01/02/2017 às 20h10min - Atualizada em 01/02/2017 às 20h10min

A filosofia de Michel Foucault através da narrativa cinematográfica

Foucault se auto denominava um arqueólogo do saber ao refletir e investigar a estrutura do pensar. É dessa forma, influenciado pelos escritos de Nietzsche, que ele nos colocará questionamentos acerca do homem. Questões que fazem esse mesmo homem se perceber como louco, se enxergar como ser vivo, se entender como ser do desejo e, principalmente, quando se pune quando criminoso. Para Foucault, a verdade está veemente ligada ao tempo em que vive, ou seja, uma verdade que só existe em sua época. A loucura aqui não é um fator biológico, mas cultural derrubando a íntima relação entre loucura e a medicina.

Pensando assim, a lista abaixo surge com o objetivo de se compreender um pouco do aforismo do pensador. É válido ressaltar que muitos dos diretores possam não ter tido uma leitura de Foucault para construção de suas obras, até porque alguns desses foram criados antes dos pensamentos foucaultianos


Laranja Mecânica (1971)

O criador dessa distópica narrativa, Stanley Kubrick, responsável por obras igualmente poderosas como O Iluminado (1980), 2001 – Uma odisseia no espaço (1968), Nascidos Para Matar (1987) entre outros, passa para a grande tela a literatura de Anthony Burgess de forma magistral e assustadora. O filme conta a história de Alex DeLarge, líder de uma gangue na desolada Inglaterra. Após praticar diversos crimes é preso e obrigado a se reeducar através de “programas” do Estado (o método Ludovico, por exemplo). Nessa obra, fica claro como o sujeito é manipulado de acordo com as formas de poder inseridas na sociedade.

“A disciplina é um princípio de controle da produção do discurso. Ela lhe fixa os limites pelo jogo de uma identidade que tem a forma de uma reatualização permanente das regras.” (Michel Foucault)


O gabinete do Dr. Caligari (1920)

Nessa obra alemã idealizada por Robert Wiene, nos é apresentado a história de um místico chamado Dr. Caligari, um homem que perambulava pelas cidadelas italianas ao lado de um sonâmbulo, apresentando-o em feiras e quermesses. Em cada lugar que visitava deixava um rastro com abomináveis assassinatos que sempre aconteciam com a ajuda do seu fiel sonâmbulo. Essa é uma obra que dá início ao expressionismo cinematográfico alemão, ou seja, filme que coloca o pessimismo do pós-guerra, lembrando que fora produzido num dos períodos mais conturbados da história alemã: o fim da Grande Guerra (1914 – 1918). Percebe-se a predominância do jogo de luz e sombras, do negativo, dos cenários desfigurados que confere ao filme o título de primeira obra do cinema de horror.

“Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta.” (Michel Foucault)


Uma página de loucura (1926)

Teinosuke Kinugasa é o criador de uma das obras mais importantes do cinema japonês. É um filme que recupera muito do expressionismo visto em “O Gabinete do Dr. Caligari” colocando em tela imagens assustadoras como as dos espelhos tortos que deforma as pessoas e objetos. O filme conta as desventuras de um marinheiro que consegue um trabalho num manicômio a fim de libertar sua esposa. A mulher teria sido aprisionada após a tentativa de suicídio por ter afogado seu filho. A poesia em tela é contada de uma forma nada mística através da visão de universo dos “doentes mentais”.

“A alma, prisão do corpo” (Michel Foucault)


Um Estranho no Ninho (1975)

Jack Nicholson dá vida a McMurphy, um prisioneiro que se finge de ‘louco’ para escapar de trabalhos forçados, de forma a ser transferido a uma clínica psiquiátrica. É nesse lugar que o protagonista descobre um universo distinto e talvez, paralelo ao que vivia, onde os pacientes possuem uma rotina que vai de fazer fila para a medicação até as sessões de terapia. O longa desperta o espectador da imobilidade colocando-o novamente em movimento. A obra de Milos Forman, baseada na narrativa literária de Ken Kesey é de extrema relevância para a criação e concepção de um homem que quebra com o comodismo, com a rotina e a conformidade.

“Os problemas da loucura giram ao redor da materialidade da alma.” (Michel Foucault)


Ensaio de Orquestra (1978)

A obra que retrata com exatidão uma sociedade que não se encontra em sintonia trabalha com a música e a crítica social de uma forma como só Fellini conseguiria reproduzir em tela. Uma das últimas obras do consagrado diretor traz a história de uma orquestra convidada a fazer uma performance em uma velha capela da Roma medieval. As hierarquias e as competições são colocadas na mesa quando uma esquipe de televisão resolve entrevistar os instrumentistas no local. É impossível deixar de notar a crítica que permeia o longa em suas mais díspares nuances: o comportamento social e a de líderes e figuras políticas que influenciam seu povo. Definitivamente uma das narrativas mais proféticas do cinema mundial.

“De homem a homem verdadeiro, o caminho passa pelo homem louco” (Michel Foucault)


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