consagrados nomes do futebol nacional, como Feitiço, do Santos; Waldemar de Brito, do São Paulo; e Zeca Lopes, titular da Seleção Brasileira. O Independente venceu por 2 a 1 e Sebastião Braz já não tinha mais motivos para se manter longe do Colorado. O apaixonado torcedor voltou ao BP como treinador e, consequentemente, os telex, que enalteciam o nome do USC voltaram às redações dos mais importantes jornais do país.

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Sherlock Holmes, filho de Sebastião Braz[/caption]

Sebastião Braz ainda conseguiu ver o filho, Sherlock Holmes, se destacar como jogador amador no Uberaba. “Ele jogava bem. Pelo menos foi o que eu sempre ouvi falar”, garante o jornalista Fernando Vannucci, filho de Holmes e neto do lendário Sebastião.

Sobre o avô, o jornalista lamenta ter nascido após a sua morte. “Quando eu nasci, em 51, o meu avô já havia falecido. Foi uma pena eu não o ter conhecido. Ele foi técnico e presidente do Uberaba, mas tenho poucas informações sobre a representatividade dele no clube. Por outro lado, o Colorado merece todas as homenagens no ano do centenário”.

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Fernando Vannucci, aos 6 anos já era mascote do Uberaba Sport[/caption]

São poucas histórias da carreira do jogador Sherlock Holmes, mas, além do nome, que sempre desperta curiosidade, Vannucci conta que Sherlock era deficiente auditivo e o filho aprendeu a narrar os jogos do Uberaba Sport para o pai.

Formado em Jornalismo e torcedor do Colorado, Vannucci tornou-se um dos mais conhecidos apresentadores esportivos, o que daria um enorme orgulho ao avô.

O grande pesar é não ter ninguém na redação para enviar um telex aos grandes jornais para registrar e não deixar morrer o trabalho jornalístico e futebolístico da família Braz-Holmes-Vanucci em prol de um só clube: o Uberaba Sport.


Depois que foram destruídas as arquibancadas onde ficava o busto de Sebastião Braz, não se sabe onde foi parar a estátua. Onde estará?


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