07/11/2019 às 21h31min - Atualizada em 07/11/2019 às 21h31min

Sobre monstros e anjos

 

Hoje eu torci o pé. Inchou um pouco e a dor incomoda bastante, mas é preciso tirar proveito destes eventos que culminam em qualquer tipo de dor. Por alguns instantes, eu senti outra dor. Não aquele amargo sufocante de outros ferimentos que ninguém vê.

Enquanto eu caminhava, mancando, para o carro com o olho marejado, um rapaz conduzindo uma moto perguntou: tá tudo bem, moça? Aconteceu alguma coisa?

Com um pouco de vergonha de chorar na frente do desconhecido respondi: tudo bem! Obrigada.

Ele insistiu. Parou a moto. Olhou para mim com afeto e voltou a perguntar: posso te ajudar?

A lágrima caiu, mas insisti, também, que estava tudo bem e não precisava de ajuda.

Quem se importa, hoje em dia, com o outro? Não apenas com as pessoas desastradas que torcem o pé na rua, mas com aqueles que estão sentados ao nosso lado, deslizando o dedo num aparelho eletrônico, sufocando dores, chorando lágrimas invisíveis?

Quem se importa com a sua caminhada, com os seus tropeços ou as suas quedas?

Quem, de fato, se importa com os caminhos que tivemos que refazer ou com os passos que daremos à frente?

Amanhã o pé desincha e não vai mais doer. Todas as outras dores estarão de volta. O rapaz da moto não estará aqui para perguntar se pode me ajudar, mas a caminhada vai continuar.

Um passo de cada vez. Um aprendizado de cada vez.

Hoje, eu poderia escrever sobre monstros que usurpam a nossa confiança, que roubam os nossos sonhos e planos, que mentem e ferem o outro com a facilidade de quem toma um refrigerante na lanchonete da esquina.

Hoje, eu poderia falar do quanto tenho me machucado e de como os dias têm sido foda. Mas, prefiro falar do olhar do rapaz da moto. Da preocupação estampada gratuitamente, sem mesmo saber o meu nome.

Posso dizer que Deus, de alguma forma, mostrou que eu não sou errada. Não estou errada em acreditar, em me doar, em me entregar sem máscaras e sem personagens às peripécias da vida.

Posso dizer que o moço da moto me ajudou mais do que ele imagina. Ele me fez ver que eu não preciso mudar a minha essência por causa de um tropeço na vida.

Eu sei que irei encontrar muitos monstros por aí e que, por algum tempo, eles poderão me fazer muito mal, mas que na hora certa, no momento certo, são os anjos que se aproximam e são eles que nos salvam.

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