30/01/2017 às 19h53min - Atualizada em 30/01/2017 às 19h53min

De “boteco de verduras” a borracharia comércio celebra 4 décadas

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Washington, Guri e Borracha[/caption]

Não que estamos desejando isso, ou lançando uma premonição aqui no Uberaba Popular, mas pode acontecer de o pneu do seu carro furar na região do bairro Fabrício.

Certamente vão te indicar passar lá no seu José Eurípedes Venâncio.  Por nome assim, só familiares e amigos íntimos vão identificar. Mas pergunte pelo “Borracha”, e aí pronto, não vai precisar de detalhes para encontrar a borracharia na esquina da avenida Lucas Borges.

Seu Borracha, 60 anos, nos recebe bem à vontade, vestindo camiseta e bermuda, afinal, no calor de 30 graus, trabalhar cercado de rodas, graxa e pneus é mesmo para os fortes. Nos convida para conhecermos os fundos da borracharia onde estão guardados dezenas de pneus seminovos e duas magrelas.As bicicletas estão ali, no canto, há pelo menos 20 anos, quando o socorro ia a pedalo até o cliente que precisava fazer algum reparo nas rodas do veículo. “A gente ia de bicicleta pra chegar mais rápido, colocava o pneu na garupa e ia embora”.

No cômodo ao lado, mais pneus amontoados, um tanque com água e os equipamentos que seu Borracha usa para os remendos. Na madeira que sustenta o telhado, quatro objetos chamam atenção: um quadro do Botafogo pareado ao do São Paulo, uma foto de um homem em frente a um casarão bem antigo e um relógio de parede que não está numa delas e simplesmente parou no tempo, precisamente as 16h40 de um dia qualquer. Dessa curiosidade em saber quem é o homem da foto surge a prosa que nos leva a uma rápida e intensa viagem até 1977.

Seu Borracha é o homem na fotografia já amarelada. Estava no auge dos 20 anos quando deixou a cidade natal de Santa Juliana e veio com os sete irmãos para Uberaba. O casarão construído na década de 20 estava para alugar e seu Borracha precisava sustentar a família.

Foram 16 anos pagando aluguel até a compra do imóvel. “Antes de ser borracharia era um boteco de verduras, assim que chamavam varejão naquela época, esses nomes de sacolão, verdureiro, isso não existia, era boteco de verduras mesmo. A dona da casa tinha perdido a mãe e decidiu vender, como eu já alugava há muito tempo, ela me deu preferência. Vendi uma caminhonete velha, juntei com outras economias e aí compramos, demos um valor simbólico de entrada e financiamos o restante”.

Conversa vai, conversa vem, quem conserta o furo no pneu é o filho de seu Borracha.

Washington  Luiz Venâncio, o responsável pelo quadro com escudo São Paulino na madeira do telhado, é o mais novo de um casal de filhos. Aos 12 anos, quando vinha entregar a marmita no almoço do pai, ficava observando o serviço e aprendeu o ofício. “ Comecei a estudar a noite e aí trabalhava o dia todo, fui ficando e estou até hoje”.

A borracharia tem até mascote! Sobrinho de seu Borracha, Guri, como é conhecido, é o xodó da família e dos clientes também. São cerca de 25 a 30 atendimentos por dia e quando o Guri não está por ali para recepcionar os fregueses, todos estranham a ausência. “Guri está com a gente há dez anos, é um chamariz de cliente, conquista todo mundo com o jeitinho especial”.

-Seu Borracha, digo e faço uma pausa. Não que eu queira ver, mas cadê os pôsteres de mulheres peladas, toda borracharia que se preze não tem uns, ou isso nem existe mais?

“Ah, isso é passado. O público mudou e a gente foi mudando também, com mulher e criança, não dá mais para ficar com eles expostos aqui. Minha esposa sempre brigava, eu falava que era por causa dos clientes, mas no fundo a gente também dava uma olhadinha também”, conta e em seguida dá uma daquelas boas gargalhadas.

Seu Borracha revela que muitas vezes nem se recorda da identidade como José Eurípedes , não esquece mesmo a paixão por dona Euripa, com quem é casado há 40 anos e o time do coração, o Botafogo. “Não perdia um jogo, como era bom ver o Garrincha jogar, e aquela seleção de 62 era extraordinária. Ainda acompanho, mas a emoção daquela época era diferente”.

Enquanto exibe o álbum de fotos antigas, da época em que a moeda ainda era o cruzeiro, se derrete pela família e os cinco netos. “A Mariana, a mais novinha chegou há dois meses e eu sou coruja mesmo! Sonho em ensinar os meninos o serviço de borracheiro. Quero que estudem sim, mas para pagar os estudos terão de trabalhar e porquê não aqui? ”.

Tá pronto! Somos interrompidos com o aviso de que o pneu está novo em folha. Foi só um prego que nos levou até a Borracharia Avenida. Um furo de reportagem falar sobre as 4 décadas dessa história? Não sabemos. Certeza mesmo, é de que nos momentos mais improváveis, conhecemos pessoas que nos fazem querer parar no tempo, como o relógio pendurado na madeira.

- Quanto eu pago seu Borracha?

Dez cruzeiros! É o preço pelo serviço e o bordão da borracharia desde a época em que o simpático Borracha nem sonhava em contar essa história de vida.

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