07/11/2019 às 20h56min - Atualizada em 07/11/2019 às 20h56min

O silêncio que ensurdece o coração

 



Detesto dirigir, mas sempre que preciso pensar na vida, pego uma linha reta, sentido a lugar algum e vou. Dirijo até enquanto a mente borbulhar e, só então, tento achar um retorno para casa. Tem sido assim e cada vez mais frequente. A moto me dá a liberdade do vento no rosto e no carro Nana Caymmi canta Ponta de Areia para mim.

Estou sem sertralina há quatro meses, depois de 4 anos ininterruptos de uso de 100mg diárias. Para quem não sabe o que isso significa, resumo que passei 1.460 dias sem chorar, mas sem sorrir. Pensando racionalmente cada passo, sem dor e sem ansiedade. Parece bom, mas não é.

Isso para uma pessoa que tem todos os sentimentos à flor da pele é uma lástima. Omitir o que sinto não é comigo. Sou muito espontânea no meu modo de amar, odiar, desejar e ser indiferente a qualquer um.

E quem disse que enfiar a cabeça no sentimento é de todo ruim? Vai sim dar umas raladas bem dadas na face. Vai sim ferrar com as suas convicções e provocar milhares de decepções, mas isso é estar vivo, meus caros!

Hoje, numa destas retas de meia hora, lembrei de uma pessoa que faleceu mês passado e, que por morosidade minha, não me dei a oportunidade de entrevistá-la.

Foi em um jantar no Hotel Tamareiras que de cara me encantei com a pianista na cadeira de rodas e quis saber quem era.

Engraçado como os uberabenses não divulgam os seus artistas, não é mesmo? Eu não conhecia a Maria Aparecida. Pianista há quase 70 anos, professora no Conservatório Estadual Renato Frateschi . Ela casou muita gente tocando o piano da Catedral Metropolitana, mas viveu sozinha com a sua música.

Voltei algumas outras vezes ao restaurante. Em uma delas fiquei comovida ao observar o garçom levando a pianista para casa. Bem-humorado, imitando o carro na pista de corrida, sorriam os dois, descendo a passarela de acesso ao outro lado do hotel. Saíram do elevador ainda sorrindo e cantando, como haveria de ser.

Aos 88 anos, Cida só fechava o piano no restaurante do hotel à meia noite em ponto. Lembro-me de sentar ao lado da dela, pedir o seu contato e pré-agendar uma entrevista. Queria ter ouvido a sua história. Queria ter me encantado ainda mais por aquela mulher.

A morte chegou, antes de mim, no dia 21 de agosto. Soube por uma postagem, no Facebook, que informava o local do velório.

A lembrança da dona Cida não surgiu no final do meu dia por acaso, mas para me ajudar a refletir sobre como devemos ser breves na demonstração dos nossos sentimentos. Não devemos adiar encontros, retornos, passagens…Não devemos adiar zelo, cuidado, bons dias e boas noites. Não há lógica na omissão dos nossos desejos.

Toda noite eu ligo para os meus amados: pai, mãe, irmãos, sobrinhos. Termino a ligação com o tradicional “eu te amo”. É assim com os amigos, com os meus tios preferidos, com os amores que foram, com os que ficaram e com os que estão. É assim, porque a vida é um sopro. A nossa caminhada é breve e ninguém garante que vamos nos reencontrar um dia.

Eu queria ter dito à Dona Cida que eu estava encantada com a sua música. Embasbacada com a serenidade com a qual dedilhava as teclas do piano, aos 88 anos, quase meia noite.

Não perco mais tempo racionalizando se o que eu sinto é reciproco. É melhor fazer logo. O tempo é o senhor dos nossos destinos. Não importa quantas vezes o seu eu te amo passou batido no coração de alguém. O que prevalecerá sempre, é a consciência de ter feito quando o seu coração pediu.

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