24/02/2017 às 15h07min - Atualizada em 24/02/2017 às 15h07min

O desafrouxar de dois artistas e eternos amantes

O livro “Só Garotos” retrata uma história de um sentimento que transpõe barreiras e rótulos, tendo como palco a criativa e inquieta cidade de Nova Iorque

É difícil dizer o que mais chama a atenção em “Só Garotos” (“Just Kids” (Título Original)). Talvez o que mais salte aos olhos prontamente é o estilo de escrita e a linguagem utilizada por Patti Smith. Em primeiro lugar, o formato do livro, que se enquadra mais no tradicional de memória, possui traços e elementos romanescos, justamente pelo modo como a autora conduz e “costura” a trama, atribuindo a esta certa linearidade e tratando “pessoas e cenários reais” como personagens. Muito disso pode ser explicado, provavelmente, pelo seu envolvimento profundo, desde a mais tenra idade, quando ainda vivia no Estado de Nova Jersey, com a literatura e a arte, de um modo geral, o que a fez se enxergar como uma artista e considerar viver uma jornada em busca de sua própria vocação e, invariavelmente, de si mesma e da própria liberdade. Aliás, a liberdade é uma condição/sentimento muito abordado no livro entre os personagens, e a sua significância se confunde com o próprio cenário artístico, cultural e histórico de Nova Iorque da década de 60 e 70. Afinal de contas, para muitos, a liberdade e a arte possuem relação íntima e direta.

Pode-se reputar que o foco do livro, além da própria e constante jornada de autodescoberta da autora como artista e também como individuo - o que a fez abandonar a casa dos pais e a faculdade para se deslocar para a efervescência cultural de Nova Iorque no final da década de sessenta, com apenas 20 anos e um livro de Arthur Rimbaud -, é a ligação profunda que construiu quase que instantaneamente com Robert Mapplethorpe, fotógrafo e artista multifacetado, que, como ela, tinha uma relação identitária profunda para com a arte, buscando reconhecimento através do seu dom, bem como a descoberta do seu “próprio eu”. O relacionamento dos dois, que se desenvolveu de modo muito rápido, não pode ser considerado necessariamente “convencional”, mas, ao mesmo tempo, apresenta uma profundidade e peculiaridade que prende a atenção do leitor de imediato. Primeiramente, ambos se consideravam artistas na verdadeira acepção da palavra e isso, por si só, já os uniu prontamente. Nesse ínterim, a jornada dos dois é, de certa maneira e até certo ponto, única, o que fez com que eles construíssem um mundo próprio, no qual ninguém entendia a linguagem utilizada por eles, não do mesmo modo que eles mesmos. Há, então, uma cumplicidade mútua em relação à arte que cada um deseja expressar e explorar, o que se identifica com o próprio amor que nutrem um pelo outro. Ou seja, a arte se confunde ou, melhor dizendo, anda de “mãos dadas” com a paixão, com o amor e com a própria busca pela liberdade e pelo autoconhecimento.

Levando-se em consideração, novamente, o formato e a estruturação do livro, nota-se, como já mencionado anteriormente, características advindas do romance, como a abordagem e a “construção” dos personagens, mesmo tendo em conta que o livro relata acontecimentos factuais envolvendo pessoais reais (obviamente de acordo com a perspectiva da própria autora). O estilo de escrita preciso e repleto de referências à cultura pop apenas facilita o processo de entendimento e imersão do leitor a toda a trama, tornando-a envolvente e bem elaborada. As circunstâncias históricas são mencionadas, principalmente as que se referem às de ordem artística, nos relatos de encontros com diversos artistas, em especial no período em que Patti e Robert residiram no Hotel Chelsea, reduto de vários intelectuais da época. Dentro do exposto, é interessante apontar o quanto as localizações tradicionais de Nova Iorque também, ao seu modo, são personagens ativos na trama, sendo descritas de forma detalhada e não funcionando apenas como um cenário qualquer, mas como um complemento para a interação e a relação entre as pessoas, de uma maneira geral, em especial as de Patti e Robert.

No que diz respeito às múltiplas referências utilizadas, elas não funcionam de modo aleatório e arbitrário. Quando a autora aponta, por exemplo, o falecimento de ícones como John Coltrane, Janis Joplin, Jimi Hendrix e Jim Morrison, ela o faz “costurando” todos esses acontecimentos trágicos não apenas à sua história e à sua trajetória, já que conheceu muitos desses artistas pessoalmente e em vida ou os tinha como ídolos, mas também ao impacto que todas essas perdas trouxeram para a comunidade artística e para a cidade de Nova Iorque como um todo no período.

Já quando se refere a eventos que assolaram os Estados Unidos à época, como a Guerra do Vietnã, não faz uso de um tom político ou necessariamente contestatório/indutor. Ela apenas os encaixam ao contexto da trama e relata um pouco sobre como eles afetaram a comunidade artística na qual circula e se considerava inserida.

Os encontros de Patti Smith com figuras artísticas já proeminentes ou em ascensão são narrados de um modo que envolve o leitor, porém não apelando para a glamourização simples e barata. Tudo é narrado como sendo parte de sua própria história e da sua construção pessoal. É imprescindível lembrar que ela era muito jovem no tempo retratado e se encontrava em uma constante jornada de autodescoberta, entre os vários estágios de dificuldades pelos quais passou ao lado de Robert até o momento em que adquiriu reconhecimento através do seu esforço e vocação artística. Isso certamente faz com que o leitor se sinta um “personagem adicional”, se identificando e sentindo um pouco o que a protagonista sentiu naquele momento, já que esse elemento “humanizador” o aproxima, inclusive, de si mesmo. É justamente aí que reside um dos maiores trunfos da escritora e compositora, que através da sua sensibilidade e escrita literária aguçada, porém não necessariamente “sofisticada”, se mostra uma boa contadora de histórias, mantendo o leitor atento e curioso, “preso” às páginas. Quando, em certo momento do enredo, é narrado o dia em que conheceu no El Quixote, um bar-restaurante anexo ao Hotel Chelsea, visitado frequentemente por inúmeros ícones, artistas célebres como Jimi Hendrix, Grace Slick e Jefferson Airplane, dentre outros tantos, o faz de maneira certeira, já que opta por passar ao leitor exatamente a percepção que teve à época do ocorrido, com um olhar de uma jovem que queria encontrar o seu lugar no mundo, sem invencionices e a utilização de elementos de teor mais sentimental e emocional. Apesar de estar no meio de tantas figuras ilustres, ressaltou que não se sentia uma intrusa e sim parte integrante de toda aquela comunidade, o que batia com a sua convicção de enxergar a si própria como uma artista.

Ao lado do seu eterno companheiro Robert Maplethorpe, Patti passou por momentos de extrema dificuldade, tanto no que tange a encontrar moradia (ou simplesmente um lugar para passar a noite) quanto para se alimentar. Aliás, desde a sua chegada à cidade, no final da década de sessenta, ela foi obrigada a lidar com as várias facetas imprevisíveis de Nova Iorque, sentindo em certos momentos a hostilidade e em outros a cumplicidade e a gentileza dos que estavam passando, assim como ela, por situações difíceis e delicadas. E é precisamente nessa narrativa que ela, mais uma vez, se destaca e chama a atenção, com toda a delicadeza, encanto e suavidade de sua escrita. Em momento algum ela trata necessariamente a si mesma e a Robert como vítimas ou párias da sociedade, bem como não se utiliza de recursos literários que poderiam reforçar o drama e o sofrimento que, de fato, passaram em várias ocasiões. É aí que ela mostra, mesmo diante de fases de fraquezas, incertezas e desorientações, a sua convicção e força em relação à decisão de viver pela arte, o que a levou a deixar tudo para trás em Nova Jersey.

Como já destacado em mais de uma ocasião, o relacionamento dela com Robert dá, de muitas maneiras, a tônica ao livro. A ligação dos dois é algo que se origina de um grau de identificação muito alto, tanto no que concerne aos pensamentos e aptidões quanto aos desejos, sonhos e propósitos. Ambos, em certo momento da vida, decidiram se entregar de “corpo e alma” à arte, considerando-a a sua condição de prosseguirem caminhando e existindo. A arte era algo realmente compartilhado e exaltado pelos dois e eles faziam questão de apoiar um ao outro em seus projetos, a todo o custo, de forma que eles pareciam sempre estar andando na mesma direção e “estrada”. A arte e o amor os uniram permanentemente, mesmo quando já não eram mais um casal propriamente dito.

Outro ponto que chama muito a atenção no livro é a honestidade contida nas palavras da autora. Ela não se coloca em um patamar superior ao leitor ou aos outros personagens, expondo abertamente as suas fraquezas, a falta de conhecimento em relação a alguns temas e condições, bem como os seus receios. Quando começa a desconfiar da sexualidade de Robert e que ele estava se envolvendo com outros homens, passa por dualidades e dúvidas em relação a tudo aquilo. Parafraseando a própria, ela enxergava o homossexualismo como algo associado diretamente à afetação e ao exagero. Dentro do seu desconhecimento e preconceitos introjetados, a “homossexualidade era uma maldição poética”. Entretanto, através do vínculo e amor incondicional que possuía por Robert, procurou se “desamarrar” de tudo isso e apoiá-lo em um estágio de mudança tão crucial e delicado, uma fase de descoberta e de redenção. Mesmo após a “separação física e carnal”, ambos não deixaram de necessariamente ser um casal e eternos companheiros, tanto na arte quanto na vida (há diferença entre uma e outra?!). Eles passaram sim a se relacionar e a se envolver com outras pessoas, mas nunca deixando de se encontrar, trocar confidências, artes e a apoiarem um ao outro. Os próprios companheiros deles enxergavam com naturalidade o relacionamento dos dois, não se intrometendo ou querendo separá-los. Mesmo se tentassem, no final das contas, um sempre escolheria ficar ao lado do outro. Essa era uma promessa levada muito a sério por ambos.

Na infindável busca pela realização e entendimento artístico mútuo, Patti e Robert formaram uma aliança impossível de ser destruída. Mesmo diante de toda essa luta, comprometimento, perdas e ganhos, ambos guerrearam diariamente, principalmente contra os próprios anseios, medos, “anjos e demônios”, não sabendo se um dia se encontrariam por completo e se sentiriam realizados e reconhecidos plenamente por suas aptidões artísticas. Já no seu leito de morte, no final da década de oitenta, Robert, que estava sofrendo com os efeitos destrutivos da AIDS, perguntou à eterna companheira, amiga e amante: “Patti, será que a arte nos entendeu?”. Ela não soube respondê-lo de modo exato, até porque estava atormentada com a real perspectiva de perdê-lo brevemente, mas, quanto a isso, não há muitas dúvidas ou muito a se alongar e explanar. A arte não os entendeu, ela simplesmente os abraçou, os beijou e reverenciou as suas obras. Por favor, prezado leitor, leia esse livro. Como diria o escritor americano Stephen King: “a magia existe”.

 
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