12/04/2017 às 21h51min - Atualizada em 12/04/2017 às 21h51min

O Lobo Atrás da Porta - Quando o suspense faz sua marca no cinema nacional

O desaparecimento de uma criança que chocou os anos 1960 na cidade do Rio de Janeiro é a premissa básica do primeiro longa-metragem de Fernando Coimbra. A história é desenhada na zona norte do Rio e coloca os pais Sylvia (Fabiula Nascimento) e Bernardo (Milhen Cortaz) contando suas versões diante do misterioso sequestro de sua filha. A imediata investigação do crime revela a tríade amorosa. Rosa, interpretada pela competente e talentosa Leandra Leal, surge como amante de Bernardo e também conta sua versão a polícia. A narrativa é construída através das versões levadas a delegacia. Há uma relação conflituosa entre os três, o que começa a configurar um certo estranhamento por parte de quem acompanha a narrativa. De imediato somos levados a pensar que quem de fato sequestrou a garota foi Rosa, a amante de Bernardo, mas sua versão dos “fatos” coloca no ar a desconfiança do espectador com todos os personagens envolvidos.

O diretor, ao fazer uso de closes fechados no rosto dos personagens potencializa o mistério, já que não nos é mostrado tantos detalhes da cena. O cenário é outro artifício que ajuda na construção do suspense e que aos poucos começa a perturbar quem assiste do outro lado da tela. As locações são reais, banais e prosaicas, ajudando ainda mais na confusão de quem poderia ser o vilão ou o mocinho nessa história, já que tudo é muito natural mas igualmente denso.

Talvez, um dos recursos mais interessantes da obra esteja logo na introdução, onde somos levados a acreditar que todo o mistério já foi solucionado. Essa falsa impressão faz com que quem assista espere apenas as peças se encaixarem – o que não acontece. Os três personagens são mergulhados em ambiguidades, mas o destaque vai para o personagem de Leandra Leal, Rosa foge de todos os estereótipos daquela versão de amante criada para o cinema. Estamos diante de um ser que transpira a dualidade necessária para a trama tão profunda.

O Lobo Atrás da Porta é a verdadeira expressão dos sentimentos mais angustiantes que só amadurecem no decorrer da trama. Tudo se desenrola de forma tão naturalmente assustadora que o desfecho transmuta do suspense para o horror. A obra de Coimbra coloca o espectador preso na poltrona o obrigando a acompanhar a tensão única dos frames rápidos que constroem um poderoso mundo psicológico assustador. Não há discussões morais, somente é colocado em cena a maldade e o trágico como condição humana. Com o fim da narrativa, o espectador poderá se desprender da poltrona e seguir seu rumo, embora a surpreendente cena final o acompanhe por muito de modo a refletir acerca de toda a banalização do mal.


Link
Notícias Relacionadas »
Plantão
Atendimento
Envie a sua sugestão de notícia pelo PLANTÂO.