07/11/2019 às 21h26min - Atualizada em 07/11/2019 às 21h26min

O paraíso infernal das mentes que revelam as suas dores

Inspirado em uma visita ao Sanatória Espírita de Uberaba

 


Demorei alguns dias, depois da visita ao Sanatório Espírita de Uberaba, para compreender o meu sentimento sobre a experiência de chegar tão perto das pessoas que se expressam exatamente como são, ao mesmo tempo em que estão totalmente presas às amarras que as marginalizam, por consequência da saúde mental debilitada e dos vícios que carregam pela vida.

“ Jesus está voltando”, gritou um dos internos. O cenário era mesmo propício para o retorno do filho de Deus à terra. A ventania inesperada naquela tarde, o frio incomum do clima uberabense, o sacolejar dos galhos das árvores, o barulho dos frutos caindo na estrutura metálica e olhares sem cor, protagonizaram aquele dia.

“Não é hoje, não. É dia 15”, garantiu a moça que queria o meu celular emprestado para ligar para o pai.

Só ali compreendi a responsabilidade dos sentimentos. Só ali percebi que são eles que conduzem os nossos corpos e nos posicionam na sociedade.

Naquelas pessoas, o que se vê são excessos: de dor, de amor, de ódio, de fracassos, de verdades, de mentiras, de rancores, de mágoas, de apatia, de solidão e de desejos.

Não dá para condenar quem liberta os monstros que o persegue.  Por que haveríamos de conviver sozinhos com tanta crueldade? Por que somos discriminados quando mostramos ao mundo como a vida dói e como as pessoas nos machucaram? Há de se dar o perdão aos que revelam que todos os seus limites foram violentamente ultrapassados, que a carga pesou excessivamente e que os nossos medos nos transformaram em gritos e fúria.

Há de se perdoar aqueles que deveriam ter gritado sãos. Eles teriam feito menos barulho e assustado menos as pessoas.

Há de se perdoar aqueles que teimaram em engolir o choro e foram se refugiar nos entorpecentes alucinógenos. Estes sim, lhes garantiram uma vida mais bela.

Enquanto eu observava aquelas pessoas cheias de histórias e donas das suas próprias verdades, refleti que é preciso manter o coração sadio. Devemos nos libertar das obrigações que não são nossas, superar amores que não nos amaram e ter o perdão como escudo. O nosso anjo guardião da mente e da alma. Fácil?

Claro que não. É uma batalha diária entre emoção e razão e não dá para saber quem vencerá.

Aquelas pessoas consideradas fortes e imbatíveis também perdem as suas lutas. A minha ida ao sanatório, por exemplo, foi para visitar uma heroína que não conseguiu se salvar. Logo ela, a mulher que dançava conforme a música e que cantava para espantar os males. A mulher que fez do trabalho sua forma de viver mesmo na confusão de não saber mais quem realmente é.

Por tudo isso, não é possível sentir pena das pessoas que estão lá dentro. A nossa compaixão deve ser dada a todos que, do lado de fora dos muros vigiados de um hospital psiquiátrico, estão enlouquecidos e enlouquecendo, dia após dia, sem poder se revelar.

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