06/02/2017 às 16h41min - Atualizada em 06/02/2017 às 16h41min

A saga do Siderúrgica

Quase esquecido no ostracismo de Sabará, sua cidade natal, o Esporte Clube Siderúrgica é um dos mais tradicionais times do futebol mineiro. Há anos sem destaque, a equipe, também conhecida pelo apelido de Tartaruga, é bicampeã mineira da primeira divisão – ganhou os títulos de 1937 e 1964. Quase sempre que é notícia, o bicampeonato surge como uma espécie de cartão de apresentação.

Foi assim esses dias. “O Uberaba vai jogar com o Siderúrgica”, anunciaram. “Que time é esse?”, pergunta o torcedor menos atento ao futebol de antigamente. “Um time que já foi bicampeão mineiro”, responde o mais informado. O clube também já foi campeão da segunda divisão estadual e tem seis vices na divisão principal. Mas o passado de glórias é motivo apenas de saudade e nostalgia e hoje o Siderúrgica é mais um time do interior que pena para simplesmente continuar existindo.

Nos últimos anos, a equipe tentou ressurgir e reativou o futebol profissional. Disputou a Terceirona do Mineiro em 2015 e 2016, mas foi figurante. No primeiro ano, ficou em último lugar no grupo, com dois pontos em oito jogos. Marcou míseros dois gols. Na temporada seguinte, repetiu a façanha: foi o último colocado em uma chave de cinco participantes, com dois pontinhos. Pelo menos dessa vez marcou oito gols.

A Tartaruga, porém, não desiste - ou não desistem dela - e vai disputar de novo em 2017 a Terceirona (a Segunda Divisão, na prática, a terceira e ultima mesmo). A preparação começou cedo e neste fim de semana a equipe alviceleste esteve em Uberaba para dois jogos-treinos, um no sábado e outro no domingo (seriam três, mas o Atlético Uberlândia desmarcou o compromisso de sexta). Pois bem, no sábado, no Uberabão, o Siderúrgica tomou sonoros 9 a 0 diante do Uberaba Sport, equipe profissional que vem treinando desde novembro para o Módulo II. No domingo pela manhã, no JK, contra o time sub-20 do Nacional, um duelo mais equilibrado e vitória alvinegra por 3 a 0.

Cansaço e sonhos

Nas duas partidas, os mesmos jogadores. Todos jovens, na faixa dos 20 anos. Apenas três reservas. Enfrentaram o cansaço da viagem e fizeram um jogo no sábado à tarde e outro no domingo pela manhã. O futebol respira!

A goleada de 9 a 0 parece não ter sido considerada um vexame. O presidente do clube, o seu Gilberto Evangelista da Fonseca, disse que depois do jogo nem tocou no assunto, “porque mexe com a cabeça deles”. Mas o diretor Marco Antônio Lima falou que os jogadores aceitaram na boa o “chocolate”, como ele mesmo disse – afinal, a diferença técnica e física era evidente. No segundo jogo, a fadiga era ainda maior e o resultado não foi desonroso.

Seu Gilberto Fonseca (“uma perna fina, outra seca”, apresenta-se) diz que passou a vida no Siderúrgica. Esse amor não deixa o clube morrer. “Sempre morei ali perto do campo da Praia do Ó (como é conhecido o estádio Eli Seabra Filho), é minha segunda casa”.

Apesar das dificuldades, seu Gilberto vai botar o time no Estadual de novo. Para isso, espera alguma parceria para conseguir recursos e ter um elenco competitivo. O objetivo é revelar algum jogador ou entrar para disputar o acesso? “Não vamos só participar”, diz o dirigente. “Ainda vamos fazer uma seletiva, a gente almeja uma boa campanha. É um sonho ver o Siderúrgica de novo entre os grandes”, resume. Parece mesmo utopia. Talvez o objetivo não seja nem um nem outro dos citados. Somente colocar o time em campo.

Jogadores voluntários

No Siderúrgica, todos se ajudam e fazem de tudo um pouco. Ao lado de seu Gilberto, a jovem Gabrielle Celestino faz as vezes de assessora de imprensa e conta que os atletas jogam como voluntários. Um contraste gritante com o futebol dos clubes milionários. “Todo mundo pede ajuda para os custos das viagens, por exemplo”, revela.

Nem campo a equipe tem. “A Prefeitura é que toma conta do campo, vamos tentar um comodato para voltar a usar”, diz o presidente. Enquanto isso, os treinos são em campos emprestados.

Para jogar em Uberaba, o time saiu de Sabará, a cerca de 500 quilômetros daqui, viajou a madrugada toda e chegou por volta das 6h. Depois de jogar contra o USC, jantariam no CT Colorado. Dormiram numa pensão e foram enfrentar o Naça.

O mais experiente do grupo é o zagueiro Danilo, de 23 anos, que estava em Portugal, conta o diretor Marco Antônio de Lima, que também é radialista. Lima narrou os dois jogos da Tartaruga aqui em Uberaba. Ele é outro apaixonado pelo time. Pelo futebol. “Fui juiz durante 30 anos, quando parei de apitar tive que continuar de alguma forma no futebol, está na veia”. O locutor-diretor dá uma mão ao clube e transmite as emoções pelas ondas do rádio. Apesar da paixão, é mais ponderado. “Com esse time não dá pra disputar. Não temos apoio da Prefeitura, o presidente é brigado com o prefeito, aí nem campo temos. Você pode não gostar do político, mas tem que abraçar, cumprimentar, falar que é o melhor. Sem apoio não dá”, resume.

Contra o USC, o Siderúrgica jogou de uniforme branco com detalhes pretos. Contra o Nacional, que também usou branco, o jeito foi apelar para uma farda azul e vermelha, de improviso. A vestimenta azul e branca ainda não está pronta, informa Gabrielle. Se é que foi encomendada.

Segundo Lima, alguns jogadores estão registrados no BID. “Quem quiser contratar, eles podem jogar no mundo inteiro”.

História

Simpático, seu Fonseca relembra os tempos de glória do clube. “O Siderúrgica foi o primeiro clube mineiro a ter um jogador convocado para a Seleção Brasileira, o Paulo Florêncio, no Sul-Americano de 1942”, recorda, referindo-se ao jogador nascido em Itabirito (antes, o também mineiro Niginho tinha sido convocado, algumas fontes dizem que como atleta do Vasco da Gama, outras como atleta do Cruzeiro, então Palestra).

A escalação do time campeão de 1964 está na ponta da língua. “Dejair, Zu, Chiquito, Zé Luiz e Dawson, Edson e Noventa, Ernani, Silvestre, Paulista e Tião”. O técnico era Yustrich.

Um jogo contra o Cruzeiro, em que Yustrich já era o treinador da Raposa, é lembrado com humor. “O Cruzeiro ganhou de 2 a 1, mas o Hamilton, que estava fazendo testes, fez um gol, e o Yustrich ficou uma fera por ter tomado um gol. Ele mandou saber quem era aquele que tinha feito o gol, ele era maluco, queria bater nele, ninguém contou quem era. Mas ele mandou jogar fora os lanches dos jogadores do Cruzeiro”.

Fundado em 31 de maio de 1930, o Siderúrgica continuará vivo, enquanto apaixonados pelo clube e pelo futebol resistirem, apesar de tantas dificuldades. A história de clubes pequenos, mas tradicionais como esse, não pode acabar.


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