20/09/2016 às 10h30min - Atualizada em 20/09/2016 às 10h30min

História para crianças antigas - Carlos Emílio Faraco

As duas peles da princesa A voz potente do rei tece um manto de esconjuros sobre a princesa desnuda. Um manto tão encorpado que ninguém vê em qual pele se instaurou o pecado perpetrado em escuridão: se na pele da princesa, se na pele da cidade, já que a pele da primeira é escrava da segunda, sendo apenas um suporte para uma pele mais forte: a pele trançada em lei, com o cordame do rei. Caminha a nívea princesa quase nua e esconjurada. Hora de ser castigada por ter maculado a vida que mesmo não sendo dela era dela conduzida. A herança que do pai lhe veio diretamente sepultara na nascença, o coração em descrença. Pois foi esse coração que, bêbado de heresia, resolveu se entregar ao cheiro da maresia que da boca marinheira no porto se desprendia. E dando a pele primeira ao mais puro macular, a princesa se entregou ao marinho despertar. E já quase desnudada a princesa condenada chega sóbria ao cadafalso. De gentes bem rodeado, o patíbulo aos poucos vai se tornando encantado. E a princesa desnudada aos poucos se descolando da pele a ela imposta, deixa à mostra tão somente o cetim já recompost da pele primeira exposta. Logo um “Oh!” de grande amor plana da multidão quando da pele primeira ressalta-se, à luz do sol, a figura de um dragão: o mesmo que desde outrora apavorava o reino a cada raiar de aurora. A todos foi dado saber que a princesa se doando a dragão tão ancestral livrara por tanto tempo a cidade de seu mal. Porém já era passada a hora de lamentar: o dragão se fez enorme e da pele da princesa decolou para o oceano de onde podia voltar. A cidade apavorada gemia toda a rezar E a princesa, destroçada, talhou-se um esquife de mar.
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