30/03/2017 às 20h23min - Atualizada em 30/03/2017 às 20h23min

Eles não sabem o que fazem

Há algum tempo eu conversava com uma amiga – ainda era tempo dessas preocupações políticas que passaram pelo Brasil. Cansada e triste ela dizia que o mundo ia de mal a pior. O cansaço era porque ela tentava, insistentemente, melhorar a situação, mas dizia parecer impossível. Daí veio a tristeza: “ora, as pessoas parecem não conseguir entender, só podem ser estúpidas!” Com isso, ela se sentia impotente e sem esperanças. Ela disse que em momentos como este, gostaria de ser como Deus, ter força e poder para conseguir realizar seus intentos, melhorar o mundo.

Ter poderes parece resolver questões como estas. Os pensamentos mágicos e místicos sempre amenizam tais angústias. Nas histórias de super-heróis é comum um momento inicial em que eles são amados pelas pessoas graças ao bem que fazem à humanidade. Mas logo vem um período em que são odiados, porque facilmente se tornam duros ditadores ao tentar melhorar o mundo e nos proteger.

Embora possa parecer assunto de simples histórias para jovens, as histórias de super-heróis são posturas bem comuns em nossas vidas: esse desejo de onipotência e de zelar pelo bem da vida das pessoas. Os pais podem se tornar mestres nisto e assim como os heróis, acabam se tornando ditadores dos filhos. Claro, perto de ditadores não é difícil se tornar rebelde, e talvez seja até necessário certa rebeldia.

Não é tão obvio, mas tudo isso não passa de ilusão, porque afinal não somos nem podemos ser superpoderosos. Vivemos todos essa condição humana, trágica, de uma busca sem-fim até o fim da busca.

Minha amiga se tornou convicta de que tinha a solução para resolver os problemas que afetam a todos. É certo que alguém, um desses que se opunha à ela, também poderia ter pensado que ela mesma só poderia ser tola por não conseguir entender que estava errada. O desejo de superpoder é o desejo de poder fazer ‘apesar de’ qualquer condição.

Mas o problema não é só esse. Além do sofrimento, essas pessoas seguras de que realmente sabem o que é o melhor e de que os outros não sabem de nada, logo encontram uma alternativa. Eles, os que sabem, devem decidir pelos que não sabem, mesmo contra as inocentes e iludidas vontades destes. Pode até ser necessário ir contra a liberdade destes iludidos, por um motivo imperioso, que é proteger-lhes deles mesmos. Querer um mundo melhor pode se tornar bem perigoso.


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