19/04/2017 às 15h33min - Atualizada em 19/04/2017 às 15h33min

Os Incompreendidos

François Truffaut foi um jovem oriundo de família modesta, levou consigo as esperanças amortecidas pelo entre guerras e deu vida a um dos mais belos símbolos poéticos do cinema mundial. Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, 1959) nasce da autobiografia de seu criador, do drama construído nas ruas distantes dos estúdios cinematográficos. Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) é o centro que nos leva a entender o rejuvenescimento do cinema que transporta as angústias de uma rebeldia que de início conseguimos compreender.

É inegável que a película entregue uma lista de argumentos e recurso impecáveis, mas a grande qualidade aqui se expressa na forma como Truffaut passa da tela para o espectador o mais íntimo e verdadeiro da realidade de Antoine Doinel. Não há explicações? Para que? Na tela de Truffaut tudo está coberto pelo denso cotidiano de experiências vivas de um jovem detentor de uma aflição, embora a ideia de liberdade concentre-se em maior medida.

A câmera de Truffaut é única, e é tão sua. Por isso o cinema se transforma com sua chegada. O diretor, ator, teórico e crítico defendia uma linguagem cinematográfica que se baseava na sintonização com a realidade, no recorte da valorização do humano. Não coincidentemente, Os Incompreendidos leva o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes de 1959, tornando-se sucesso mundial a partir daí. Henri Decae é o responsável pela elaboração da fotografia durante todo o longa, vale pensar que o trabalho do diretor de fotografia não se limitava a iluminação dos espaços, mas em diversas vezes os de trabalhar diretamente com a câmera. Talvez por conta da limitação (que acabou funcionando como uma belíssima estratégia) dos recursos dentro da Nouvelle Vague e de tudo ser criado entre os próprios amigos, tudo tenha soado tão natural e familiar.

O núcleo familiar, a escola e a prisão são protagonistas ao lado do jovem Antoine. Os espaços falam, respiram, e, principalmente, ferem. Seus pais ao se automutilarem, também desenham cicatrizes na infância do garoto. Não há um espírito de liberdade, isso não existe na obra de Truffaut. Se o espectador olhar com calma ele estará assistindo a um filho que brinca com a liberdade quando fuma um cigarrinho enquanto lê Balzac. É o estudante que, com a ajuda do melhor amigo, sente as ruas girar em espiral dentro de um brinquedo antigo de um parque de diversões. A liberdade de Antoine Doinel está na construção da fuga, está na corrida incessante em busca do não se sabe o que, está, inclusive, nos olhos da amizade amada, perdida e tão doída.

Para além da denúncia que se constrói da relação pais/filhos, professor/aluno e Estado/indivíduo, Os Incompreendidos é o baque surdo que sofremos ao misturar momentânea felicidade com a permanente solidão daqueles que estão começando a vida.


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