27/02/2017 às 20h07min - Atualizada em 27/02/2017 às 20h07min

Quem motiva o motivador?

O filme “O Palhaço” discorre, principalmente, sobre um estado, um sentimento, que é característico a todo indivíduo, se manifestando neste pelo menos uma vez na vida. Ninguém é impassível ou deixa de receber uma “visita” dessa “entidade” em pelo menos alguma ocasião. A melancolia é algo inerente (e, provavelmente, extremamente necessário) à alma humana. A obra não disserta “apenas” sobre a melancolia, mas também sobre todas as dúvidas e incertezas, de diversas ordens, que a ela se seguem, que nos assolam frequentemente, inclusive às relacionadas à procura do ser humano pela própria essência e identidade. O estereótipo do palhaço triste, que faz todo mundo sorrir e rir, menos si próprio, é conhecido e já foi retratado de diversos modos, tanto no cinema quanto na literatura, assim como na “vida real”. A fim de ilustrar tal condição retratada na “vida/mundo real”, no dia 11 de agosto de 2014, aos sessenta e três anos, o célebre ator e “palhaço” norte-americano Robin Williams (“Sociedade dos Poetas Mortos”, “Gênio Indomável” etc.) tirou a própria vida, deixando os seus admiradores e seguidores atônitos e devastados. No âmbito musical, o conjunto britânico de Heavy Metal, Iron Maiden, compôs uma canção que integra o seu mais recente álbum de estúdio, “The Book Of Souls”, lançado no dia 4 de setembro de 2015. Com o nome autoexplicativo, “Tears Of A Clown” (“Lágrimas de um Palhaço”, em tradução livre), a música foi dedicada ao ator em questão, abordando de modo bem tocante e criativo as angústias de quem se fantasia, literalmente e interiormente, é necessário mencionar e frisar, vivendo e “encenando” para trazer alegria aos outros, contudo não necessariamente “achando” a própria, ou mesmo se importando com isso. Para se ter noção do teor e da riqueza do conteúdo lírico, se abre espaço, em certo momento, ao questionamento de “quem motiva o motivador?”, questionamento este que tem relação direta com o filme em análise e singularmente com o personagem de Selton Mello. Voltando a mencionar brevemente sobre Robin Williams, ele era conhecido em seus filmes pelo seu sorriso bucólico, melancólico e olhar profundo, e tinha o poder de fazer o público se emocionar e, ao mesmo tempo, gargalhar, tudo de forma bastante particular e singular.

Em “O Palhaço”, dirigido por Selton Mello, que também protagoniza a trama, sendo o próprio Pierrot, com roteiro assinado por ele e por Marcelo Vindicatto, temos um zelo bastante considerável em vários aspectos, tanto no que diz respeito às imagens, de muito bom gosto e que muitas vezes “falam por si só”, sem muita necessidade de palavras (afinal de contas, o silêncio pode transmitir uma série de emoções, sentimentos e mensagens, não é mesmo?!) quanto ao roteiro, às falas e aos próprios personagens, que, mesmo sendo trabalhados em diferentes “níveis de aprofundamento”, sempre passam uma mensagem e características fortes e bem delimitadas/estruturadas. Tanto as falas quanto as mensagens e personagens podem, talvez, ser consideradas “simplistas” por alguns, fazendo referências claras à cultura popular brasileira de várias maneiras, mas é justamente aí que a trama conquista e emociona o espectador. É exatamente aí que encontramos um dos grandes trunfos da obra: emocionar sem ser “piegas” e apelativa, recorrendo ao próprio imaginário e terreno dos “homens comuns”, que trabalham dia após dia, muitas vezes acumulando bolhas nos dedos, por um retorno financeiro quase que insignificante. Esses “homens comuns”, que muitas vezes são protelados e desvalorizados pela sociedade, pelo linguajar utilizado e pelo jeito “caipirês” e simples. Esses “homens comuns” que muitas vezes são considerados “invisíveis”.

O filme retrata o cotidiano de um circo itinerante, o “Circo Esperança”, que viaja por diversas regiões do país, locais, em sua maioria, considerados mais “humildes”, com a finalidade de poder levar um pouco de alegria às pessoas e também, claro, garantir o próprio sustento e sobrevivência. Na pele do palhaço Benjamin, Selton Mello dá vida a um personagem introspectivo e em busca da própria identidade, literalmente – diga-se de passagem -, já que o fato de não possuir RG e CPF o afeta profundamente. Ao lado de sua “família” circense, e isso inclui o seu pai Valdemar (Paulo José) e a pequena e atenta Guilhermina (Larissa Manoela), o Pierrot se sente perdido e atormentado diariamente por aquela velha questão: “Eu faço o povo rir, mas quem é que vai me fazer rir?!” (“Quem motiva o motivador?”). Tudo isso, aliado ao desgaste e ao cansaço naturais causados pelas frequentes viagens e pela dificuldade em viver e montar um circo em cada cidade que excursiona, torna as circunstâncias ainda mais intensas e “dramáticas”. O “Palhaço Pangaré” (personagem que o Benjamin dá vida nas apresentações circenses) tem o dom natural de proporcionar alegria à plateia, fazendo-a se esquecer um pouco de todos os “espinhos”, rusgas e tristezas causadas pela “imprevisibilidade de viver”. Porém, quando “sai do personagem”, Benjamin se vê perdido e atordoado, em um estado de crescente torpor, sem saber quem é, o que tanto o aflige e o que realmente deseja. Sendo o Benjamin, ele é um homem de poucas palavras, se “destacando” pelo sorriso triste (qualquer similaridade com um ator já citado anteriormente é mera coincidência!) e pela dificuldade extrema em se comunicar e se expressar, mesmo com o seu próprio pai. Apesar de tal personalidade e temperamento, ele é uma espécie de “porto seguro” e pilar para todo o grupo, que sempre o procura por qualquer dúvida ou razão, seja pela necessidade de comprar um sutiã novo (!) ou para receber o salário antecipadamente. Mas, muito mais do que isso, emocionalmente falando, ele é de extrema importância para toda a família e a sua estrutura, a despeito de todas as suas “limitações comunicacionais” e psicológicas. Ele funciona, de certo modo, como um elemento de união, um elo existente entre todos os outros personagens.

O enredo se constrói de modo inteligente e certeiro, dando destaque sim ao personagem Benjamin, mas não fazendo disso um impedimento em mostrar um pouco da história de vida e particularidades dos outros, permitindo que o espectador “enxergue”, igualmente, os acontecimentos através dos “olhos” destes. Para exemplificar tal colocação, o público, em vários momentos, “acompanha” os olhares concentrados da menina Guilhermina, filha de dois artistas da companhia, por quem Benjamin nutre especial apreço e carinho. É notável o quanto uma figura que, pelo menos a princípio, poderia ser considerada uma mera coadjuvante, ganha destaque de modo brando e gracioso, dando novos contornos e “cores” a cenas que poderiam ser interpretadas de forma mais literal, caso fossem abordadas distintivamente.

Uma simbologia deveras interessante utilizada notadamente, tanto como parte que tem ligação direta com o logotipo do filme quanto em vários outros momentos da trama, é o ventilador, que adquire um significado especial ao personagem Benjamin. Ele enxerga no ventilador um importante instrumento que pode lhe proporcionar alternativas, mudanças, “movimentos”. Isto é, o papel deste é dar significado a si próprio e à sua vida, afinal de contas, o cotidiano duro nas estradas, jungido às constantes viagens e à condição da “depressão”, o tornam um ser errante em busca de uma razão e explicação para a própria existência infeliz. O ventilador, então, participa do seu processo e batalha interior à procura do seu “próprio eu”, da sua própria identidade.

No que concerne ao jogo de câmeras presentes no filme, este faz com que o espectador se sinta ora como a plateia de um espetáculo circense, ora como os próprios artistas em ação, acompanhando a reação e risos do público. Isso certamente contribui consideravelmente para a imersão do espectador na trama, fazendo com que se sinta parte desta. O jogo de imagens e os personagens, que fazem referência aos “palavreados” e aos hábitos populares, também contribuem para esse mergulho, fazendo com que o indivíduo se relacione e se “enxergue” nos próprios, o que dá um caráter de verossimilhança a muito do que ocorre na história, dando “toques” e “ares” especiais a esta.

“O Palhaço” pode ser enxergado e compreendido como uma obra que se preocupa com a cultura popular nacional, não a expondo, todavia, de forma apelativa e esdrúxula. Há uma preocupação clara em relacionar essa cultura à própria identidade dos personagens. Essa última colocação apresentada pode soar pueril e tola, porém não deixa de se mostrar verdadeira durante o desenvolvimento do enredo. Através da “simplicidade” (e sabedoria!) dos hábitos e pensamentos populares, Benjamin procura respostas para si mesmo e, mais do que isso, busca a própria identidade. Tudo isso é retratado de forma natural, não soando como algo “panfletário” ou com teor patriótico. Dentro desse contexto, “O Palhaço” pode sim estar “seguindo a trilha” que outros filmes nacionais têm seguido, no sentido de valorizar e abordar a própria “história brasileira”, por mais sofrida que esta possa ser, porém não o fazendo de modo oportunista, e sim de maneira “legítima” e genuína, não categorizando as pessoas e hábitos em “graus de importância”, não as colocando em “castas”. Trabalhando com a “simplicidade” das palavras, dos gestos e até com o próprio silêncio dos personagens, a obra expõe o lado verdadeiramente humano destes e como eles podem ser, ao mesmo tempo, tão “iguais” e tão completamente “diferentes” em suas essências e identidades. Os hábitos de teor popular podem uni-los (ou mesmo afastá-los), mas a questão é que todos possuem uma mágica e “aura” singulares. Por mais, por exemplo, que Benjamin possa ser considerado o protagonista e o elo entre grande parte dos personagens, isso não o coloca absolutamente como o “mais importante e influente”. Todos têm os próprios “olhares”, sentimentos e anseios. Por fim, os “artefatos populares” entram aí como modo de humanizar e igualar todos os indivíduos, garantindo a estes, simultaneamente, um caráter identitário muito particular.

Retornando à questão dos posicionamentos de câmeras, o cinéfilo e crítico Marcelo Hessel reforça o que já foi trabalhado em parágrafos anteriores, quando afirma que “os enquadramentos geométricos transformam toda situação num palco em potencial.”. [...] “Isso fica mais evidente no plano (também geométrico) em que Jorge Loredo conta uma piada, sentado na ponta de uma mesa. A piada nem é tão boa assim, mas a interpretação do eterno Zé Bonitinho a melhora consideravelmente.”. (HESSEL, Marcelo. O Palhaço / Crítica. Disponível em: <http://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/o-palhaco/?key=61141>. Acesso em: 20 de fevereiro de 2017.). Tal afirmação aborda exatamente a questão do envolvimento do espectador à trama, fazendo com que este se integre de “corpo e alma” às nuances desta, se relacionando e se identificando, de modo maciço. O aspecto da “espetacularização” e da “teatralidade” não tira do filme o caráter de naturalidade e verossimilhança, já que a encenação não deixa de ser um modo de transmissão de sentimentos, mesmo que de “sentimentos criados”, como alguns podem “bravejar” em alto e bom som. No caso de “O Palhaço”, tal artifício proporciona ao público o acesso a vários “olhares” diferentes, de forma que este pode formar o seu próprio, assim como escolher e consolidar as suas opiniões. Ou seja, não se trata de apenas “enxergar” um lado da história e o “mocinho” da trama, por exemplo, mas visualizar também as várias facetas e dualidades, fugindo do óbvio e do pré-estipulado. Um personagem “comum” e “imperfeito” como o Benjamin ilustra isso de modo bem preciso, uma vez que não se enquadra no estereótipo do “mocinho” corajoso e herói. Trata-se de um “sujeito normal”, de “gente como a gente”, que procura significado para os acontecimentos, coisas ao seu redor e, principalmente, para si mesmo. Isso invariavelmente aproxima o público, o deixando atento do início ao fim.

Uma cena que chama a atenção quanto ao enquadramento das câmeras é a despedida de Benjamin ao “Circo Esperança”, quando este, em busca da própria identidade e significado, o abandona, com a intenção de mudar de “ares”. Através do Plano Geral, o público visualiza os veículos já a postos para partir, transportando o “circo” e todos os seus acessórios. A finalidade de tal enquadramento é reforçar a melancolia e a emoção inerentes a qualquer tipo de despedida. Nessa cena em particular, não são necessárias palavras. As imagens e a trilha sonora envolvente dominam e passam toda (s) a (s) mensagem (ns). A despedida entre pai e filho (Valdemar e Benjamin) é realizada de modo silencioso. Isso, porém, não isenta a cena de uma alta e genuína carga emocional. Quando os veículos realmente partem e Benjamin fica “só”, há um momento em que sua sombra fica em evidência, assim como o seu corpo, do pescoço até a cabeça. Nesse ponto, a ideia passada, provavelmente, é a de não se prender a uma referência corporal exata e específica, mas sim salientar o sentimento de solidão existente no âmago do personagem.

O cuidado com a linguagem e as imagens é algo que, certamente, merece ser mencionado em mais de um momento. Com uma linguagem mais “simples” e de fácil entendimento/compreensão (o que, seguramente, não pode ser visto como um ponto negativo), além do elenco repleto de atores consagrados e respeitados no meio televisivo, há, aliada a essa simplicidade, um requinte e meticulosidade que “saltam aos olhos”. Como já mencionado, o drama presente no filme não soa, pelo menos em considerável parte do seu tempo, “piegas” e exagerado, apelando para o choro e a emoção “mamão com açúcar”. Há um cuidado especial quanto à escolha de imagens, à exposição dos temperamentos e principais características dos personagens e ao modo como estes se interagem entre si e com o próprio mundo ao seu redor. A trilha sonora de Plínio Profeta se casa muito bem à atmosfera da trama e do próprio Benjamin, assim como o “silêncio” presente em certos momentos soa como uma “voz ativa, altiva e clara”, dado o seu nível de profundidade e enquadramento das câmeras. Lançando mão de um roteiro delicado e bonito, “O Palhaço” tem todos os atributos para conquistar o espectador prontamente, não deixando de lado, entretanto, dentro de toda essa sutileza, espaço para diversas reflexões que dizem respeito intimamente à própria questão existencial humana.


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