09/02/2017 às 07h31min - Atualizada em 09/02/2017 às 07h31min

Nós que aqui estamos por vós esperamos

O título da obra de Marcelo Masagão “Nós que aqui estamos por vós esperamos” retirado do letreiro de um antigo cemitério da cidade de Paraibuna, é uma clara sentença que além de nos assustar, entrega a humildade que pouco nos restara. Está no próprio aforismo o objetivo do documentário: pensar a banalização da morte e da vida de forma a criar uma reflexão no espectador acerca desse turbilhão.

O cineasta é claramente influenciado pela leitura de Eric Hobsbawm ao colocar em cena imagens poderosas do breve século XX. Acompanhado pela trilha sonora de Win Mertens, o documentário funciona como uma poesia desenhada pelos frames das imagens do século passado. O filme é um belíssimo tecido onde os recortes são magistralmente costurados de modo a criar uma narrativa onde a imagem envolve o espectador o fazendo pensar em um “plano da vida” ou que os acontecimentos possuam uma continuidade. O filme que conta com imagens do cinema clássico, pinturas, fotos e textos é considerado pelo diretor um documentário ficcional, mas que acima disso torna-se um filme memória, com imagens repletas de intencionalidades criando um texto que atravessa a grande tela.

O documentário não possui uma linearidade narrativa das representações dos fatos, e isso não é nada negativo, o cineasta resolve não fazer uso de atores ou narrador. Segue um estilo narrativo onde frases e imagens são apresentadas ao espectador com um impacto que vai além do que é visto. Ao começar a obra, o diretor coloca em tela a psicanálise de Freud e a física de Einsten, assim como as transformações ocorridas durante o século XX, como a industrialização, a fotografia, o telefone e a chegada do metrô. O autor toca em pontos que ainda hoje permanecem atuais mais assombrado por um conservadorismo esdrúxulo: a mulher e o mercado de trabalho onde a frase “garotas trocavam o corpete pela máquina de escrever” é muito bem colocada no texto da obra.

O filme fala de sonhos ao mesmo tempo que mostra a ingenuidade em distintos momentos. Como no caso de Arthur Bispo do Rosário, brasileiro que confeccionou uma roupa com asas para se encontrar como o Criador em 1980. Ou no episódio de 1911, onde o Alfaiate M. Reisfeld pula da torre Eiffel. São reflexos de um século de homens ingênuos e porque não vaidosos. É válido ressaltar que muito de positivo surgiu do século XX, como o alto desempenho das tecnologias, o crescimento das ciências, mas em contrapartida o consumismo desenfreado, a permissividade, a falta de informações que criam pessoas que não amadurecem, trazendo sempre a desorientação e inversão ao lado do pessimismo. É aqui que nasce a ansiedade repleta de maus presságios e falta de certezas de um homem que almeja a felicidade, embora termine sempre abraçando o provisório e o passageiro.

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