21/02/2017 às 12h42min - Atualizada em 21/02/2017 às 12h42min

Análise: Um Sonho de Liberdade

O drama norte-americano “Um Sonho de Liberdade” (cujo título original é “The Shawshank Redemption”), lançado no dia 23 de setembro de 1994, dirigido por Frank Darabont e estrelado por Tim Robbins e Morgan Freeman, é uma obra repleta de predicados e momentos marcantes. Ele é baseado no conto do escritor Stephen King, intitulado “Rita Hayworth And Shawshank Redemption” (“Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank”), presente em seu livro “Different Seasons” (“Quatro Estações”, publicado no Brasil pela Editora Objetiva).

Diferentemente de várias outras obras do chamado “Mestre de Terror”, a trama foge dos aspectos e elementos paranormais e assustadores comumente abordados em seus trabalhos. O foco em “Um Sonho de Liberdade” vai muito mais para o lado de uma “análise” da psique humana e de várias das suas nuances, assim como o modo como cada indivíduo lida com as dificuldades e as intempéries da vida, em especial à condição de ficar encarcerado por muitos anos, do que para o terror e suspense propriamente ditos.

O filme narra a história de Andy Dufresne (Tim Robbins), um banqueiro jovem e bem-sucedido condenado a duas prisões perpétuas consecutivas, apesar de clamar pela sua inocência a todo o momento, por ter sido acusado do assassinato da esposa e do amante. Durante o seu tempo de encarceramento, se tornou muito próximo à Ellis Boyd “Red” Redding (Morgan Freeman), que era tido como o indivíduo que tudo poderia conseguir na prisão, desde cigarros até pôsteres de atrizes famosas. Após um mês lá, Andy o abordou pela primeira vez e perguntou se este poderia lhe arrumar um pequeno martelo e um pôster da atriz Rita Hayworth. A partir daí, a amizade se desenvolveu bastante.

Um ponto que chama muito atenção na trama é a persistência e a fibra do personagem interpretado por Tim Robbins. Sentenciado, como já exposto, a duas prisões perpétuas consecutivas pelo assassinato da sua esposa e do amante dela, Andy se vê obrigado a se adaptar a uma vida completamente diferente da que tinha antes da acusação, na Penitenciária Estadual de Shawshank, localizada no estado do Maine. Se antes era um célebre bancário, com estudo e vida confortável, passa a viver em um meio muitas vezes amedrontador e pouco receptivo, entre “vários muros” e privado de sua própria liberdade e autonomia. Apesar de todas essas circunstâncias, Andy surpreendentemente se adapta do melhor modo possível ao ambiente carcerário, não se abalando diante das dificuldades e sempre procurando seguir em frente. Essa postura, inclusive, foi um pouco mal interpretada por alguns de seus colegas, já que passava a impressão de certo “ar de superioridade”. Aos poucos, Andy passa a conquistar o afeto de outros companheiros e funcionários, principalmente após a solidificação da amizade com Ellis Boyd “Red” Redding, interpretado magistralmente por Morgan Freeman. Não seria justo deixar de fazer uma menção à parte para o ator, que foi escolhido pelo diretor e roteirista Frank Darabont “a dedo”, em um time que tinha concorrentes de peso como Clint Eastwood, Robert Redford, Paul Newman e Harrison Ford. No conto publicado originalmente em “Quatro Estações”, o personagem era um ruivo irlandês, mas, mesmo assim, Morgan Freeman foi o ator escalado para dar vida a ele, por sua personalidade e temperamento ímpares, de forma que o diretor não enxergava ninguém melhor para fazer isso. Assistindo atentamente ao filme, vemos que a decisão foi mais do que acertada, de maneira que o ator foi indicado à categoria de “Melhor Ator”, no Oscar de 1995.

Como já mencionado, a postura de Andy é algo que toca bastante a quem assiste ao filme. A despeito de todas as dificuldades óbvias enfrentadas em um ambiente tão hostil e imprevisível como a prisão, ele procura sempre manter a esperança e a “luz própria”, se agarrando a pequenos, mas preciosos momentos e detalhes, a fim de não enlouquecer e perder a própria identidade e essência. O seu amigo Red não concorda com essa postura, pois a enxerga como uma forma de levar o indivíduo à loucura e à alienação, mas, intimamente, não deixa de admirá-lo e de se impressionar com Andy, que se mostra extremamente resistente às provações, incluindo uma época em que ficou na solitária por um período de duas semanas e de lá saiu com um “sorriso no rosto”. Aos seus amigos, explicou que durante o confinamento ficou acompanhado, em sua mente e em seu coração, da obra do compositor Mozart, e isso lhe deu força e energia, já que ninguém poderia tirar de si a música e o contentamento provocado por ela. Dentro dessa premissa, exprimiu o quanto a vida não faz sentido sem a esperança, apesar de todos os percalços e tragédias, já que esta é algo inatingível e infinito.

Outros pontos que “prendem” a atenção do espectador são as análises e pensamentos feitos pelo personagem Red, que suscitam muita reflexão. Em certo momento da trama, após o suicídio do antigo bibliotecário da prisão, Brooks Hatlen (James Whitmore), que ficou preso por cinquenta anos e à época tinha sido libertado através da condicional, Reddescreve os muros da prisão, não no sentido literal e simples da palavra, mas de modo mais vasto. Após ser abordado por um companheiro a respeito das razões que Brooks teve para matar a si próprio, ele afirma que aqueles muros passaram a ser o mundo do idoso. Na Penitenciária de Shawshank, ele tinha prestígio, por ser considerado um homem culto e inteligente, tendo o respeito de todos (tanto dos colegas quanto dos funcionários da penitenciária) e seguindo uma rotina fixa e linear, sem maiores surpresas. Ou seja, ele sentia “pertencer” àquele mundo, de fato, à prisão, mesmo com a privação à liberdade e com a violência e agressividade enfrentadas em alguns momentos. Já no “mundo lá fora”, ele era apenas “mais um”, ainda por cima carregando o pesado estigma de ex-presidiário. Era um mundo totalmente desconhecido e novo para ele. Seguindo a linha de raciocínio do personagem de Morgan Freeman, os muros são, inicialmente, objetos de ódio e fúria, mas com o passar dos anos se tornam símbolos de dependência e, por fim, podem até mesmo tirar a vida do prisioneiro, tanto no sentido figurado quanto no literal. Como bem descreve o próprio, “te mandam ficar aqui a vida toda e é a vida que acabam te tirando. A parte mais importante dela.”.

“Um Sonho de Liberdade” é uma obra repleta de tantas qualidades e memoráveis cenas que não seria exagero dizer que poderia se tornar objeto de estudo de uma tese de mestrado ou um livro à parte, que disseque as suas várias nuances e singularidades. Na maioria das vezes, poucos acreditam que uma adaptação cinematográfica possa se igualar em termos de qualidade à obra originalmente presente em um livro, porém este é um dos poucos casos em que isso ocorre efetivamente, de modo que tanto o filme quanto o conto se complementam e possuem vida e personalidades próprias. Podemos considerá-lo, de diversos modos, uma obra marcante e completa, seja na atuação dos artistas, no roteiro, na fotografia, na trilha sonora etc. Enfim, procure e ache a sua própria Zihuatanejo e nunca, nunca mesmo, perca a perseverança e a esperança.

*Obs: Zihuatanejo faz menção a uma cidade do Estado de Guerrero, no México. O personagem Andy Dufresne a descreve como uma espécie de local para se recomeçar a vida, por ser bem afastado e não tão conhecido.

Trailer do Filme


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